24/03/2021

 

Humberto Maturana e o espaço relacional da construção do conhecimento

 

Adriano J. H. Vieira

Introdução

Muitas são as definições que pretendem explicar o que seja o conhecimento. Certamente, cada uma delas apresenta avanços e limites neste intento. Merecem atenção, entretanto, as definições que, em sua estrutura, histórico de pesquisa e vivência englobam mais amplamente as áreas da vida humana. Atualmente, o pensamento de Humberto Maturana parece ser um dos mais significativos na procura pelo fenômeno do conhecimento. Para este biólogo chileno, o conhecimento é uma construção da linguagem. A noção de linguagem trabalhada pelo autor é a referenciada e construída nas relações, que, por sua vez, são emocionadas. Nos parágrafos seguintes apresento alguns tópicos do pensamento de Maturana a fim de compreender sua inserção no cenário mais amplo da educação e, em particular, na contribuição que oferece à organização do conhecimento que, no espaço escolar, considere a formação do sujeito numa perspectiva mais inteira em sua constituição como tal.

Maturana e sua trajetória

Em seus primeiros estudos de Medicina, no Chile e depois na Inglaterra, Maturana foi mapeando uma compreensão dos seres vivos como “entes dinâmicos autônomos em contínua transformação em coerência com suas circunstâncias de vida”.[1] A busca aprofundada desse desejo de compreender melhor a dinâmica do ser vivo levou-o a estudar Biologia em 1956, quando inicia seu doutorado em Harvard. Inicialmente sua busca perquiritória residia na neuroanatomia e fisiologia da visão. Ao longo de seu caminho investigativo foi traçando um quadro mais amplo de seu interesse biológico: o modo de operar sistêmico da neurobiologia e a organização sistêmica dos seres vivos. Mais tarde, suas pesquisas levaram-no à tese de que o visto é especificado pelo operar da retina, e não uma simples abstração do objeto material no qual a visão bate. Começou a por em xeque a noção absoluta da objetividade real. Maturana pauta-se por uma noção da biologia em que as emoções possuem um papel fundamental no desenvolvimento do sistema biótico. Acentuando o papel das emoções no viver humano, foi descobrindo o operar do sistema na construção do conhecimento como ação biológica. Propõe a emoção como o grande referencial do agir humano.

Na pesquisa do sistema nervoso foi formulando sua idéia de ser vivo como sistemas de organização circular nos quais o que se conserva é a circularidade. Inaugura a concepção de autonomia do ser vivo, a autopoiése. Pensar o conhecimento a partir da autopoiése só é possível se entendemos cada vivente como sistema fechado [2], auto-organizado e auto-organizável. Para Maturana isso só é possível porque cada ser é em relação. O que determina, em última análise, a organização do vivo é sua própria autopoiése. Mas o que desencadeia é a relação que se estabelece entre vivo-meio-vivo. O organismo se autogere, mas só o faz na relação com outros organismos. Isso quer dizer que não é possível determinar quais as ações subseqüentes num processo autopoiético. Mas é possível saber que o vivo age e re-age diante das circunstâncias, já que vai organizando seu conhecer a partir do próprio ato de viver. Prefaciando uma das obras de Maturana, Rabelo comenta a idéia do autor:

Viver e conhecer são mecanismos vitais. Conhecemos porque somos seres vivos e isso é parte dessa condição. Conhecer é condição de vida na manutenção da interação ou acoplamentos integrativos com os outros indivíduos e com o meio (Rabelo, 1998b, p. 08).

Os estudos de Maturana explicitam o sinônimo entre conhecer e viver. A noção de viver-conhecer está diretamente vinculada com o modo de relacionar-se e de organizar-se nessa relação. Não se trata de adaptação ao meio. O viver-conhecer na relação significa, ao mesmo tempo, a criação/recriação desse espaço relacional, e de outros, e a criação/recriação do sistema em relação. Pode incluir, em algum momento, a adaptação, mas vai além dela.

