16/10/2015

Pesquisa de ação e problemas de minoria - Kurt Lewin, 1946

PESQUISA DE AÇÃO E PROBLEMAS DE MINORIA (1946).
No último ano e meio, tive ocasião de manter contato com um grande número de organizações, instituições e indivíduos, que vieram pedir assistência no campo das relações de grupo. Incluíam-se nesse número representantes de comunidades, sistemas escolares, escolas isoladas, organizações minoritárias de diferentes origens e objetivos; incluíam-se representantes de operários e administradores, departamentos nacionais e estaduais do governo, e assim por diante.
Dois fatos básicos surgiram desses contatos: existe uma grande dose de boa vontade, de disposição para enfrentar o problema com franqueza e fazer realmente alguma coisa a respeito. Se esta dose de séria boa vontade pudesse ser transformada em ação organizada e eficiente, não haveria perigo nas relações intergrupais nos Estados Unidos. Mas é exatamente aqui que está a dificuldade. Essas pessoas bem intencionadas sentem-se confusas. Sentem-se confusas por três razoes: 1. Qual é a situação atual? 2. Quais são os perigos? 3. E a mais importante, que vamos fazer?
Dirigimos um levantamento por entrevistas entre assistentes de relações intergrupais no Estado de Connecticut. Queríamos conhecer sua linha de pensamento, sua linha de ação e as principais barreiras que encontravam. Não poucos daqueles, cuja tarefa é exatamente a melhoria das relações intergrupais afirmaram que talvez o maior obstáculo ao seu trabalho seja sua própria falta de compreensão clara do que deveria ser feito. Como se poderá combater a discriminação econômica e social, se pensarmos não em termos de generalidades, mas em termos dos habitantes daquela rua principal específica e daquelas ruas adjacentes que constituem a pequena ou grande cidade em que o assistente tem de realizar o seu trabalho?
Uma das consequências desta indefinição é a falta de padrões com que medir o progresso. Quando o assistente de relações intergrupais, de volta da reunião de boa vontade que ajudou a promover, pensa nos dignatários que conseguiu mobilizar, dos inflamados apelos que ouviu, na impressionante decoração do palco e na excelência da comida, não se pode impedir de ficar exultante com a atmosfera geral e com as palavras de elogio dos seus amigos à volta. Contudo, alguns dias depois, quando se tem notícia do próximo caso de discriminação, ele amiúde se pergunta se tudo não passou de falsa aparência e se ele procede corretamente ao aceitar o reconhecimento dos amigos como padrão de medida do progresso de seu trabalho.
Esta falta de padrões objetivos de consecução tem duas graves consequências:
1. Priva os assistentes de relações intergrupais de seu legítimo desejo de satisfação em bases realistas. Nessas circunstâncias, a satisfação ou insatisfação no tocante à própria consecução torna-se sobretudo uma questão de temperamento.
2. Não pode haver aprendizagem num campo onde faltam padrões objetivos de consecução. Quanto não podemos julgar se uma ação nos fez avançar ou regredir, quanto não temos critério para avaliar a relação entre esforço e realização, nada há que nos impeça de tirar conclusões erradas e de encorajar hábitos errados de trabalho. Condição prévia de qualquer aprendizagem é a averiguação realista dos fatos e sua avaliação. A pesquisa social deveria ser uma das prioridades máximas do trabalho prático de aperfeiçoar as relações intergrupais.
CARÁTER E FUNÇÃO DA PESQUISA PARA A PRÁTICA DAS RELAÇÕES INTERGRUPAIS
A pesquisa necessária à prática social pode ser melhor caracterizada como pesquisa para administração ou engenharia social. É um tipo de pesquisa de ação, uma pesquisa comparativa acerca das condições e resultados de diversas formas de ação social, e pesquisa que leva à ação social. Pesquisa que produza apenas livros não será o bastante.
Isto de maneira alguma implica que a pesquisa requerida seja, sob qualquer aspecto, menos científica ou "inferior" que a que se exigiria da ciência pura no campo dos eventos sociais. Estou inclinado a sustentar o contrário como verdade. As instituições interessadas em engenharia, tais como o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, voltaram-se cada vez mais para o que se chama pesquisa básica. Também no caso da engenharia social, o progresso dependerá grandemente da medida em que a pesquisa básica em Ciências Sociais possa propiciar uma compreensão mais profunda das leis que governam a vida social. Esta "pesquisa básica social " terá de incluir problemas matemáticos e conceptuais de análise teórica. Terá de incluir a gama toda de averiguação descritiva dos fatos no tocante a pequenos corpos sociais. Acima de tudo, terá de incluir experimentos de laboratório e de campo sobre a mudança social.
INTEGRAÇÃO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
Uma tentativa de melhorar as relações intergrupais deve enfrentar uma grande variedade de tarefas. Ela cuida de problemas de atitude e estereótipos, com referência outros grupos e ao próprio grupo visado, de problemas de desenvolvimento de atitudes e conduta durante a infância e a adolescência, de problemas de alojamento e de mudança de estrutura legal da comunidade; cuida de problemas de status e casta, de problemas de discriminação econômica, de liderança política e de liderança em muitos aspectos da vida comunitária. Cuida do pequeno corpo social de uma família, de um clube ou de um grupo de amigos, do corpo social maior de uma escola ou sistema escolar, de bairros e corpos sociais do tamanho de uma comunidade, do Estado, da nação e de problemas internacionais.
Começamos a compreender que, sem considerar os demais é inútil atacar qualquer desses aspectos das relações intergrupais. Isto também é válido para os aspectos práticos e científicos da questão. Por sua vez, a Psicologia, a Sociologia e a Antropologia cultural principiaram a dar-se conta de que, sem o auxílio uma da outra, nenhuma conseguiria ir muito longe. Durante os últimos cinco anos, o desejo de um tratamento integrado se manifestou, timidamente de início, agora muito claramente. Ainda não se sabe o que significará especificamente tal integração. É possível que signifique uma fusão das Ciências Sociais numa ciência social única. De outro lado, pode significar apenas a cooperação de diversas ciências com o objetivo prático de aperfeiçoar a administração social. Todavia, a próxima década testemunhará sem dúvida tentativas sérias de abordagem integrada da pesquisa social. Sou da opinião de que a Economia terá de ser incluída nessa sinfonia, se quisermos compreender e manejar de forma mais eficiente as relações intergrupais.
DOIS TIPOS DE OBJETIVOS DE PESQUISA
É importante compreender claramente que a pesquisa social se preocupa com dois tipos de problemas assaz diferentes, a saber, o estudo das leis gerais da vida grupal e o diagnóstico de uma situação específica.
Os problemas de leis gerais tratam da relação entre condições possíveis e resultados possíveis. Exprimem-se em proposições do tipo "se assim for". O conhecimento das leis pode, em determinadas condições, servir de guia para a consecução de certos objetivos. Todavia, para agir corretamente, não basta que o engenheiro ou o cirurgião conheça as leis gerais da Física ou da Fisiologia. Carece também de conhecer o caráter específico da situação em apreço. Esse caráter é determinado por uma averiguação científica de fatos denominada diagnóstico. Em todos os campos de ação, ambos os tipos de pesquisa científica são necessários.
Até pouco tempo, os levantamentos predominavam, em grande parte, na averiguação de fatos das relações intergrupais. Hoje, os vemos com olhos críticos. Embora sejam potencialmente importantes, têm utilizado, via de regra, métodos assaz superficiais de escrutínio, e não a pesquisa mais profunda, do tipo de entrevistas, usada por Likert, a qual nos proporciona certo discernimento das motivações subjacentes aos sentimentos expressos.
