05/01/2018

Pitirim Sorokim - A caça aos pequenos grupos elementares

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. O contraponto sempre é interessante, mesmo que de uma forma ácida, agressiva e irônica. Se conseguirmos não nos deixar mobilizar, podemos produzir boas reflexões.


A caça aos pequenos grupos elementares

Pitirim Sorokin
 




Novas Teorias Sociológicas 
http://www.continents.ventajas.com/bluestunningbar.gifSeguindo o preceito dos biólogos do século XIX, segundo os quais o estudo da estrutura e evolução do organismo deveria começar pelas suas formas menores e mais simples, vários sociólogos e psicólogos "descobriram" nestes anos mais recentes o "pequeno grupo" como unidade social elementar. Deram, assim, início a uma intensa investigação de "pequenos grupos" como a forma de abordagem mais promissora para o descobrimento de generalizações aplicáveis aos grandes grupos e ao universo inteiro dos fenômenos sociais. O impulso inicial a esse estudo dos pequenos grupos foi dado pela teoria dos átomos sociais de Moreno e pela sua "sociometria", bem assim como pelos esquemas pseudomatemáticos da "dinâmica de grupo" de K. Lewin. Sob a influência desses autores, vários investigadores mais jovens - como os adeptos da "Dinâmica de Grupo",R.Bales, A. Bavelas, G. G. Homans, E. F. Borgata e outros - empenharam-se entusiasticamente em estudos de pequenos grupos e puseram em moda tais estudos. Os partidários desse movimento vêm cantando loas, num "crescendo", ao caráter revolucionário de suas descobertas e à natureza excepcionalmente científica dos seus estudos. Pretendem ter descoberto, pela primeira vez na história, o pequeno grupo cientificamente - isto é, experimental, objetiva e quantitativamente. Sustentam, da mesma forma, que antes da sua investigação cientifica o que as ciências psicossociais produziram foi, sobretudo, uma filosofia especulativa de gabinete. 

Ao examinarmos cuidadosamente essas pretensões, vemos que são em grande parte infundadas. Quando os métodos de pesquisa desses cientistas são considerados a sério, verifica-se que consistem principalmente em processos pseudoexperimentais e pseudoquantitativos; quando suas descobertas são analisadas, mostram ser ou redescobrimentos de velhas leis, ou ninharias insignificantes, ou simplesmente erros. 

Para início de conversa, os investigadores de pequenos grupos não têm sequer a apresentar uma definição satisfatória do que seja pequeno grupo. Suas definições acentuam duas diferenças específicas dos pequenos grupos: (1) a interação face a face, "em que cada membro recebe uma impressão de outro membro, bastante nítida para que ele possa mostrar uma reação a cada um dos outros como pessoa individual, ainda que seja apenas para tomar conhecimento da presença do outro"; (2) um pequeno número de membros flutuando de um a cerca de vinte cinco. De acordo com esta definição, um encontro face a face de vinte pessoas mais ou menos, até então desconhecidas umas das outras, e em que cada membro recebe uma "impressão clara" de muitos outros membros da reunião - quer se trate de um "cocktail party" casual, quer de uma reunião política espontânea ou de um "revival" religioso - não constitui um pequeno grupo. Por outro lado, uma série de sessões de um parlamento com cerca de 600 membros, em que cada um deles conhece todos os outros, ou uma convenção do Partido Republicano, onde mais de mil delegados, que provavelmente se conhecem todos, interagem face a face, tem pelo menos uma das duas características de um pequeno grupo. Além disso, somos informados de que uma pessoa, quando fala consigo mesma, constitui um "pequeno grupo". Assim, de acordo com as características básicas da definição de um pequeno grupo, muitos grupos grandes são pequenos grupos, enquanto muitos grupos pequenos não são pequenos grupos em absoluto. Como surpresa adiciona, vimos a saber que um pequeno grupo pode ser tão pequeno que consista numa só pessoa. 

Usar os termos "pequeno" e "grande" em sentidos quase opostos aos que geralmente têm não contribui para aclarar a definição. Na verdade, cria uma confusão sem remédio em torno do problema e torna o conceito de pequeno grupo excessivamente vago e até contraditório. 

Além disso, a definição do pequeno grupo não descreve nenhuma classe homogênea de grupos sociais; apresenta-nos, ao invés, uma verdadeira miscelânea de grupos os mais dessemelhantes, pois que qualquer das duas características pode ser encontrada entre os mais heterogêneos grupos ou reuniões de pessoas. Assim, a interação face a face ocorre no encontro de dois amantes, do algoz e do condenado, numa reunião de família, nas reuniões dos diretores de uma companhia, nas interações de uma multidão remoinhante e vociferante; numa discussão de grupo, num pelotão no campo de batalha, numa sessão de parlamento, numa convenção política etc.  A simples razão face a face não torna semelhantes a esses e centenas de outros grupos, nem os inclui na mesma espécie de grupo. Um pequeno número de membros é encontrado entre grupos os mais dessemelhantes: na família, na direção de uma companhia, num grupo de conspiradores revolucionários, numa quadrilha de criminosos, em várias espécies de clubes "fechados" e em centenas de outros grupos tão diferentes uns dos outros quanto é possível ser. 

Unificar os grupos mais heterogêneos numa única classe, a dos pequenos grupos", é contrário à regra científica fundamental de classificação dos fenômenos. É tão anticientífico como a unificação, numa espécie "nariguda", de organismos tão diferentes como insetos, peixes, cães, pássaros e homens, ou numa espécie "rabuda", de cobras, formigas, cavalos e aves. Sabemos muito bem que uma tal espécie é tudo menos uma espécie. Pela mesma razão, a classe dos pequenos grupos não é em absoluto uma classe. A própria tentativa de formar uma classe especifica com os pequenos grupos carece de qualquer base lógica, semântica e empírica. É mais ou menos tão anticientífica como seria a tentativa de um botânico, de formar uma espécie particular de pequenas plantas com todas as que medissem de 1 a 25 polegadas de altura, ou de um zoólogo, de formar uma nova espécie de pequenos organismos com todos aqueles que pesassem de 1 a 25 libras. Em Biologia não existem tais classes taxonômicas; se alguém sugerisse, não teriam a menor possibilidade de ser aceitas. Em sociologia, infelizmente, continuam sendo propostas e têm notável aceitação nos dias que correm. 