Nessa relação criativa, meio-sistema, é que emerge o social. E o social é entendido como domínio de condutas relacionais fundadas na emoção originária da vida: o amor. Para Maturana: “A emoção fundamental que torna possível a história da hominização é o amor” (Maturana, 1999, p. 23). Ao falar de emoção o autor não se refere ao que convencionalmente tratamos como sentimento. Emoção, neste caso, “são disposições corporais dinâmicas que definem os diferentes domínios de ação em que nos movemos” (Maturana, 1999, p. 15). Assim entendida, a emoção fundante do social – o amor – é elemento estrutural da fisiologia humana.

Maturana afirma que o amor é a emoção fundante do social porque: O amor é a emoção que constitui o domínio de condutas em que se dá a operacionalidade da aceitação do outro como legítimo outro na convivência, e é esse modo de convivência que conotamos quando falamos do social (Maturana, 1998b, p. 23). Pensada por esta via, a convivência, que é este espaço/tempo das relações dos sistemas, é “lugar” de perene criação/recriação da vida, na medida em que se constitui como social na perspectiva acima mencionada. O viver-conhecer, nesta convivência, é constante atualização do sistema. Decorre daí a possibilidade de pensar o processo educativo do sujeito como construção de uma autonomia relacionada. No sentido de que cada qual é tido como um legítimo outro no conviver.

Por isso: “toda história individual humana é a transformação de uma estrutura inicial hominídea fundadora, de maneira contingente com uma história particular de interações que se dá constitutivamente no espaço humano” (Maturana, 1998b, p. 28). É nessa consideração do humano como autônomo nas relações que Maturana encaminha uma noção de educação como vivência das relações mesmas dos indivíduos, nos presentes históricos de cada qual, capaz de recriar sistema(vivo-humano)-meio.

Os espaços educativos constituem-se em fenômenos sociais que manifestam, com fundamento nas emoções, os pensamentos, os conceitos e os objetivos dos grupos sociais, num processo histórico e relacional, criando realidades que, nesta interação constante, recria os sujeitos dela participantes. Para Humberto Maturana, este agir humano nas relações é cooperativo. Para entendermos essa posição do autor convém uma olhada, ainda que rápida, do cenário que desafia pensadores como Maturana a buscarem alternativas viáveis para a educação que resgate as distintas dimensões do ser humano em sua cultura.

Cooperar ou competir?

Uma das características que compõe o cenário da argumentação crítica da segunda metade do século XX, e que pode ajudar nesta reflexão, é a relação estabelecida entre habitante e habitat, entre ser humano e seu planeta. A crítica a noção de progresso como algo que cinde ser humano e natureza encaminha para a valorização das culturas tidas e ditas como primitivas. Não se trata de sobrepor uma cultura à outra. A questão situa-se na forma de relacionar-se e produzir de um modo sistêmico valorativo. Isso quer dizer que, nesses modos de operar, estas culturas não lidam com o esgotamento da fonte produtora dos bens de subsistência, nem convivem com a distinção dos modos de operar dos processos de integração na cultura. Ou seja, o aprender, o trabalhar, o brincar, fazem parte do mesmo fenômeno de relação do ser humano com seu espaço vital. Repito que não se trata de idealizar esta forma de viver como solução para os problemas que vivemos em nosso modo de operar. No entanto, é preciso observar nessas culturas – que são ecossistêmicas – a inexistência de depredação, no sentido de irreversibilidade do sistema biótico do meio, e as mudanças atinentes ao desenvolvimento. A noção de desenvolvimento não é progressiva, no sentido de que uma ação tenha de sobrepujar outras para ser considerada válida para o grupo social, mas reciclável e integrativa, por trabalhar a relação ser humano e natureza como modo de operar imbricados. Em outras palavras, é preciso observar nessas culturas um modo de desenvolvimento auto-sustentável. Decorre daí um processo educativo também integrado a esta intencionalidade.

É isso que podemos estudar/observar, (im)pressionados pela contribuição da “bio-cognição-emocionada” de Maturana. Ao estudá-las, não se pretende padronizar seus critérios para o conjunto da sociedade ocidental, mas, antes, pode-se re-estudar e re-perspectivar os caminhos ocidentais de constituição da subjetividade humana e também da noção de evolução progressiva.