A segunda causa de insatisfação é a crescente compreensão de que não basta o simples diagnóstico – e levantamentos constituem uma forma de diagnóstico. Nas relações intergrupais, como nos outros campos da administração social, o diagnóstico tem de ser complementado por estudos experimentais comparativos da eficiência das diversas técnicas de mudança.
A FUNÇÃO E A POSIÇÃO DA PESQUISA NO PLANEJAMENTO E NA AÇÃO SOCIAL.
Para o conteúdo da pesquisa sobre relações intergrupais, a sua localização adequada dentro da vida social tem pelo menos igual importância. Quando, onde e por quem deve ser feita a pesquisa social?
Como estamos interessados aqui em administração social, examinemos um pouco mais de perto o processo de planejamento.
Geralmente, o planejamento parte de algo assim como uma idéia geral. Por qualquer razão, parece conveniente atingir determinado objetivo. Frequentemente, não fica muito clara a maneira exata de como definir esse objetivo, e de como atingi-lo. O primeiro passo, então, é examinar a idéia cuidadosamente à luz dos meios disponíveis. Amiúde, torna-se necessária maior averiguação dos fatos. Se este primeiro período do planejamento é bem sucedido, surgem dois itens: a saber, um "plano global" de como atingir o objetivo e, em segundo lugar, uma decisão quanto ao primeiro passo da ação. Geralmente, este planejamento também tem modificado um pouco a idéia original.
O período seguinte é dedicado a executar o primeiro passo do plano global.
Em campos muito desenvolvidos de administração social, tais como a moderna administração de fábricas ou a execução de uma guerra, este segundo passo é seguido de certas averiguações de fatos. Por exemplo, no bombardeamento da Alemanha, uma determinada fábrica pode ter sido escolhida como o primeiro alvo após cuidadosa consideração das várias prioridades e dos melhores meios e formas de tratar esse alvo. A ofensiva é realizada e imediatamente um avião de reconhecimento segue com o objetivo único de determinar a nova situação tão acurada e objetivamente quanto possível.
Este reconhecimento ou averiguação de fatos tem quatro funções. Em primeiro lugar, cumpre-lhe avaliar a ação. Ele mostra se o que foi atingido está acima ou abaixo da expectativa. Em segundo lugar, proporciona aos planejadores uma oportunidade de aprender, ou seja, de obter uma nova compreensão geral, por exemplo, do poder e da fraqueza de certos recursos ou técnicas de ação. Em terceiro lugar, tal averiguação de fatos deve servir de base para o planejamento correto do próximo passo. Finalmente, vale como base para a modificação do "plano global".
O passo seguinte também se compõe de um ciclo de planejamento, execução e reconhecimento ou averiguação de fatos, com o fito de avaliar os resultados do segundo passo, para preparar a base racional de planejamento do terceiro passo e, talvez, para modificar novamente o plano global.
A administração social racional avança, portanto, numa espiral de fases, cada uma das quais se compõe de um ciclo de planejamento, ação e averiguação de fatos referentes ao resultado da ação.
Com isto em mente, examinemos por um momento a maneira pela qual têm sido tratadas as relações intergrupais. Não posso deixar de sentir que a pessoa que volta da realização bem sucedida de uma reunião de boa vontade é como o capitão de navio que sentiu, de alguma forma, que seu barco se desviou demais para a direita e que, por isso, voltou a roda do leme bruscamente para a esquerda. Certos sinais dão-lhe a certeza de que o leme acompanhou o movimento da roda do leme. Ele vai jantar, feliz da vida. Enquanto isso, naturalmente, o barco fica a mover-se em círculos. Com muita freqüência, no campo das relações intergrupais, a ação se baseia em observações feitas "de dentro do barco" e muito raramente se funda em critérios objetivos no tocante às relações do movimento do barco com o rumo do objetivo a ser alcançado.
Precisamos de reconhecimento que nos mostre se estamos na direção certa e com que velocidade nos movemos. Socialmente, não basta que as organizações universitárias propiciem nova compreensão científica. Será preciso estabelecer processos de averiguação de fatos, olhos e ouvidos sociais, bem no interior dos corpos de ação social.
Não é nova a idéia de departamentos de pesquisa ou averiguação de fatos em órgãos dedicados à melhoria das relações intergrupais. Todavia, algumas delas pouco mais fizeram que não fosse colecionar recortes de jornais. Os últimos anos viram surgir uma série de progressos muito significativos. Há cerca de dois anos atrás, o Congresso Judaico-Americano estabeleceu a Comissão de Inter-relações Comunitárias. Trata-se de uma organizado de pesquisa de ação, ideada principalmente para funcionar como uma organização de serviços para organismos judaicos e não-judaicos no campo das relações intergrupais. Seu principal interesse está na abordagem de grupo, comparativamente à abordagem individual, de um lado, e a abordagem de massa, por via do jornal e do rádio, de outro. Estas duas últimas e importantes linhas constituem o foco de atenção da unidade de pesquisa do Comitê Judaico-Americano.
Diversos programas, tais como o do Conselho Americano de Educação, do Estudo Universitário de Relações Intergrupais nas escolas normais, no Estudo de Educação Cívica, em Detroit e, de uma forma mais global, o do Centro de Educação Intercultural, procuram utilizar nosso sistema educacional para melhoria das relações intergrupais. Todos mostram crescente sensibilidade em prol de um método mais realista, isto é, mais científico, de avaliação e auto-avaliação. Em diferentes graus, ocorre o mesmo nos empreendimentos especificamente dedicados a relações entre negros e brancos, tais como o Conselho Americano de Relações Raciais, de Chicago, a Liga Urbana e outros. É significativo que a Comissão Estadual Contra a Discriminação do Estado de Nova Iorque tenha uma subcomissao de cooperação com projetos de pesquisa e que a Comissão Inter-racial do Estado de Connecticut esteja ativamente empenhada em pesquisas. A recente criação de grandes instituições de pesquisa em universidades também ajudou a ampliar as perspectivas de muitas das organizações de ação existentes, tornando-as mais confiantes nas possibilidades de utilizar técnicas científicas para seus fins.
Não posso absolutamente tentar, sequer sob a forma de um levantamento, discutir os muitos projetos e resultados que vêm surgindo desses empreendimentos de pesquisa. Eles incluem levantamentos dos métodos que foram aplicados até agora, tais como os registrados em Ação para a Unidade; estudos de desenvolvimento de atitudes em crianças; estudos da relação entre atitudes intergrupais e fatores como a crença política do indivíduo, sua posição dentro do grupo; experimentos acerca de como reagir da melhor forma num caso de agressão verbal em termos de preconceitos; experimentos de mudança com bandos de delinquentes e com comunidades; o desenvolvimento de muitos novos testes de diagnóstico; e por fim, embora não menos importante, o desenvolvimento de teorias mais precisas de mudança social. Muitos dos resultados desses projetos ainda não foram publicados. Estou certo, porém, de que os próximos anos testemunharão o aparecimento, em número sempre crescente, de estudos significativos e práticos.
EXEMPLO DE UM EXPERIMENTO DE MUDANÇA DE PROBLEMAS DE MINORIA
Um exemplo pode ilustrar as possibilidades de cooperação entre clínicos e cientistas sociais. No início deste ano, o presidente da Comissão Consultiva de Relações Raciais do Estado de Connecticut, que também é membro dirigente da Comissão Inter-racial do Estado de Connecticut, procurou-nos para pedir que dirigíssemos um seminário para cinquenta assistentes de comunidade, no campo de relações intergrupais, vindo de todos os rincões do Estado de Connecticut.