O "pecado original" dos adeptos dos pequenos grupos é não possuírem nenhuma verdadeira classe de grupos sociais para seu estudo e de não saberem exatamente o que sejam os pequenos grupos que estão tentando investigar. Esse "pecado" é responsável pelos muitos defeitos e erros de suas diligentes pesquisas - por exemplo, a falsa suposição de que o pequeno grupo é a unidade mais simples dos grupos ou estruturas sociais. Pela interação face a face e pelo número de seus membros, a família é um pequeno grupo; sem embargo, pela sua estrutura e pelas suas funções, é um dos grupos mais complexos e mais enciclopédicos de todas as organizações sociais. Pelo número de seus membros, muitas associações nacionais e internacionais como os partidos Democrático e Republicano, a Federação Americana do Trabalho ou a Associação Nacional de Manufatores, são vastos grupos com milhões de membros. Estrutural e funcionalmente, são grupos muito mais simples do que a família. Estruturalmente, os membros dessas vastas associações são ligados apenas por um único ou uns poucos vínculos ou interesses - econômicos, ocupacionais, recreativos, religiosos ou científicos - ao passo que os membros da família são ligados por muitos vínculos ou interesses. Funcionalmente, as atividades dessas vastas organizações também são muito menos enciclopédicas, mais estreitas e especializadas do que as atividades "enciclopédicas" da família.  Em muitas comunidades reais (Gemeinschaften) são de pequeno tamanho em comparação com muitas associações (Gesellschaften), e no entanto estrutural e funcionalmente, tais comunidades são muito mais complexas do que numerosas grandes associações. O tamanho reduzido de um grupo não faz dele necessariamente um grupo simples, e vice-versa. Os adeptos dos pequenos grupos erram grosseiramente ao igualar pequenos grupos com grupos simples. Se quisermos seguir o preceito "do mais simples ao mais complexo", um estudo dos grupos sociais não tem necessariamente de começar pelos grupos menores e passar depois aos maiores. Esse preceito em si mesmo, porém, não é um principio metodológico universal: em muitos casos é mais aconselhável seguir o preceito aristotélico contrário, segundo o qual as propriedades de um carvalho podem ser estudadas com mais proveito num carvalho adulto do que numa bolota. 

O estudo de pequenos grupos e da espécie de grupos selecionados para estudo pelos pesquisadores de pequenos grupos tem sido feito ao acaso e às cegas. O grosso dos grupos investigados representa uma coleção incidental, semi-organizada ou inorganizada, de estudantes, soldados, trabalhadores ou moradores de um prédio (quarto, apartamento, sala de aulas, seção de fábrica etc.), até então desconhecidos uns dos outros e reunidos atabalhoadamente, muitas vezes pôr ordem de seus superiores ou mediante uma promessa de remuneração, a fim de "discutir", "resolver problemas", "ser entrevistados e interrogados" e outros propósitos artificiais da mesma espécie. Essas reuniões incidentais podem ser descritas com mais exatidão como "grupos de bate-papo". De quando em quando um grupo organizado e inteiramente heterogêneo, como a família em Tikopeia, um clube metropolitano, uma pequena seita religiosa ou uma panelinha política, é estudado pelos investigadores de pequenos grupos, que se esquecem de sublinhar as profundas diferenças entre grupos organizados, inorganizados e nominais: todos recebem o mesmo tratamento. Não admira que o estudo dessa "mélange" de grupos tenha dado escassos resultados. 

A crítica acima não significa que as formas especificas de pequenos grupos não possam ou não devam ser estudadas. Pelo contrário, pequenos grupos como as díades e tríades, a família, uma pequena aristocracia, um pequeno grupo de negócios, uma pequena seita ou partido político, etc., têm sido estudados com proveito. Entretanto, cada uma dessas coletividades é estudada não apenas como um pequeno grupo em geral, mas como um grupo especifico cujas propriedades estruturais, dinâmicas e funcionais não podem ser estendidas a todos ou a muitos grupos com reduzido número de membros. As propriedades básicas da família e as relações de marido-mulher-filho não podem ser extrapoladas muito além da tríade familiar, nem aplicadas a todas as díades, tríade e pequenas coletividades comerciais-religiosas-criminosas-educacionais- militares-politicas. Tampouco podem ser aplicadas aos grupos inorganizados e nominais, e vice-versa. Se as propriedades de um desses grupo específico forem extrapoladas para outros grupos, como costumam fazer os nossos descobridores de pequenos grupos, os resultados não poderão deixar de ser ilusórios, falhos de qualquer sentido ou cognitivamente insignificantes. 