Numa noção de progresso como produção e consumo, na naturalização do acúmulo, da propriedade privada e do bem estar, o Ocidente foi refutando, por este critério, toda produção cultural de um sem número de grupos humanos. A partir de uma visão mercadológica abriu mão da escuta e do diálogo com estas civilizações, com sua História e impôs uma ditadura do padrão de consumo e da competição.

Para Maturana a educação para a competição não se constitui em um exercício de caráter natural/biológico, em sua constituição, mas é algo construído culturalmente. Para ele: “a competição não é nem pode ser sadia, porque se constitui na negação do outro (…) A competição é um fenômeno cultural e humano, e não constitutivo do biológico” (Maturana, 1998b, p. 13).

A partir daí, por decorrência óbvia, os processos educativos competitivos e, por derivação, que ensinam a competição, são processos que afastam o ser humano da natureza. E o fazem não somente porque, do ponto de vista social, exclui o outro de determinado processo, mas porque desconsidera o outro como legítimo outro, já que estabelece o espaço pelo qual compete como a única possibilidade de manifestação de alguém como sujeito. Alijando-o não somente de determinado espaço eleito como digno, mas de sua condição de quem pode dizer sua palavra.

A educação para Maturana

Acreditando na perspectiva do humano como integrado com seus pares, biodiversificados, a concepção educacional de Maturana busca resgatar a vida como centro de todos os processos sistêmicos. Do ser humano enquanto sistema que se espraia na cultura, na convivência. Pensa e desafia-nos a buscar uma educação que resgate a bio-centralidade. O lugar da vida e da amorosidade nos relacionamentos e ações dos viventes.

Um fio condutor que nos ajuda ir refletindo a educação e a prática educativa é a mudança na finalidade da educação, passando da busca mercadológica como objetivo educacional para a melhor qualidade do conviver humano, da qual o trabalho é decorrência, criação e não fim.

A educação sempre é para que. Os grupos humanos, por situações diversas, vão pontuando, consciente ou inconscientemente, seus objetivos do educar. Para Maturana isso se dá de uma forma intersubjetiva. Em outras palavras, as ações são construídas nas ralações, mas de uma maneira autônoma e partilhada ao mesmo tempo. Atribui grande importância ao relacionar-se, mantendo a responsabilidade do sujeito por suas decisões.

Por isso afirma que: Nós, seres vivos, somos sistemas determinados em nossa estrutura. Isso quer dizer que somos sistemas tais que, quando algo externo incide sobre nós, o que acontece conosco depende de nós, de nossa estrutura nesse momento, e não de algo externo (Maturana, 1998b, p. 27).

Quando Maturana fala em sistema determinado está se referindo a uma construção estrutural que vem se constituindo historicamente no próprio processo vital do sistema, enquanto linhagem e enquanto indivíduo. Ao dizer que os sistemas vivos são determinados não quer dizer pré-determinados. O que ocorre é a constante autogeração do sistema em relação com suas circunstâncias. Como o processo de determinação estrutural é constante, é ele, enquanto sistema, que determina, no momento em que uma ação incide sobre ele, sua própria ação.

Autonomia não significa isolamento. Quando afirma que, pela autopoiése, é o próprio sistema que determina a ação não está afirmando que este agir seja isolado de outras intervenientes. Ao contrário, para Maturana, a ação é congruente. É de acordo com a relação estabelecida, mas, a ação como tal, particular, não é determinada por ela.

Essa relação do sistema com o meio cria a linguagem. O autor vê a linguagem não como uma estrutura cerebral, mas como construto das relações do ser humano com os outros. “Reconheço também que a linguagem não se dá no corpo como um conjunto de regras, mas sim no fluir em coordenações consensuais de conduta” (Maturana, 1998b, p. 27). Aponta, assim, para um caminho que valoriza os processos de relacionamento em detrimento de uma concepção cristalizada e fixa de linguagem, e do conhecimento construído a partir dela, como elaborações acabadas do cérebro humano.