Surgiu um projeto em que cooperaram três organizações: a Comissão Consultiva de Relações Raciais do Estado de Connecticut, a Comissão de Inter-relações Comunitárias do Congresso Judaico-Americano e o Centro de Pesquisas de Dinâmica de Grupo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. A Comissão Consultiva Estadual é composta de membros da Comissão Inter-racial do Estado de Connecticut, de um membro do Departamento Estadual de Educação do Estado de Connecticut, e da pessoa encarregada na Região do Vale de Connecticut, da Conferência de Cristãos e Judeus.
Ao que parece, o Estado de Connecticut é o único a ter uma comissão Inter-racial em sua administração regular. Ficou evidente que todo progresso de técnicas que se pudesse vincular a este corpo estratégico central teria muito melhor oportunidade de um amplo e duradouro efeito. Depois de minuciosa discussão das várias possibilidades, foi planejado cooperativamente o seguinte experimento de mudança.
Recentes resultados de pesquisa mostraram que as ideologias e estereótipos que regulam as relações intergrupais não devem ser considerados como traços individuais de caráter; ao contrário, fundam-se em padrões culturais, sendo que sua estabilidade e mudança dependem em grande parte de acontecimentos em grupos como grupos. A experiência com o treinamento para liderança convenceu-nos de que o estabelecimento de seminários está entre os instrumentos mais poderosos para possibilitar melhoria da capacidade de manejar relações intergrupais.
Mesmo um bom e bem sucedido seminário, entretanto, raramente tem oportunidade de induzir melhoramentos de longo alcance no campo de relações intergrupais. O indivíduo que volta do seminário para casa cheio de entusiasmo e novas perspectivas, terá de enfrentar novamente a comunidade, na proporção talvez de um contra 100 000. Evidentemente, são grandes as possibilidades de que seu êxito não esteja à altura do seu novo nível de aspiração, e logo as decepções o forçarão a retroceder de novo. Enfrentamos aqui um problema da maior importância para qualquer mudança social, a saber, o problema de sua permanência.
Para por à prova algumas hipóteses referentes à influência do indivíduo diante de contextos de grupo, introduziram-se as seguintes variações no seminário experimental. Uma parte dos delegados veio como de costuma, um indivíduo de cada cidade. Todavia, para um certo número de comunidades, decidiu-se tentar conseguir um certo número de delegados e, se possível, desenvolver no seminário equipes que, uma vez terminado este, conservaria sua relação de equipe. Isto daria maior oportunidade de permanência no entusiasmo e produtividade do grupo e deveria também multiplicar o poder dos participantes de levar a cabo a mudança desejada. Um terceiro grupo de delegados ao seminário receberia certa dose de assistência especializada, mesmo depois de os delegados voltarem à comunidade.
O primeiro passo para a realização de semelhante plano exige uma ampla averiguação de fatos acerca dos diferentes tipos de problemas intergrupais que as diversas comunidades têm de enfrentar. As comunidades e as equipes de assistentes de grupo nas comunidades teriam de ser selecionadas de maneira que fosse possível comparar os resultados das três variações. Em outras palavras, esse projeto teve de enfrentar os mesmos problemas que mencionamos como típicos do processo de planejamento em geral.
As experiências dos membros do Conselho Consultivo Estadual da Comissão Inter-racial do Estado de Connecticut puderam fornecer com presteza os dados necessários para determinar as cidades que deveriam ser estudadas mais cuidadosamente. Para avaliar o resultado do seminário, seria preciso fazer um diagnóstico antes dele, a fim de determinar, entre outras coisas, a linha de pensamento dos assistentes de comunidade, sua principal linha de ação e as principais barreiras que tinham de enfrentar. Um novo diagnóstico semelhante teria de ser realizado alguns meses após o seminário.
Evidentemente, é preciso registrar cientificamente os acontecimentos essenciais durante o seminário para compreender por que ele provocou a mudança ou deixou de provocá-la. Sinto que aqui a pesquisa enfrenta sua tarefa mais difícil. De maneira alguma basta registrar o conteúdo da palestra ou o programa. A descrição da forma de liderança tem de levar em conta o teor de iniciativa demonstrado por indivíduos e subgrupos, a divisão em subgrupos dos treinandos, as facções dentro desses subgrupos e entre eles, as crises e seu desfecho e, acima de tudo, o padrão total de administração conforme muda de um dia para outro. Mais do que qualquer outra coisa, estes aspectos de larga escala parecem determinar o que um seminário logrará realizar. A tarefa que os cientistas sociais têm de enfrentar ao registrar objetivamente esses dados não é muito diferente da do historiador. Teremos de aprender a haver-nos com estas unidades relativamente grandes de períodos e corpos sociais sem baixar os padrões de validade e fidedignidade a que nos acostumamos no registro psicológico das unidades mais microscópicas de ação e de períodos de minutos ou segundos de atividade.
Os métodos de registro dos eventos essenciais do seminário incluíam uma sessão de avaliação ao fim de cada dia. Os observadores que tinham comparecido às várias sessões de subgrupos registravam (num gravador) o padrão de liderança que tivessem observado, o progresso ou falta de progresso no desenvolvimento dos grupos, de um conglomerado de indivíduos a um "nós" integrado, e assim por diante. Os líderes de grupo davam a sua opinião acerca das mesmas sessões e uma série de assistentes em treinamento acrescentavam seus comentários.
Fiquei profundamente impressionado com o extraordinário resultado pedagógico que essas reuniões de avaliação, ideadas com o propósito de registro científico, tiveram no processo de treinamento. A atmosfera de objetividade, a disposição do corpo docente de discutir abertamente seus erros, longe de prejudicar-lhes a posição, parecia conduzir a um aprofundamento da compreensão e àquela disposição de serena objetividade que em lugar algum é mais difícil de atingir que no campo das relações intergrupais, o qual está carregado de emotividade e rigidez de atitude, mesmo entre os chamados liberais e entre aqueles cuja tarefa é promover relações intergrupais.
Quando observei, durante o seminário, os delegados vindos de diferentes cidades de todos os rincões de Connecticut se transformarem, de uma multidão de indivíduos sem ligações, frequentemente com opiniões e interesses antagônicos, em equipes cooperativas, não baseadas na amabilidade, mas na disposição de enfrentar realisticamente as dificuldades, de aplicar a averiguação honesta de fatos, e de trabalhar em conjunto para vencê-las; quando vi surgir o padrão de desempenho de papel, percebi que as principais responsabilidades passavam lentamente, de acordo com o plano, do corpo docente para o discente; quando vi, na sessão final, a Comissão Consultiva Estadual receber o apoio dos delegados para um plano de vincular as escolas normais do Estado com certos aspectos das relações de grupo dentro das comunidades; quando ouvi os delegados e equipes de delegados das diversas cidades apresentarem seus planos para seminários municipais e uma série de outros projetos de realização imediata, não pude deixar de sentir que a estreita integração de ação, treinamento e pesquisa comporta enormes possibilidades no campo das relações intergrupais. Gostaria de infundir no leitor este sentimento.
As relações intergrupais constituem sem dúvida um dos aspectos mais decisivos do cenário nacional e internacional. Sabemos hoje, melhor do que nunca, que são potencialmente explosivas. A estratégia da pesquisa social precisa levar em conta os perigos envolvidos.
Poderíamos distinguir reveses e barreiras externas para a Ciência Social e os perigos internos dos métodos de pesquisa. Entre os primeiros, encontramos um grupo de pessoas que parecem subscrever a idéia de que não precisamos mais da Ciência Social. Entre estes admiradores do senso comum, encontramos clínicos de todos os tipos, políticos e reitores de universidade. Infelizmente, existe entre eles um bom número de cientistas físicos contrários à promoção intensa das Ciências Sociais. Parecem sentir que estas não produziram nada de real valor para a prática da administração social e que, por isso, jamais o produzirão. Acho que não haverá outra maneira de convencer tais pessoas que não seja produzir uma ciência social melhor.