Rejeitamos a asserção dos recentes investigadores de pequenos grupos, segundo os quais, antes das suas pesquisas, tais grupos mal eram estudados, e são eles os seus descobridores. Essa pretensiosa asserção não tem base nenhuma. Desde Confúcio, pelo menos, uma série de pequenos grupos específicos, a começar pela família, têm sido cuidadosamente estudados por muitos pensadores, que os investigaram como grupos específicos e sabiamente se abstiveram de extrapolar os resultados da pesquisa para além do grupo estudado. A esse respeito, seu procedimento foi muito mais cientifico que o dos recentes investigadores da classe fictícia dos pequenos grupos em geral. A família e os familiares, as díades de mestre-aluno, amo-escravo, vendedor-comprador e empregador-empregado; as tríade de juiz-acusador-réu, marido-mulher-amante; as pequenas Bruderschaften, a pequena guilda, casta, aldeia e muitas outras pequenas coletividades já foram bem analisadas pelos autores do Código Hamurabi, por Confúcio, Mo-ti, Mêncio, pelos autores dos Puranas, Tantras, Arthasastras e Nitisastras hindus; foram estudadas nas Leis de Manu, nas Institutas de Vishnu e por autores como Kautilya, Platão, Aristóteles, e especialmente pelos grandes juristas romanos cuja obra foi incorporada no Corpus Juris Civilis. Por si só, este Corpus oferece definições tão adequadas, minuciosas e bem analisadas dos principais grupos, corporações e instituições específicos tanto pequenos como grandes, que ainda vive não apenas nos códigos jurídicos como na própria vida social do Ocidente. Comparadas com essas definições, fórmulas e análises, as feitas pelos recentes
investigadores de pequenos grupos não passam de frívola parolagem. 

Quanto mais depressa esses investigadores abandonarem as suas infantis pretensões de serem os descobridores dos pequenos grupos, e quanto mais depressa fizerem conhecimento com o Corpus Juris Civilis e outros antigos estudos dos principais tipos de pequenos grupos organizados, melhor será para eles e para a Sociologia. 

Quanto mais detidamente examinamos os decantados métodos experimentais, operacionais, quantitativos e objetivos das recentes investigações de pequenos grupos, mais se evidencia o já tão conhecido verniz imitativo desses métodos, aplicado principal ao velho "testemunho de oitiva" dos participantes de grupos recrutados às pressas para "discussão", "solução de problemas" ou, mais exatamente, "bate-papo". Ao primeiro relance, a montagem e os procedimentos desses investigadores nos parecem na verdade proficientes e objetivos. Seus pequenos grupos congregam-se num laboratório especial, equipado com um "espelho unidirecional", com gravadores de som e registradores de interação. Esses frangalhetes supostamente permitem ao investigador observar, gravar e encaixar em uma de suas categorias cada "unidade de discurso" de cada membro. A classificação de R. F. Bales pode servir como exemplo típico de tais categorias. Bales divide nas seguintes classes todas as reações verbais e ações exteriores possíveis dos membros: "(1) mostra solidariedade; (2) mostra relaxamento de tensão; (3) concorda; (4) dá sugestão; (5) opina; (6) dá orientação; (7) pede orientação; (8) pede opinião; (9) pede sugestão; (10) discorda;
(11) revela tensão; (12) mostra antagonismo." 

No fim da sessão, o investigador-observador tem em mãos o registro de todas as unidades de expressão verbal e de ação de cada membro, a quem se dirige cada expressão verbal ou ação, em que ordem se sucedem e a categoria a que pertence cada uma. Esses dados são então submetidos a uma manipulação estatística a fim de nos fornecerem conhecimentos científicos, até então ignorados, sobre os processos de interação e a estrutura e a dinâmica de toda sorte de pequenos grupos. Os resultados obtidos costumam ser generalizados e aplicados a muitos outros grupos, pequenos e grandes. Os pequenos grupos de Bales flutuam em tamanho de dois a dez e de três a seis participantes.

Seus membros são graduandos de Harvard, recrutados por meio do departamento de empregos dessa Universidade.  Os estudantes não se conhecem uns aos outros antes do primeiro encontro. Cada grupo teve quatro reuniões para discutir um "caso relações humanas". 

A despeito de todo esse verniz cientifico, o processo inteiro é, na realidade, altamente subjetivo, arbitrário e baseado em pressuposições excessivamente vagas e idéias duvidosas. Em primeiro lugar; conceitos centrais do estudo - a "unidade de expressão verbal" e a "unidade de ação" - ficam praticamente sem definição. Devemos considerar cada palavra separada como uma "unidade de expressão verbal"? ou cada proposição formada de sujeito-cópula-predicado? ou uma série de proposições que versam sobre o mesmo assunto? ou que mostram o mesmo colorido emocional? ou que se dirigem ao mesmo membro? ou que? Um esboço muito vago e nebuloso dessas unidades não facilita em nada a sua definição. Daí resuIta que só a decisão perfeitamente arbitrária do observador determina que palavras ou atos compõem uma "unidade de expressão verbal" ou uma "unidade de ação".  Como esses conceitos centrais ficam sem definição, toda a gigantesca estrutura analítica e estatística construÍda sobre eles não passa, em suma, de uma miragem. 

Não menos arbitrária é a operação de classificar cada "unidade de expressão verbaI" e cada "unidade de ação" de cada participante na continua e veloz corrente de palavras e de movimentos muitas vezes simultâneos. À diferença dos calculadores eletrônicos, o "registrador de interação" não classifica automaticamente as unidades de expressão verbal e de ação numa das doze categorias. A classificação é feita - também a toda a pressa - pelo próprio observador. Este, naturalmente, não tem tempo para analisar, cuidadosamente se as palavras pertencem a categoria "dá sugestão", "dá opinião" ou "dá orientação"; ou se incluem na categoria "discorda", "revela tensão" ou "mostra antagonismo". Mesmo que dispusesse de bastante tempo, ainda assim lhe seria difícil e muitas vezes impossível fazer uma classificação acurada, pois é tão grande a semelhança entre as categorias "dá sugestão", "dá opinião" e "dá orientação" que só mesmo uma intuição sobrenatural poderia distinguir entre elas e classificar cada uma sem perigo de erro. O mesmo se pode dizer das categorias "discorda", "revela tensão" e "mostra antagonismo".

Considerando-se que o observador, durante toda a sessão do seu grupo de "bate-papo", tem de registrar cada "unidade de expressão verbal" (indefinida), cada "unidade de ação" (também indefinida) por quem eIa é enunciada ou praticada, a quem se dirige e a qual das suas mal-definidas categorias pertence; considerando que vários membros do grupo podem estar falando e agindo simultaneamente; e considerando a pressa com que ele deve proceder a todos esses registros, análises e classificações, concluímos que não há observador capaz de desempenhar com exatidão e objetividade essas tarefas impossíveis. É inevitável que ele as realize impulsivamente, arbitrariamente e às tontas. Portanto, se dois aspectos básicos do estudo - a definição das unidades de expressão verbal e de ação e o método usado para classificá-Ias - são predominantemente subjetivos e arbitrários, a maioria dos outros dados da pesquisa, a maior parte de sua superestrutura estatística e o grosso das conclusões também serão subjetivos, arbitrários, pseudo-experimentais e pseudoquantitativos. Não há trangalhetes nem espelhos unidirecionais, não há longas séries de cifras e de índices que possam disfarçar a natureza essencialmente anticientifica de toda essa operação de pesquisa.
Vários outros defeitos importantes vêm viciar ainda mais essas operações. A classificação das doze categorias é feita a esmo. Não tem nenhum fundamentum divisionis. Várias dessas categorias, como "dá sugestão", "dá opinião" etc., são tão semelhantes e em parte coincidentes que o mais cuidadoso dos investigadores, com tempo de sobra, não poderia decidir a qual delas pertence esta ou aquela "unidade de expressão verbal". Por outro lado, a classificação numa só categoria, palavras e ações notavelmente dissímiles entre si. Por exemplo, a categoria "dá orientação" abrange "informação, repetição, esclarecimento e confirmação". Evidentemente, "repetição não é sinônimo de "informação", e "esclarecimento" significa algo diferente de "confirmação". Uma classificação tão mal-amanhada do ponto de vista lógico como do fatual é um instrumento dos mais insatisfatórios para um estudo de unidades verbais e comportamentais e torna inevitável o caráter altamente arbitrário e subjetivo da operação de pesquisa. 

Acresce que as categorias da classificação se propõem a descrever tecnicamente as reações verbais dos participantes; não são apropriadas para lhes descrever as ações não verbais. Omitindo quase inteiramente a conduta exterior dos participantes e os motivos de suas ações, os estudos dos nossos investigadores não fazem mais do que deslizar sobre a superfície verbal, sem tocar na conduta exterior dos membros de seu grupo incidental de "bate-papo". Neste sentido, a pesquisa é superficial e esquiva quase totalmente os problemas reais da interação social e dos fenômenos de grupo. 
As pretensiosas "descobertas" desses investigadores são, na realidade, ou trivialidades ponderosamente formuladas, ou tautologias disfarçadas por tábuas estatísticas, revelações há muito descobertas transcrições deturpadas das ciências físicas, ou simplesmente erros. Aqui vão alguns exemplos típicos dessas "descobertas". Se necessário, poderiam ser multiplicados à vontade.
"A interação é um processo que consiste em ação seguida de reação." Que magnífica tautologia! "[Para a liderança] deve existir um grupo com uma tarefa comum... e pelo menos um membro deve ter responsabilidades que difiram das dos outros membros" (R. M. Stodgill). Que verdade profunda! Eis ai uma descoberta quase tão nova como aquela de que "após a primavera vem o verão e, após o verão, o outono". No entanto, como não raro sucede com esse gênero de trivialidades, o autor da asserção esquece por vezes que o grupo e sua tarefa comum são criados por um líder.
"Alguns membros [de um grupo] podem ser considerados como superiores a outros na liderança [porque têm a responsabilidade de tomar decisões] (Stodgill)." Extraordinária, esta nova descoberta, não conta nem um dia mais do que 5.000 anos de idade. 

"Um aspecto significativo da nossa sociedade é que as pessoas desejam participar de grupos" (L. Festinger). Que revelação esta, especialmente depois das proposições de Aristóteles: "O homem é naturalmente um animal político" e "Em todas as pessoas existe um impulso natural para se associarem umas com as outras." 

Não menos impressionante é a descoberta de "por que as pessoas buscam a participação em grupos", de Festinger.  A resposta é porque "os grupos frequentemente [facilitam] a consecução de importantes metas individuais". As atividades dos grupos são amiúde atraentes para os membros. E são atraentes "por que as pessoas têm necessidades que só podem ser satisfeitas em grupos". O autor esquece de mencionar várias limitações importantes a estas verdades, como o fato de milhões de pessoas se tornarem membros de um grupo automaticamente, sem que os seus desejos sejam levados em conta. Por exemplo, a cidadania num Estado ou a participação numa casta é automaticamente imposta a todos os que nascem em tal ou tal Estado, ou de pertencentes a tal ou tal casta; por vezes muitos indivíduos, tais como prisioneiros de guerra ou criminosos, são coagidos a integrar um grupo de internados num campo de concentração ou presídio, contrariamente aos seus desejos. Essas participações automáticas e indesejáveis em grupos desempenham um papel não menos importante na vida de milhões de pessoas, do que as participações voluntárias e procuradas. 

A mesma conclusão é válida para os "descobrimentos" de Festinger sobre a relação entre a amizade (ou inimizade) e a proximidade territorial e "funcional", sobre as condições de uma ação comunitária eficaz e a quase todas as suas conclusões supostamente derivadas de estudos "experimentais" dos grupos de Regent Hill e de Westgate - seus estudos de "dissonância cognitiva." Cada uma de suas conclusões foi incomparavelmente melhor formulada, desenvolvida e demonstrada por muitos investigadores sociais das gerações anteriores.
Consideremos agora alguns descobrimentos relativos à "coesividade" dos grupos. Segundo John Thibaut, o termo coesividade significa "o campo total de forças que agem sobre os membros no sentido de fazê-los permanecer no grupo." Tanto o termo como a sua definição representam uma versão desvirtuada de uma proposição da Mecânica, tomada de empréstimo às ciências físicas. É uma asserção extremamente vaga e inadequada. Sem uma diferenciação preliminar da espécie de grupos cuja "coesividade" esta em causa, não é possível alcançar uma compreensão real das formas e das forças de "coesividade". O caso é que existem grupos "voluntários" e "coercivos", ou, mais precisamente, "familísticos" "contratuais" e "compulsórios". A diferença básica entre esses grupos manifesta-se por uma diferença fundamental das forças de coesividade que agem em cada um deles.  Os fatores que congregam os membros de uma família numa unidade e que permitem a esta manter a sua identidade, "coesividade" e continuidade são bem diversos dos fatores que obrigam os internados de uma prisão a permanecer no grupo. As forças que mantém juntos os empregados e o empregador de uma firma comercial ou industrial também são diversas daquelas que conservam unida uma família, um grupo de penitenciária ou os membros da Associação Norte-Americana de Sociologia. 