Uma segunda ameaça à Ciência Social vem dos "grupos no poder". Podem-se encontrar tais pessoas em todos os níveis da administração, entre lideres trabalhistas e políticos, em alguns setores do governo e entre membros do Congresso. De uma forma ou outra, parecem todos possuídos do temor de não mais poderem fazer o que querem, se eles e os outros conhecerem realmente os fatos. Acho que os cientistas sociais deviam ter o cuidado de distinguir entre os elementos legítimos e ilegítimos subjacentes a esse temor. Por exemplo, seria sobremaneira danoso que os resultados dos levantamentos da Gallup determinassem automaticamente a decisão quanto ao que deveria ou não se tornar lei nos Estados Unidos. Teremos de reconhecer a diferença entre averiguação de fatos e estabelecimentos de programas e estudar cuidadosamente os métodos pelos quais se deve introduzir a averiguação de fatos na máquina social da legislação, a fim de produzir um resultado democrático.
Indubitavelmente, contudo, por trás da hostilidade à pesquisa social manifestada por algumas das pessoas que detêm cargos de poder, existe boa dose de relutância em enfrentar a realidade.
Um terceiro tipo de ansiedade muito real por parte dos profissionais pode ser ilustrada pelo seguinte exemplo. Os membros dos conselhos de comunidades aos quais tive ocasião de relatar os resultados da pesquisa sobre inter-relações de grupos, reagiram com o sentimento de que os cientistas sociais, na universidade ou no ramo de pesquisa de alguma organização nacional, mais cedo ou mais tarde estariam em condições de dizer aos assistentes de comunidade locais, em todos os Estados, exatamente o que fazer e o que não fazer.
Eles obviamente contemplavam uma "tecnocracia" da Ciência Social. Esse temor parece ser um mal-entendido muito comum, baseado na palavra "lei". Os assistentes de comunidade não alcançaram compreender que na Ciência Social assim como na Ciência Física, a legalidade significa uma relação do tipo "se assim for", uma conexão entre condições hipotéticas e resultados hipotéticos. Tais leis não dizem que condições existem localmente, num dado lugar em dado momento. Por outras palavras, as leis não fazem o trabalho de diagnóstico, que deve ser realizado na localidade. Tampouco preceituam a estratégia para a mudança. Na administração social, como na Medicina, o clínico terá usualmente de escolher entre diversos métodos de tratamento e precisará de tanta habilidade e engenhosidade quanto o médico, no que se refere ao diagnóstico e ao tratamento.
Para o progresso da Ciência Social, parece ser decisivo que o clínico compreenda que, através das Ciências Sociais e unicamente através delas, pode ele ter a esperança de obter o poder necessário para realizar um bom trabalho. Infelizmente, nada há nas leis e na pesquisa social que constranja o clínico no rumo do bem. A Ciência proporciona mais liberdade e poder tanto ao médico quanto ao assassino, tanto à democracia quanto ao Fascismo. Também com respeito a isso, deve o cientista social reconhecer a sua responsabilidade.
PESQUISA SOBRE MAIORIES E MINORIAS
Não foi intenção deste artigo discutir resultados pormenorizados da pesquisa social em relações intergrupais. Todavia, acho que devo mencionar dois pontos que, a meu ver, exemplificam aspectos básicos.
As relações intergrupais constituem uma questão biunívoca. Isto quer dizer que, para melhorar as relações entre grupos, os dois grupos em interação têm de ser estudados.
Nos últimos anos, começamos a compreender que os chamados problemas de minoria são, de fato, problemas de maioria, que o problema do negro é o problema do branco, que o problema judeu é o problema do não-judeu, e assim por diante. É também verdade, claro está, que as relações intergrupais não podem ser resolvidas sem alterar certos aspectos de conduta e do sentimento do grupo minoritário. Um dos obstáculos mais sérios ao melhoramento parece ser a notória falta de confiança e de amor próprio da maioria dos grupos minoritários. Estes tendem a aceitar o julgamento implícito dos que têm status, mesmo quando o julgamento se volte contra eles próprios. Há muitas forças que tendem a desenvolver nas crianças, nos adolescentes e nos adultos de minorias profundos antagonismos contra seu próprio grupo. Segue-se um elevado grau de submissão, culpa, emotividade e outras causas e formas de comportamento ineficaz. Nenhum indivíduo, nenhum grupo em luta contra si mesmo pode viver de maneira normal ou feliz com outros grupos.
O cientista social deve ter consciência de que é inútil enfrentar este problema proporcionando suficiente amor próprio a membros individuais dos grupos minoritários. A discriminação que estes indivíduos sentem não se volta contra eles como indivíduos, mas como membros do grupo e a questão só pde ser tratada elevando-se até o nível normal seu amor-próprio como membros do grupo.
Muitos brancos do Sul dos Estados Unidos parecem compreender que uma condição prévia para o progresso é o aumento do amor-próprio do negro sulino. De outro lado, parece ser paradoxal para muitos liberais a idéia de um programa positivo de lealdades crescentes de grupo. Parece que nos habituamos a ligar ao chauvinismo a questão da lealdade de grupo e o amor-próprio de grupo à xenofobia.
A meu ver, a solução só pode ser encontrada por via de um desenvolvimento que eleve o nível geral do amor-próprio e da lealdade de grupo, os quais são em si mesmo fenômenos perfeitamente naturais e necessários, ao mesmo nível, para todos os grupos da sociedade.
Isto significa que se deve fazer todo o esforço para reduzir o inflado amor-próprio dos que o têm ao nível de 100 por cento. Estes deveriam aprender a prece da peça musical Oklahoma: "Meu Deus, fazei-me ver que não sou melhor que os meus semelhantes". Todavia, é essencial aprender a segunda parte da prece, que diz algo assim: "mas, em tudo, sou tão bom quanto ele". Com base nas experiências de até agora, acho que a elevação do amor-próprio dos grupos minoritários é um dos meios mais estratégicos para o aperfeiçoamento das relações intergrupais.
O último ponto que eu gostaria de mencionar refere-se à relação entre os cenários local, nacional e internacional. Ninguém que trabalhe no campo das relações intergrupais pode deixar de ver que vivemos hoje num mundo só. Quer ele se torne politicamente um mundo só ou dois mundos, não há dúvida de que, no que respeita à interdependência dos acontecimentos, vivemos num mundo só. Quer pensemos nos católicos ou nos judeus, nos gregos ou nos negros, todos os grupos dentro dos Estados Unidos são profundamente atingidos pelos acontecimentos de outros lugares do globo. Nos Estados Unidos, as relações intergrupais serão formadas em grande parte pelos fatos do cenário internacional e particularmente pelo destino dos povos coloniais. Será decisivo o fato de a política dos Estados Unidos seguir ou não o que Raymond Kennedy chamou de política internacional de Jim Crow dos impérios coloniais. Estaremos prontos a desistir da política seguida nas Filipinas e, no que se refere às possessões dos Estados Unidos, voltar à política de exploração que tornou o imperialismo colonial a instituição mais odiada no mundo inteiro? Ou seguiremos a filosofia que John Collier desenvolveu para com os índios americanos e que o Instituto de Questões Étnicas está propondo para as possessões dos Estados Unidos? Trata-se de um padrão que conduz gradualmente à independência, à igualdade e à cooperação. Qualquer que seja o resultado de uma política de exploração permanente no cenário internacional, ela não pode deixar de ter uma profunda repercussão sobre a situação interna dos Estados Unidos. O Jim-Crowismo no cenário internacional dificultaria enormemente o progresso das relações intergrupais dentro dos Estados Unidos e tem a probabilidade de por em perigo todos os aspectos da democracia.