Esta diferenciação dos tipos de grupos que se conservam unidos e dos tipos de vínculos que os mantém nessa condição não é feita com clareza no estudo de Thibaut nem em outros do mesmo gênero. Resulta daí que todos os diligentes esforços desses sociólogos estudarem cientificamente o problema da coesividade dos pequenos grupos ainda não produziram nem uma só descoberta nova e significativa. Em comparação com o cabedaI de conhecimentos existentes nesse campo, as suas teorias, as uniformidades por eIes "descobertas e a sua visão integraI do problema, com todas as respectivas ramificações, ainda continuam na fase primitiva - uma fase há muito ultrapassada pelas ciências psicossociais de hoje. 
Aqui está a descoberta seguinte: "A atração do grupo é função das forças resultantes que agem sobre o membro."  Que "forças resultantes"? E como agem elas sobre os membros? Em Mecânica, todos esses termos são rigorosamente definidos e mensuráveis. Aqui, permanecem simples palavras vagas, sem qualquer significado ou mensuração definida. 

Continuemos a descobrir as "descobertas" dos nossos "pioneiros. Eis aqui novos exemplos de sua tautologia: "O termo coesão [de grupo] refere-se a fenômenos que assumem existência quando (e somente quando) existe o grupo." [Extraordinário, isto!] "Os membros do grupo que são... amigos... tendem a mostrar mais interesses uns pelos outros como pessoas, talvez a se prestarem mais apoio mútuo, a serem mais cordiais nas relações interpessoais." [Outra grande revelação! Reparem, especialmente, na extrema cautela "científica" deste notável "talvez".] Antes desta revelação julgávamos ingenuamente que, sem nenhum "talvez", "amizade" implicasse interesse mútuo, cordialidade e apoio aos amigos. Depois de tais revelações, inclino-me a repetir as palavras de Saintsbury: "Ó chavões! Ó rótulos! Ó parvoíces!" 
"Um aumento na frequência da interação entre pessoas pode intensificar-Ihes o sentimento favorável umas para com as outras." Se assim é, quanto mais frequentemente lutarem (interagirem) vietnamenses e americanos, mais favorável será o sentimento que desenvolverão uns em relação aos outros. Por conseguinte, a interação de luta e de ódio é um fator tão eficaz para o desenvolvimento da mútua admiração, simpatia e altruísmo quanto a ajuda recíproca Felizmente para Homans, no fim do parágrafo que enuncia e desenvolve esta generalização "cientifica", ele parece ter percebido o seu erro unilateral, pois acrescenta, em quatro palavras apenas, duas outras consequências possíveis da interação freqüente - a saber, o desenvolvimento de "respect or, worse, antagonism" (respeito ou, o que é pior, antagonismo). 

"A formação de grupos de cisão desintegrará a organização mais vasta quando as metas do grupo menor são incompatíveis com as do maior." Outra bela tautologia! Os grupos de cisão tendem a cindir ou desintegrar! Mas, como sucede a muitas tautologia, a asserção tautológica sob esta forma é inadequada, pois, em vez de desintegrar o grupo maior, o grupo menor é mais comumente suprimido por ele. Não menos empiricamente unilateral é a afirmação de que "a tendência para se fragmentar seria tanto mais provável quanto maior fosse o grupo". Se esta generalização fosse verdadeira, nenhum grande império, organização religiosa mundial ou grande sindicato de trabalhadores poderia surgir e existir por muito tempo. Na realidade, porém, durante a história da humanidade sempre houve vastos grupos, que, por via de regra, tiveram existência mais longa do que os grupos pequenos. 

R. F. Bales e seus associados iniciam o seu ensaio com a seguinte afirmação: "As frequências de comunicação entre os membros de pequenos grupos de contato pessoal mostram certas regularidades notáveis que não tinham sido descritas até agora... A detecção dessas regularidades representa uma significativa conquista para os nossos conhecimentos sobre a distribuição da comunicação em pequenos grupos e fornece uma estrutura básica de ordem, dentro da qual podem ser feitas muitas outras análises detalhadas dos processos de interação." Quanta modéstia!

Mas que são exatamente essas notáveis e significativas regularidades"? "Os fatos averiguados indicam que, se os participantes de um pequeno grupo forem classificados de acordo com o número total de atos que iniciam, tenderão a classificar-se na mesma ordem: (1) pelo número de atos que recebem; (2) pelo número de atos que endereçam a outros indivíduos específicos; e (3) pelo número de atos que dirigem ao grupo como um todo". 

Em palavras singelas, essas poderosas "uniformidades" significam que, num grupo de discussão, os membros mais palradores falam com mais frequência do que os outros membros e são respondidos com mais frequência pelos membros menos palradores. Desta bela tautologia podemos deduzir uma nova "notável e significativa uniformidade", omitida por Bales: As pessoas caladas falam com menos frequência do que os outros membros e são respondidas com menos frequência pelas pessoas mais loquazes. 

Como muitas outras tautologias, a de Bales não pode de forma nenhuma ser considerada como uma regra geral empírica para todos os grupos, pequenos e grandes. No grupo do tribunal, formado pelo réu, pelos advogados de acusação e defesa e pelos jurados, a maioria das manifestações verbais, contrariando a uniformidade de Bales, se dirigem aos jurados e ao juiz. Os jurados, por via de regra, permanecem silenciosos ao invés de serem os que mais falam; o próprio juiz geralmente fala menos do que os advogados. Um conferencista, um pregador e um comandante de pelotão a dar ordens são os únicos membros falantes dos respectivos grupos. Em geral, porém, não costuma estabelecer-se diálogo entre eles e os demais membros dos respectivos grupos. Num grande número de diferentes grupos, todos os membros falantes dirigem-se ao presidente, e contudo, este é muitas vezes o que menos fala no grupo. E assim por diante. 

Na imensa maioria dos grupos pequenos e grandes as "uniformidades" de Bales constituem antes as exceções do que a regra, do ponto de vista de quem realmente fala, a quem é dirigida a palavra, e com que frequência. E, o que é ainda mais importante, não há necessidade de uma diligente pesquisa do tipo Bales para averiguar a ordem, a frequência e as espécies de manifestações verbais dos vários membros de quase todos os grupos organizados: tudo isso pode ser deduzido facilmente da constituição de tais grupos. As leis, e regulamentos de cada grupo organizado fornecem informações muitíssimo acuradas sobre todos esses pontos do que as vagas e em grande parte fictícias uniformidades que os investigadores de pequenos grupos obtêm com um enorme desperdício de tempo, energia e fundos. 
Se repassássemos página por página todos os estudos publicados pelos recentes investigadores de pequenos grupos, encontraríamos, em quase todas as páginas, "descobertas", conceitos, definições e teorias representados pelos exemplos que demos acima. No entanto, leitura atenta dessas obras não me revelou uma só descoberta nova de importância mesmo terceira. Encontrei, sim, uma superabundância de pseudodescobertas. Os nossos investigadores, a passear num parque de fatos bem-cultivados parecem imaginar-se os pioneiros-exploradores de uma terra até então desconhecida, ou os primeiros escaladores de montanhas e picos científicos que, na realidade foram conquistados há muito tempo.


50 Teorias relevantes ao aprendizado

http://www.instructionaldesign.org/theories/index.html

02/01/2018

Paulo Freire e Humberto Maturna: Diálogo (Im)Possível?

https://www.metodista.br/revistas/revistas-unimep/index.php/comunicacoes/article/viewFile/2123/1498

Biblioteca Maturana da Escola de Redes

Este site disponibiliza grupos de estudo, livros, entrevistas, textos, e muito mais, sobre a obra de Humberto Maturana.

http://escoladeredes.net/group/bibliotecahumbertomaturana

A Epistemologia de Maturana

Epistemologia de Maturana
Licenciatura Plena em Química (Universidade de Cruz Alta, 2004)
Mestrado em Química Inorgânica (Universidade Federal de Santa Maria, 2007)
O termo epistemologia se refere ao estudo sobre a produção do conhecimento. Quando se menciona, no entanto, a epistemologia das ciências, se está abordando os pensadores que se preocuparam em investigar como se constrói um conhecimento de natureza científica. Dentre eles, Humberto Maturana merece destaque.
Maturana é biólogo, nascido em 1928 em Santiago, no Chile. Iniciou seus estudos acadêmicos na medicina, mas acabou seguindo carreira na biologia. Obteve Ph.D em biologia na Universidade de Harvard, e trabalhou em neurofisiologia no M.I.T. Atualmente é professor do Departamento de Biologia na Universidade do Chile. Sua obra de maior destaque chama-se Cognição, Ciência e Vida Cotidiana. Seu principal conceito é o da autopoiese.
Buscar-se-á propor um breve resumo sobre os principais conceitos em Maturana, não em sentido de resumo de toda sua obra ou resenha, mas em caráter pessoal de quem escreve, através dos itens abaixo:
  • Maturana é um epistemólogo diferenciado dos demais, pois é biólogo, ao contrário dos outros, que são físicos.
  • De acordo com ele, deve-se levar em conta sempre o observador, pois jamais há isenção entre observador e observado.
  • Assim, o explicar sempre depende do observador.
  • Sem linguagem o homem não existe. Vivemos todos na linguagem, a qual se fundamenta nas emoções, e estas são a base do fazer científico.
  • Maturana explica o conhecer a partir do conhecedor.
  • Não há sentido nem possibilidade de se conhecer sem se levar em conta o conhecedor.
  • Toda sua abordagem em ciências é de cunho biológico, e não físico.
  • Seu principal conceito é do da autopoiese, ou seja, um sistema que se auto regula. Esse conceito também ficara conhecido como a biologia do conhecer.
  • O conhecimento é uma perturbação de nosso sistema cognitivo, pois podemos fazer as nossas mudanças nas estruturas, mas não nas organizações estruturais, ou seja, em suas identidades.
  • A explicação sempre gera uma interpretação de nossa própria experiência.
  • Para Maturana, uma explicação torna-se válida apenas pela existência de alguém que a aceite como tal, sem nenhuma necessidade de outro embasamento.
  • Todo ser vivo tem características de organização, onde a perda da organização é a morte.
  • Essa organização, entretanto, não é estática, mas sempre existe uma organização cognitiva.
  • Não é o exterior quem determina a experiência, o sistema sempre funciona a partir de correlações interiores.
  • Conforme fora mencionado, sua noção de verdade reside apenas na aceitação desta por alguém, sem nenhuma necessidade de qualquer embasamento empírico.
  • O homem possui existência na linguagem, na comunicação. Assim, o homem não pode ser visto como um ente isolado.
  • Muitas vezes não é possível distinguir-se entre a observação e a ilusão, de modo que, de acordo com a sua visão, a ciência não pode ser objetiva.
  • O explicar algo é sempre uma reformulação do que “eu” já tive, até porque utiliza a “minha” própria linguagem. Não há possibilidade de existência de um conhecimento sem influência de quem o descreve.
  • A tolerância apenas considera uma posição; a aceitação compreende-a sob a ótica do outro.
  • A linguagem não existe na transmissão de informações entre o transmissor e o receptador, mas em uma modelagem entre eles.
  • A diferença do conhecimento científico é que o cientista que o produz deve ser cuidadoso para não permitir que as emoções intervenham no critério da validação das informações.
  • A ciência possui critérios de validação para a explicação, mas essa explicação jamais é única.
  • A ciência é uma atividade humana, conectada ao conhecimento. Ou seja, uma das formas que temos de produzir conhecimento chama-se coência.
  • Entretanto, esses critérios de validação não exigem que o observador seja independente daquilo que observa.
  • Somos nós que decidimos o que mudar em nosso sistema cognitivo no processo do conhecer, modificando a sua estrutura, mas jamais modificando a sua organização interna, que lhe dá suporte e caracteriza o ser vivo.
  • Nós estamos tentando perturbar os “sujeitos”, mas serão eles que decidirão o que fazer com essas perturbações.
Referências:
MOREIRA, Marco Antônio; MASSONI, Neusa Teresinha; Epistemologias do Século XX, EPU, São Paulo, 2011.