O desenvolvimento de relações intergrupais está indubitavelmente cheio de perigos e, neste campo, o desenvolvimento da Ciência Social enfrenta muitos obstáculos. O quadro que pude pintar, entretanto, do progresso da pesquisa e particularmente do progresso que a organização da pesquisa social realizou nos últimos anos, faz-me sentir que aprendemos muito. Um esforço em grande escala de pesquisa social sobre relações intergrupais seria indubitavelmente capaz de ter consequências duradouras na história dos Estados Unidos.
Está igualmente claro, todavia, que esse trabalho exige dos cientistas sociais a máxima coragem. É mister a coragem que Platão definiu como: "sabedoria diante do perigo". É mister o melhor que possam dar os melhores de nós, e a ajuda de todos.

Kurt Lewin
Problemas de Dinâmica de Grupo - Cultrix, SP.

O ódio a si mesmo entre os judeus - Kurt Lewin, 1941

O ÓDIO A SI MESMO ENTRE OS JUDEUS (1941).
Dificilmente o não-judeu acreditará nisso, mas os judeus sabem muito bem que o ódio a si mesmo existe entre os judeus. É um fenômeno que tem sido observado desde a emancipação dos judeus. O professor Lessing tratou desse tema na Alemanha (1930), num livro intitulado Der Jüdisch Selbsthass ("O ódio a si mesmo judeu"). romances como o de Ludwig Lewisohn, Island Within, 1928 ("A Ilha Interior"), que retrata o judeu de Nova Iorque por volta de 1930, e os de Schnitzler, que tratam dos problemas do judeu austríaco no período à volta de 1900, impressionam pela similaridade dos problemas que mostram existirem. Nesses diferentes países, surgem os mesmos conflitos, e judeus de diversas profissões e camadas sociais põem à prova a mesma variedade de soluções.
O ódio a si mesmo judaico é um fenômeno de grupo, tanto quanto individual. Na Europa, exemplos notáveis de sentimento hostil de um grupo judeu contra outro eram o dos judeus da Alemanha ou da Áustria contra os da Europa oriental e, mais recentemente, a atitude dos judeus franceses para com os judeus alemães. Não era raro ouvir-se, de judeus alemães, a opinião de que todos os problemas que os judeus tiveram na Alemanha foram causados pela má conduta do judeu da Europa Oriental. Nos Estados Unidos, o ressentimento do judeu espanhol contra o judeu emigrado da Alemanha, e a hostilidade deste em relação ao judeu da Europa Oriental, oferecem uma analogia para a situação européia.
Falando em termos de indivíduos e não de grupos, o ódio do judeu a si mesmo pode dirigir-se contra os judeus como um grupo, contra uma fração específica dos judeus, contra sua família ou contra si mesmo. Pode voltar-se contra instituições judaicas, maneirismos judaicos, a língua judaica ou os ideais judaicos.
Entre os judeus, o ódio a si mesmo pode assumir uma variedade quase infinda de formas. A maior delas, e as mais perigosas, são uma espécie de ódio a si mesmo indireto e furtivo. Se eu devesse contar os casos em que encontrei desprezo aberto e direto entre judeus, só poderia indicar uns poucos. O mais impressionante, para mim, foi o comportamento de um refugiado judeu da Áustria, muito bem educado, por ocasião de encontrar um casal de outros refugiados judeus. Num tom de ódio violento, explodiu numa defesa de Hitler fundada nas características indesejáveis do judeu alemão.
Mas incidentes que tais são raros. Na maioria dos casos, é mais sutil a expressão do ódio do judeu contra o companheiro judeu ou contra si mesmo enquanto judeu. O ódio está tão mesclado com outros motivos que é difícil determinar, num caso específico qualquer, se existe ou não o ódio a si mesmo. Tome-se o caso do judeu bem educado e ateu que concordou finalmente em fazer uma palestra na sinagoga. Durante a cerimônia que precedeu sua palestra, ele me falou do desgosto que sentia ao ver o talith (xale de rezar) e como essa aversão fora cedo nele implantada pela atitude negativa de seu pai para com a sinagoga. Trata-se, aqui, de uma forma de sentimento anti-judaico ou apenas da grande aversão do ateu pela religião? O rico comerciante judeu, que se nega a contribuir com o que quer que seja para as obras judaicas de caridade, odeia ele seu próprio provo ou é apenas avarento? O chefe judeu de um departamento ou de uma loja parece inclinado a não empregar judeus; mas talvez o que faz seja, na verdade, o máximo que pode ser feito nas circunstâncias.
Raramente acontece – embora ocorra de vez em quando – que um judeu admita francamente que odeia estar na companhia de outros judeus. A maioria das pessoas que evitam associações judaicas têm "boas razoes" para isso. Estão tão ocupadas com associações não-judaicas que "simplesmente não têm tempo". O rapaz que prefere a "Cultura Ética" ou a "Ciência Cristã" ao Judaísmo dirá que não está fugindo das coisas judaicas, mas sendo atraído pelos valores dos outros grupos.
Naturalmente, em alguns casos, tais "razoes" podem ser, de fato, as razoes reais. Não obstante, há alguns fatos que causam estranheza. O cônjuge judeu assume amiúde a posição de achar que, nos Estados Unidos, as crianças podem crescer simplesmente como seres humanos. Negaria que está sendo guiado pelo mesmo sentimento que levou muitos judeus ricos da Áustria e da Alemanha a batizar seus filhos e a vinculá-los tanto quanto possível a grupos tipicamente não-judeus.
Todavia, se a aversão de nosso ateu pelos símbolos da religião judaica era seu único motivo, ele deveria sentir a mesma aversão pelos símbolos de qualquer religião organizada. O fato de este não ser o caso evidencia que existe alguma coisa mais sob o seu comportamento. A criança judia de um lar não ortodoxo que diz à sua mãe: "Eu gosto de ver o velho judeu rezando", mostra que a indiferença religiosa não leva necessariamente a semelhante aversão. Por que o comerciante que se recusa a contribuir para a causa judaica gasta copiosamente em toda atividade não-judaica? Por que acampamentos que só recebem crianças judias contratam unicamente monitores não-judeus e têm uma cerimônia dominical cristã, mas não canções judaicas, nem outras atividades judaicas?
O ÓDIO A SI MESMO COMO UM FENÔMENO SOCIAL
Houve uma tentativa de explicar o ódio a si mesmo judaico como consequência de certos instintos humanos profundos. Esse comportamento parece ser um excelente exemplo do que Freud chama impulso de auto-destruição ou "instinto de morte". Contudo, uma explicação que tal tem pouco valor. Por que não têm o inglês a mesma dose de ódio a seus concidadãos, ou o alemão ao alemão, que tem o judeu ao judeu? Se o ódio a si mesmo fosse resultado de um instinto geral, deveríamos esperar que seu grau dependesse tão somente da personalidade do indivíduo. Todavia, a intensidade do ódio do judeu a si mesmo, como indivíduo, depende muito mais de sua atitude para com o Judaísmo que de sua personalidade.
O ódio a si mesmo judaico é um fenômeno que tem analogias em muitos grupos desprivilegiados. Um dos casos mais conhecidos e mais extremos de ódio a si mesmo pode ser encontrado entre negros dos Estados Unidos. Os negros distinguem quatro ou cinco camadas em seu grupo, segundo a cor da pele – quanto mais clara a cor, mais alta a camada. Esta discriminação vai tão longe entre eles, que uma moça de pele clara pode recusar-se a casar com um homem de pele mais escura. Um elemento de ódio a si mesmo não tão forte, mas ainda nitidamente discernível, pode também ser encontrado na segunda geração de gregos, italianos, poloneses e outros imigrantes dos Estados Unidos.