Videos com palestras, dialogos e entrevistas de Humberto Maturana



https://www.youtube.com/watch?v=bhkrB8WntNA

28/12/2017

A biologia do amor de Humberto Maturana

A biologia do amor de Humberto Maturana

Ele é um cientista diferente dos demais: consegue ver o ser humano pelas lentes do amor,

pela biologia do sentimento

http://www.revistaecologico.com.br/materia.php?id=105&secao=1846&mat=2128
Maturana: “É no amor que alcançamos o bem-estar e realizamos nossa condição humana” - Imagem: Rodrigo Fernandez/Wikimedia
Maturana: “É no amor que alcançamos o bem-estar e realizamos nossa condição humana” - Imagem: Rodrigo Fernandez/Wikimedia
Seria o neurobiólogo chileno Humberto Maturana, 88 anos, um ser mais evoluído, que veio de outro
planeta para renascer na Terra? Quem conhece algumas de suas obras mais famosas, como
“A Biologia do Amor”e “Á Árvore do Conhecimento”, sabe que há uma razão para fazermos essa
pergunta.
Maturana é um cientista diferente dos demais: consegue ver o ser humano pelas lentes do amor, pela
biologia do sentimento, enxergando-o em um sistema global de múltiplas interações. Há quem diga que
isso é impossível. Mas existe alguma barreira que o amor ou a influência da natureza em nossas vidas
não atravesse?
Nascido na capital, Santiago, Maturana é adepto do pensamento sistêmico, que defende uma visão
interdisciplinar, integrada e interdependente da realidade: o ser vivo, os objetos e o ambiente estão
em constante relação e devem ser estudados como um todo. Nessa abordagem, ciência, subjetividade,
espírito e, claro, o amor, caminham juntos.
Na orelha do livro “A Árvore do Conhecimento”, que escreveu junto com o também chileno Francisco
Varela, PhD em Biologia, há uma descrição que melhor representa a tese defendida por Maturana:
“Vivemos no mundo e por isso fazemos parte dele; vivemos com os outros seres vivos, e portanto,
compartilhamos com eles o processo vital. Construímos o mundo em que vivemos ao longo de nossas
vidas. Por sua vez, ele também nos constrói no decorrer dessa viagem comum. Assim, se vivemos e nos
comportamos de um modo que torna insatisfatória a nossa qualidade de vida, a responsabilidade cabe a
nós”.
E completa: “Nossa trajetória de vida nos faz construir nosso conhecimento do mundo – mas este também
constrói seu próprio conhecimento a nosso respeito. Mesmo que de imediato não percebamos, somos
sempre influenciados e modificados pelo que experienciamos”. Ou seja: um ser só sobrevive em um
entorno que o receba.
Para o neurobiólogo, o amor tem papel fundamental nisso, porque faz o homem evoluir.  “O que guia o
fluxo do viver individual são as emoções e na constituição evolutiva também. É o emocionar que se
conserva de uma geração a outra”, disse. Crítico da propaganda e do consumo insustentável, que,
segundo ele, são um “estímulo à cobiça”, Maturana destaca que o amor está sempre associado à
sobrevivência.
“Numa de suas parábolas, Jesus fala do camponês lançando sementes ao solo. Algumas caem nas
pedras e são comidas pelas aves, outras caem num solo árido e resistem por pouco tempo. Mas há
aquelas que encontram boa terra e crescem vigorosas. Assim também nós precisamos de um solo
acolhedor para nos desenvolver. Nosso solo acolhedor é o amor.”
É o que você, caro leitor, confere nesta seleção de frases e pensamentos que a Ecológico apresenta a
seguir:

Biologia do amar

“A biologia do amar é o fundamento biológico do mover-se de um ser vivo, no prazer de estar onde está
na confiança de que é acolhido, seja pelas circunstâncias, seja por outros seres vivos. No caso dos seres
humanos, isto é central na relação do bebê com sua mãe, com seu pai, com seu entorno familiar, que o
vai permitir crescer como uma criança que vai ser um adulto que se respeita por si mesmo.”
“Se você observa a história de crianças que se transformam em seres, chamemos assim, antissociais,
vamos descobrir que sempre tem uma história da negação do amar, de ter sido criado na profunda
violação de sua identidade, na falta de respeito, na negação de seu ser.”

Emoções

“As emoções são centrais na evolução de todos os seres vivos, porque definem o curso de seus fazeres:
onde estão, para onde vão, onde buscam alimentos, onde se reproduzem, onde criam seus filhotes, onde
depositam seus ovos, etc. Bem, com os seres humanos ocorre exatamente a mesma coisa. O emocionar,
o fluxo das emoções, vai definindo o lugar em que vão acontecer as coisas que fazem no conviver.”
“Se uma pessoa se move, por exemplo, a partir da frustração, isso vai definir continuamente o espaço
relacional na qual se encontra e o curso que vai ter seu viver. Se vive a partir da confiança, vai seguir um
curso distinto. Assim, portanto, o que guia o fluxo do viver individual são as emoções, e na constituição
evolutiva também. É o emocionar que se conserva de uma geração a outra na aprendizagem das
crianças.”             
                  