A dinâmica do ódio a si mesmo e sua relação com os fatos sociais tornam-se evidentes a um exame um pouco mais atento. Uma moça judia, numa universidade grã-fina do Centro Oeste dos Estados Unidos, revelou confidencialmente que contara aos amigos que seus pais eram norte-americanos natos, embora, na verdade, seu pai fosse um imigrante de primeira geração vindo da Europa oriental e falasse com forte sotaque. Ela está agora com a consciência pesada com relação ao pai, a quem ama de fato, e pretende deixar a universidade. Por que fez isto? Porque sentiu que se fosse conhecida sua ascendência, ela não seria aceita em certos círculos mais elegantes do ambiente universitário.
É assaz evidente a causa desta ação contra o grupo familial: o indivíduo tem algumas expectativas e objetivos para o futuro. O pertencer ele ao seu grupo é considerado como um impedimento para atingir tais objetivos. Isso leva a uma tendência a repelir o grupo. No caso da estudante, resultou num conflito com o vínculo psicológico da família, conflito que ela foi incapaz de suportar. É fácil ver, entretanto, como semelhante frustração pode levar a um sentimento de ódio contra o grupo como fonte de frustração.
Uma senhora judia que jantava num restaurante elegante com um amigo não-judeu ficou muito irritada com fui um casal de outra mesa que se comportava ruidosamente e estava evidentemente um pouco embriagado. Por qualquer razão, ela achava que tais pessoas podiam ser judias. O amigo fez um comentário que indicava claramente não ser o casal judeu. a senhora ficou bastante aliviada, e a partir desse momento divertiu-se, em vez de irritar-se, com a turbulência deles. Incidentes assim ocorrem diariamente. O fenômeno notável no caso parece ser a extrema sensibilidade da mulher judia no tocante ao comportamento de outros judeus, semelhantes à sensibilidade da mãe em relação ao comportamento dos filhos, quando em público. É comum a este caso e ao da estudante o sentimento do indivíduo de ver sua posição ameaçada ou seu futuro posto em perigo por ele estar identificado com um determinado grupo.
A sensibilidade à conduta dos outros membros de um grupo não passa de expressão de um fato fundamental da vida grupal, a saber, a interdependência de destino. É revelador o fato de os judeus que se pretendem livres de laços judaicos revelarem frequentemente grande sensibilidade. Isso mostra que, malgrado suas palavras, tais pessoas estão de algum modo conscientes da realidade social. Na verdade, a vida, a liberdade e a busca da felicidade de toda comunidade judaica dos Estados Unidos e de todo judeu individual norte-americano dependem, de maneira específica do status social que os judeus, como grupo, têm na comunidade mais geral dos Estados Unidos. Caso Hitler ganhe a guerra essa interdependência especial de destinos se tornará o fator determinante de maior importância na vida de cada judeu. Se Hitler perder, a mesma interdependência será ainda um dos fatores dominantes na vida de nossos filhos.
AS FORÇAS QUE IMPELEM PARA OU AFASTAM O INDIVÍDUO DA PARTICIPAÇÃO NO GRUPO.
Analiticamente, podem-se distinguir dois tipos de forças no tocante ao membro de qualquer grupo – um tipo de força o impele para o grupo e o conserva dentro dele, o outro tipo o afasta do grupo. Podem ser múltiplas as origens das forças que impelem para o grupo: talvez o indivíduo se sinta atraído por outros membros do grupo, talvez os outros membros do grupo o arrastem, talvez ele esteja interessado no objetivo do grupo ou se sinta de acordo com a sua ideologia, ou talvez prefira esse grupo a estar só. De maneira análoga, as forcas que o afastam do grupo podem ser o resultado de qualquer tipo de traços desagradáveis do próprio grupo, ou talvez sejam expressão da maior atratividade de um grupo exterior.
Se for negativo o equilíbrio entre as forças que impelem para o grupo e as que afastam dele, e não houver interferência de outros fatores, o indivíduo deixará o grupo. Em condições "de liberdade", portanto, um grupo conterá unicamente os membros para quem as forças positivas são mais intensas que as negativas. Se um grupo não for atraente o bastante para um número suficiente de indivíduos, ele desaparecerá.
Devemos compreender, no entanto, que as forças que impelem para o grupo e as que afastam dele não são sempre uma expressão das próprias necessidades da pessoa. Podem ser impostas ao indivíduo por algum poder externo. Em outras palavras, um indivíduo pode ser obrigado, contra sua vontade, a permanecer dentro de um grupo de que gostaria de sair, ou pode ser mantido fora de um grupo onde desejaria entrar. Por exemplo, um ditador fecha as fronteiras do país, a fim de que ninguém possa deixá-lo. Um círculo elegante mantém de fora muitas pessoas que gostariam de estar incluídas nele.
FORÇAS DE COESÃO E DE DISPERSÃO NUM GRUPO DESPRIVILEGIADO.
Um importante fator no que respeita à intensidade das forças que impelem para o grupo ou afastam dele é a medida em que a satisfação das necessidades do indivíduo é favorecida ou dificultada por sua participação no grupo. Alguns grupos, como as associações comerciais ou os sindicatos, existem para o fim explicito de promover os interesses de seus membros. De outro lado, a participação em qualquer grupo limita até certo ponto, a liberdade de ação do membro individual. O estar casado e ter uma esposa agradável e eficiente pode auxiliar grandemente o marido no que respeita à consecucao de suas ambições, mas o casamento também pode constituir um grande obstáculo. De modo geral, pode-se dizer que quanto mais o grupo facilitar ou dificultar ao indivíduo atingir seu objetivo, tanto maior será a probabilidade de que seja positivo ou negativo o equilíbrio entre as forças que impelem para o grupo ou que afastam dele.
Esta análise permite uma afirmação geral acerca dos membros de grupos socialmente privilegiados ou desprivilegiados. Em nossa sociedade, adquirir status é um dos fatores importantes no determinar o comportamento do indivíduo. O grupo privilegiado, outrossim, oferece habitualmente mais a seus membros e os estorva menos que o grupo menos privilegiado. Por tais razões, os membros da elite de qualquer país têm um forte equilíbrio positivo no sentido de permanecer dentro do grupo de elite. Além disso, se um indivíduo desejar abandonar essa elite, consegue fazê-lo usualmente sem encontrar obstáculos (embora existam exceções).
O membro de um grupo desprivilegiado é mais estorvado pelo fato de pertencer ao grupo. Ademais, a tendência de adquirir status significa uma força que o afasta desse grupo. Ao mesmo tempo, verificamos que no caso de qualquer grupo socialmente desprivilegiado, a livre mobilidade através da fronteira é limitada ou inteiramente obstada por falta de capacidade ou por forças externas. A maioria mais privilegiada ou um setor influente dessa maioria proíbe a livre mobilidade. Em todo grupo socialmente desprivilegiado existe, pois, um certo número de membros para quem o equilíbrio das forças que impelem para o grupo ou que afastam dele é tal que eles prefeririam abandoná-lo. São mantidos dentro do grupo não por suas próprias necessidades, mas por forças que lhe são impostas. Isto tem influência de grande alcance sobre a atmosfera, a estrutura e a organização de todo grupo desprivilegiado e sobre a psicologia de seus membros.
LEALDADE GRUPAL E CHAUVINISMO NEGATIVO.
Em todo grupo, podem-se distinguir camadas culturalmente mais centrais e outras mais periféricas. A camada central contém as idéias, hábitos, tradições e valores considerados mais essenciais e representativos para o grupo. Para o músico, isso significa o músico ideal; para o inglês, o que ele considera tipicamente inglês.