Cobiça

“Toda a visão do comércio que se associa ao estímulo da cobiça é destruidora da democracia. Quando
Jesus disse ‘não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo, não se pode servir ao dinheiro e ao
amor’, aponta certamente isso. Mostra que servir ao dinheiro tem a ver com a cobiça. Por isso, o jovem
rico para entrar no Reino de Deus tem que desfazer-se de suas riquezas, abandonar seus apegos,
porque o Reino de Deus é, de fato, amar. É a democracia.”

Propaganda

“Toda a propaganda para transformar as crianças em consumidores é um estímulo para a cobiça.
Provavelmente estas crianças serão adultos que vão cobiçar, porque cresceram na busca da satisfação de
qualquer coisa que querem, sem ter consciência do que isto significa no espaço social, no espaço de
convivência, por exemplo, de seus pais, que não necessariamente podem comprar tudo o que os filhos
querem.”

Competição

“A criança, ao jogar, aprende um modo de viver cuja atenção não está nas consequências, mas na
responsabilidade do que faz. Claro que vão ter consequências, mas elas não são o ponto central, e
sim aquilo que a criança está fazendo ao jogar. Se alguém aprende isso pode colaborar, pode estudar,
pode fazer qualquer coisa com satisfação e com prazer.”
“A competição não é nem pode ser sadia, porque se constitui na negação do outro.”

Crianças

“Não traiam as crianças! Não prometa acolhê-las quando os vai desconsiderá-las. Não prometa que vai
levá-las para brincar quando vai ordená-las que se sentem e fiquem quietas. Porque o que um professor
faz, às vezes, sem se dar conta, é trair as crianças em função do que ele quer que elas façam. Por um
lado as acolhe, mas na realidade as distingue. As crianças sabem exatamente quando alguém promete
algo e não cumpre, e vivem isso como uma traição. Isso gera dor e produz sentimentos, por que é uma
negação de nossa condição amorosa.”

Convicções

“Tendemos a viver num mundo de certezas, de solidez perceptiva não contestada, em que nossas
convicções provam que as coisas são somente como as vemos e não existe alternativa para aquilo que
nos parece certo. Essa é nossa situação cotidiana, nossa condição cultural, nosso modo habitual de ser
humanos.”

Determinismo

“Quando nos encontramos com um advinho profissional, que nos promete com sua arte de predizer o
futuro, em geral experimentamos sentimentos contraditórios. Por um lado nos atrai a ideia de que alguém,
olhando para nossas mãos e baseando-se num determinismo para nós inescrutável, possa antecipar
nosso futuro. De outra parte, a ideia de sermos determinados, explicáveis e previsíveis nos parece
inaceitável. Gostamos do nosso livre-arbítrio e queremos estar além de qualquer determinismo.”

Certezas

“O conhecimento do conhecimento obriga. Obriga-nos a assumir uma atitude de permanente vigília contra
a tentação da certeza, a reconhecer que nossas certezas não são provas da verdade, como se o mundo
que cada um vê fosse o mundo e não um mundo que construímos juntamente com os outros.”

Planeta Terra

“O mundo sempre foi maravilhosamente acolhedor. Se assim não fosse, a história do ser humano não
teria acontecido. Um ser só sobrevive em um entorno que o receba. Caso contrário, torna-se negativo e
agressivo e não resiste. Apesar de vivermos um momento de negação do amor, só sobrevivemos porque essa emoção persiste nos vínculos que definem a vida em sociedade. É no amor que alcançamos o
bem-estar e realizamos nossa condição humana.”

Dor

“A dor nos faz perguntar. Apesar de difícil, é uma oportunidade única de transformação, assim como a
curiosidade, que não nos permite submissão aos padrões externos. Quando tropeçamos, dói o pé. Isso
faz pensar sobre o modo de andar, a atenção ao caminhar, os desafios do trajeto. A dor da alma também
ensina.”

Amor

“O ser humano não vive só. A história da humanidade mostra que o amor está sempre associado à
sobrevivência. Sobrevive na cooperação. Se a mãe não acolhe o bebê, ele perece. É o acolhimento que
permite a existência. Numa de suas parábolas, Jesus fala do camponês lançando sementes ao solo.
Algumas caem nas pedras e são comidas pelas aves, outras caem num solo árido e resistem por pouco
tempo. Mas há aquelas que encontram boa terra e crescem vigorosas. Assim também nós precisamos de
um solo acolhedor para nos desenvolver. Nosso solo acolhedor é o amor.”
“O amor nos dá a possibilidade de compartilhar a vida e o prazer de viver experiências com outras
pessoas. Essa dinâmica relacional está na origem da vida humana e determinou o surgimento da
linguagem, responsável pelos laços de comunicação e que inclui ações, emoções e sentimentos.”
“O amor, ou, se não quisermos usar uma palavra tão forte, a aceitação do outro junto a nós na
convivência, é o fundamento biológico do fenômeno social. Sem amor, sem aceitação do outro junto a nós,
não há socialização, e sem esta não há humanidade. Qualquer coisa que destrua ou limite a aceitação do
outro, desde a competição até a posse da verdade, passando pela certeza ideológica, destrói ou limita o
do fenômeno social.”
“Amar é uma atitude em que se aceita o outro de forma incondicional e não se exige ou se espera nada
como recompensa. Amar implica ocupar-se do bem-estar do outro e do meio ambiente. Em vez de oferecer
instruções do que e como fazer, amar é respeitar o espaço do outro para que ele exista em plenitude.”