As pessoas leais a um grupo têm tendência a dar mais valor às camadas mais centrais. Em outras palavras, o inglês médio tem "orgulho" de ser inglês e não gostaria de ser chamado "não muito inglês". Frequentemente, há uma tendência de sobrestimar a camada central. Num caso assim, falamos de "americanismo 100%" ou, de um modo mais geral, de chauvinismo. Mas, uma avaliação positiva das camadas centrais é um resultado lógico da lealdade ao grupo e um fator essencial no que toca a conservar o grupo unido. Sem essa lealdade, grupo algum pode progredir e prosperar.
Os indivíduos que gostariam de abandonar determinado grupo não têm essa lealdade. Num grupo desprivilegiado, muitos desses indivíduos são forçados não obstante a permanecer no grupo. Como resultado, em todo grupo desprivilegiado encontramos uma série de pessoas que se envergonham de nele participar. No caso dos judeus, um judeu assim tentará afastar-se tanto quanto possível das coisas judaicas. Em sua escala de valores, não colocará muito alto os hábitos, aparências ou atitudes que considera particularmente judaicas; ele as terá por inferiores. Demonstrará um "chauvinismo negativo".
Tal situação é sobremaneira agravada pelo seguinte fato: uma pessoa para quem seja negativo o equilíbrio se afastará tanto do centro da vida judaica quanto a maioria o permitir. A pessoa se postará nessa barreira e viverá num estado de constante frustração. Em verdade, sentir-se-á mais frustrada que aqueles membros da minoria que se mantém psicologicamente bem dentro do grupo. Sabemos, pela Psicologia experimental e pela Psicopatologia, que semelhante frustração leva a um estado global de grande tensão, com uma tendência generalizada para a agressão. Logicamente, a agressão se deveria voltar contra a maioria, que é o que impede o membro da minoria de abandonar seu grupo. Todavia, aos olhos dessas pessoas, a maioria tem status mais alto. E além disso, é poderosa demais para ser atacada. Experimentos mostraram que, em tais condições, a agressão tende a se voltar contra o próprio grupo da pessoa e contra ela mesma.
O PODER DAS ATITUDES DO GRUPO PRIVILEGIADO.
A tendência para a agressão contra o próprio grupo da pessoa, nessas circunstâncias, é fortalecida por um outro fator. Mark Twain conta a história de um negro criado como uma criança branca. Quando se volta contra a mãe, da maneira mais perversa e covarde, esta lhe diz, "Isso é o negro que há em você". Por outras palavras, ela aceitara o veredicto do homem branco, ao caracterizar alguns dos piores traços como típicos do negro.
Reconhece-se, em Sociologia, que os membros das camadas sociais inferiores tendem a aceitar as modas, valores e ideais das camadas superiores. No caso do grupo desprivilegiado, isso significa que as opiniões que os membros têm de si mesmos são grandemente influenciadas pela baixa conta em que o grupo é tido pela maioria. Esta infiltração de opiniões e valores do que Maurice Pekarsky chamou de "porteiro", aumenta necessariamente no judeu com um equilíbrio negativo, a tendência a desprender-se das coisas judaicas. Quanto mais tipicamente judias forem as pessoas, ou quanto mais tipicamente judeu for um símbolo cultural ou um padrão de comportamento, tanto mais desagradável parecerão a um judeu que tal. Incapaz de se libertar totalmente de suas ligações judaicas e de seu passado judeu, ele volta o ódio contra si mesmo.
ORGANIZAÇÃO DOS GRUPOS DESPRIVILEGIADOS
Os membros da maioria estão habituados a pensar numa minoria como um grupo homogêneo, que possam caracterizar por um estereótipo é criado na criança em desenvolvimento pela atmosfera social em que cresce e que o grau de preconceito é praticamente independente do teor e tipo de experiência real que o indivíduo teve com membros do grupo minoritário. Na realidade, todo grupo, inclusive os grupos desprivilegiados economicamente ou de outras formas, contém um certo número de camadas sociais. Existe contudo a seguinte diferença entre a estrutura característica de um grupo privilegiado e a de um grupo desprivilegiado. As forças que atuam sobre um dos membros de um grupo privilegiado se dirigem para fora da área central, para a periferia do grupo e, se possível para o status ainda mais alto da maioria. O membro da minoria a abandonaria se a barreira levantada pela maioria não o impedisse disso. Tal quadro representa a situação psicológica daqueles membros do grupo desprivilegiado que têm um equilíbrio basicamente negativo. É a estrutura de um grupo de pessoas voltadas fundamentalmente contra si mesmas.
É claro que tanto mais difícil se torna uma organização efetiva de um grupo quanto mais membros contiver que tenham equilíbrio negativo e quanto mais forte for este equilíbrio negativo. É um fato consabido que a tarefa de organizar um grupo desprivilegiado, economicamente ou de qualquer outra forma, é seriamente dificultada por aqueles membros cujo objetivo real seja deixar o grupo, mais que promovê-lo. Esse profundo conflito de objetivos no interior de um grupo desprivilegiado nem sempre se torna claro para os próprios membros. Mas constitui uma das razoes por que mesmo um grande grupo desprivilegiado, que poderia obter igualdade de direitos se estivesse unido para ação, pode ser mantido assaz facilmente numa posição inferior.
É particularmente danoso à organização e à ação de um grupo minoritário, que certos tipos de líderes surjam dentro dele. Em todo grupo, os setores aptos a chegar à liderança são os que geralmente têm mais êxito. Num grupo minoritário, os membros individuais que conseguem êxito econômico ou que se distinguem em suas profissões geralmente obtêm maior grau de aceitação por parte do grupo majoritário. Isso os coloca culturalmente na periferia do grupo desprivilegiado e aumenta sua tendência de se tornarem pessoas "marginais". Frequentemente têm um equilíbrio negativo e se mostram particularmente ansiosos de não prejudicar suas "boas relações" com um contato muito íntimo com aqueles setores do grupo desprivilegiado que não são aceitáveis para a maioria. Apesar disso, são amiúde chamados para a liderança pelo grupo desprivilegiado, por causa de seu status e poder. Eles próprios anseiam geralmente por aceitar o papel de liderança na minoria, em parte como substituto de status na maioria, em parte porque tal liderança possibilita ter e conservar outros contatos com a maioria.
Em consequência disso, encontramos o fenômeno assaz paradoxal do que se poderia chamar de "o líder vindo da periferia". Em vez de termos um grupo liderado por pessoas que têm orgulho dele, que desejam nele permanecer e promovê-lo, vemos líderes de minorias indiferentes ao grupo, lideres que podem, sob uma tênue capa de lealdade, estar fundamentalmente ansiosos por abandoná-lo ou que tentam desde logo usar seu poder para atos de chauvinismo negativo. Tendo alcançado um status relativamente satisfatório entre os não-judeus, esses indivíduos estão principalmente interessados em conservar o status quo e, por isso, tentam atenuar toda ação que possa chamar a atenção do não-judeu. tais judeus nunca pensariam em acusar Knudsen de "dupla lealdade", por presidir um comício americano-dinamarquês, mas estão tão habituados a ver os acontecimentos judaicos com olhos de anti-semitas, que temem a acusacao de dupla lealdade, no caso de qualquer ação judaica declarada. Se existe o "perigo" de um judeu ser designado para a Suprema Corte, não hesitarao em alertar o Presidente contra semelhante ato.
Como se afirmou no início, pode ser difícil determinar, num dado caso, onde fica exatamente a fronteira entre o chauvinismo judaico, a lealdade normal e o chauvinismo negativo. Todavia, nossa análise deve deixar claro que uma política de dissimulação, indigna e insensata (por irrealista) deriva das mesmas forças de chauvinismo negativo ou de medo em que se origina o ódio do judeu a si mesmo. Constitui em verdade um dos tipos mais nocivos do ódio a si mesmo judaico.
Existem indícios de que a porcentagem de tais pessoas entre os membros eminentes da comunidade judaica dos Estados Unidos aumentou a partir da Primeira Guerra Mundial. Malgrado as desastrosas consequências que essa política trouxe para os judeus da Alemanha, existem provavelmente nos Estados Unidos, hoje, mais judeus com equilíbrio negativo do que os havia em 1910.
Por outro lado, o desenvolvimento da Palestina, a história recente dos judeus europeus, e a ameaça do Hitlerismo, tornaram mais claras estas questões. Uns poucos judeus, tai como o infame Capitão Naumann, da Alemanha, se tornaram eles próprios fascistas ante a ameaça do Fascismo. Entretanto, muitos judeus que perderam contato com o Judaísmo a ele voltaram sob a ameaça do Nazismo na Europa. A história das revoluções nos ensina que a liderança mais ativa e eficiente do grupo desprivilegiado adveio de alguns indivíduos que deixaram os grupos privilegiados e voluntariamente ligaram seu destino ao da minoria. Por esta ou aquela razão, tais pessoas devem ter tido um equilíbrio positivo particularmente intenso de forças que levam para o grupo e que afastam dele. Estaria de acordo com a experiência histórica se se encontrassem líderes eficientes entre aqueles que voltaram às fileiras dos judeus conscientes.
O QUE SE PODE FAZER NO TOCANTE AO ÓDIO A SI MESMO JUDAICO?
O ódio a si mesmo parece ser um fenômeno psicopatológico, e sua prevenção pode parecer principalmente uma tarefa para o psiquiatra. Todavia, a Psicologia moderna sabe que muitos fenômenos psicológicos não passam da expressão de uma situação social em que o indivíduo se encontre. Nuns poucos casos, o ódio judeu a si mesmo pode surgir de uma personalidade neurótica ou com outra anormalidade, mas, na grande maioria dos casos, trata-se de um fenômeno encontrável em pessoas de saúde mental normal. Por outras palavras, é um fenômeno sócio-psicológico, embora influencie profundamente via de regra, a personalidade total. Em verdade, as tendências neuróticas em judeus são amiúde o resultado de sua falta de ajustamento exatamente a tais problemas de grupo.
O ódio a si mesmo judaico desaparecerá somente quanto for atingida uma efetiva igualdade de status com os não-judeus. Só então a hostilidade do indivíduo contra o seu grupo baixará a proporções relativamente insignificantes, característica do grupo majoritário. Uma saudável autocrítica a substituirá. Isto não quer dizer que nesse ínterim não haja nada a fazer. Afinal de contas, temos um grande número de judeus que dificilmente poderiam ser classificados de anti-semitas.
A única forma de evitar o ódio a si mesmo judaico, em suas várias formas, é uma transformação do equilíbrio negativo entre as forças que levam para o grupo e as que afastam dele, num equilíbrio positivo, a criação da lealdade ao grupo judaico ao invés de um chauvinismo negativo. Somos hoje incapazes de proteger nossos irmãos judeus ou nossos filhos contra aquelas desvantagens que são o resultado de eles serem judeus. Podemos no entanto tentar elaborar uma educação judaica tanto ao nível infantil quanto adulto, para contrabalançar o sentimento de inferioridade e o sentimento de temor que são as fontes mais importantes do equilíbrio negativo.
O sentimento de inferioridade do judeu é apenas um indicio do fato de que ele vê as coisas judaicas com os olhos da maioria hostil. Lembro-me como, quando adolescente, fiquei profundamente perturbado com a idéia de que fosse verdadeira a acusação contra os judeus, de serem incapazes de realizar trabalho construtivo. Sei que muitos adolescentes judeus, criados numa atmosfera de preconceito, sentem o mesmo. Hoje, um jovem judeu que observou o desenvolvimento da Palestina está em situação infinitamente melhor. Qualquer que possa ser a opinião da pessoa sobre o Sionismo como programa político, ninguém que tenha observado de perto os judeus alemães durante as primeiras semanas fatídicas após a ascensão de Hitler ao poder, negará que milhares de judeus alemães foram salvos do suicídio tão somente pelo famoso artigo do Jüdische Rundschau, (Panorama Judaico) com suas manchetes "jasagem zum Judentum" (Dizer sim à Condição de Judeu). As idéias ali expressas constituíram centro de reorganização e fonte de revigoramento tanto para os sionistas quanto para os não-sionistas.
Para neutralizar o temor e fortalecer o indivíduo para enfrentar o que o futuro lhe prepara, nada é mais importante que uma participação clara e completa num grupo cujo destino tem uma significação positiva. Uma ampla visão, que inclua o passado e o futuro da vida judaica e ligue a solução do problema da minoria com o problema do bem-estar de todos os seres humanos é uma dessas possíveis fontes de revigoramento. Um forte sentimento de ser parte essencial do grupo e de ter uma atitude positiva para com ele é, tanto para as crianças como para os adultos, condição suficiente para evitar atitudes baseadas no ódio a si mesmo.
Um dos programas mais importantes da educação judaica deve ser o de edificar esse sentimento de participação no grupo, baseado numa responsabilidade ativa pelo irmão judeu. Isso não significa que possamos criar em nossos filhos um sentimento de participação, forçando-os a ir à escola dominical ou Heder. Um procedimento que tal significa o estabelecimento, na infância, do mesmo padrão de participação grupal obrigatória que é característico da situação psicológica dos chauvinistas negativos e que criará sem dúvida precisamente tal atitude, ao fim e ao cabo. Um número demasiado grande de judeus foi afastado do Judaísmo por um excesso de Heder. Nossos filhos devem ser criados em contato com a vida judaica, de tal maneira que frases como "a pessoa parece judia" ou "age como judeu" assumam um tom positivo e não negativo. Isso implica que uma escola religiosa judaica deve ser dirigida num nível pelo menos comparável aos padrões pedagógicos do restante de nossas escolas.
Quanto à organização, o grupo como um todo ficaria provavelmente muito fortalecido se nos pudéssemos livrar de nossos chauvinistas negativos. Tal expulsão é impossível. Todavia, poderíamos lograr aproximar-nos mais de um estado de coisas em que a participação no grupo judaico se baseie – pelo menos no que se refere a nós – na disposição do indivíduo para aceitar responsabilidade e sacrifício ativos pelo grupo. Em minha opinião, os judeus cometeram um grande erro ao supor que, para obter grande participação, deva-se exigir o menos possível do indivíduo. Não se criam grupos fortes dessa forma, e sim por via da política contrária. Neste particular, teríamos o que aprender com o grupo católico, por exemplo. Na verdade, exigir do indivíduo um espírito de abnegação pode fazer com que diminua o ódio a si mesmo.
Um último ponto merece ser mencionado. Muitos judeus parecem acreditar que o preconceito contra o judeu desapareceria se todos os indivíduos se comportassem devidamente – isto apesar de todas as indicações de que os dois fatos têm pouco a ver entre si. Os pais judeus costumam insistir, mais que os outros pais, na importância da boa apresentação em público. Tal insistência é uma das origens da hipersensibilidade, já mencionada, ao comportamento do irmão judeu e uma fonte perene de autoconsciência e tensão. Quanto mais o indivíduo aprenda a ver a questão judaica como um problema social, ao invés de um problema individual de boa conduta, colocando assim sobre os ombros uma dupla carga, tanto mais será capaz de agir normal e livremente. Semelhante normalização do nível de tensão é provavelmente a condição mais importante para a eliminação do ódio do judeu a si mesmo.

Kurt Lewin
Problemas de Dinâmica de Grupo - Cultrix, SP