As relações consensuais de conduta não se tratam de paridades conceituais dos envolvidos na ação como elaboração verbal, da fala, mas se trata da construção de compreensões em torno de um fenômeno comum que vai se interpretando de acordo com a própria história construída em torno dele e da história estrutural do sistema interpretante. Por isso, a linguagem como relação possui uma singular importância nos processos educativos. Estes, por sua vez, deixam de ser atividades depositadoras de informações passando a constituir-se em exercício de conversa. Entendo, assim, a conversa como forma inclusiva e extensiva do diálogo.

Para Maturana a conversa, na ação educativa, é elemento central na relação que produz o conhecimento. Para ele: “A palavra conversa vem da união de duas raízes latinas, ‘cum’, que significa ‘com’, e ‘versare’, que significa ‘dar voltas’, de maneira que conversar, em sua origem, significa ‘dar voltas com’ outro” (Maturana, 1998a, p. 80). A conversa constitui-se, assim, em um espaço relacional por excelência na ação educativa.

Se entendermos a importância do processo relacional na ação educativa, se a formação do outro como totalmente outro se constitui como objetivo da educação, então é preciso repensar as interações em que o educando possa confrontar-se como autônomo nas ações relacionais e construa sua autoconsciência, que se exercita na relação.

Para Maturana: A autoconsciência não está no cérebro – ela pertence ao espaço relacional que se constitui na linguagem. A operação que dá origem à autoconsciência está relacionada com a reflexão na distinção do que distingue, que se faz possível no domínio das coordenações de ações no momento em que há linguagem. Então a autoconsciência surge quando o observador constitui a auto-observação como uma entidade ao distinguir a distinção da distinção no linguajar (Maturana, 1998b, p. 28).

A autoconsciência aparece aqui mais abrangente do que uma concepção de autoconsciência como consciência de si enquanto si mesmo. Passa a ser uma consciência de si na relação, já que na relação é que se estabelece a identificação do outro como legítimo outro. O conhecimento passa a ser compreendido como organização do vivo nas relações que vai vivenciando, como fenômenos. O próprio ato de conhecer-viver se constitui em uma leitura da relação cognoscente-vivente. Por isso, nesta perspectiva, o conhecer-viver é elemento fundamental no processo de conscientização.

Nessa responsabilidade autônoma-relacional do sistema como construtor de si mesmo se estabelece uma novidade perene nas ações interativas na linguagem. Por isso “o futuro de um organismo nunca está determinado em sua origem” (Maturana, 1999, p. 29). Tal perspectiva ancora uma educação continuamente criada e criadora do conhecimento-vida.

Para Maturana: O educar se constitui no processo em que a criança ou o adulto convive com o outro e, ao conviver com o outro, se transforma espontaneamente, de maneira que seu modo de viver se faz progressivamente mais congruente com o do outro no espaço de convivência (Maturana, 1998b, p. 29).

O pressuposto da afirmação da centralidade do conviver no processo educativo reside no fato de este conviver não constituir-se simplesmente em estado. No sentido de ter dois ou mais sujeitos intocáveis e refratários um ao lado do outro. Trata-se de uma relação, no sentido de um ser tocar o outro ser nesse contato. Porque há relação há, por conseguinte, modificação, mais ou menos perceptível, dos sujeitos envolvidos nela. A congruência reúne os modos de proceder nessa relação que tornem as ações compreensíveis aos integrantes desse lugar de convívio e que, em aspectos centrais, possuem um fim comum. A congruência, portanto, se dá na linguagem.

Faz-se necessário aqui lembrar a concepção de linguagem não mais como sistema cerebral. Considero aqui linguagem como espaço construído por ações que se tornam comuns. Repito, em outras palavras, que esta comunicação não se trata da aceitação de mesmos conceitos. Trata-se de estabelecer o espaço de ações que, por lidarem com elementos comuns da linguagem, são consensuais. A noção corrente de linguagem lida com os pressupostos da racionalidade e da estrutura cerebral lingüística como lugar de leitura e interpretação dos signos. Para Maturana não é mais a razão que fundamenta e embasa as ações e a comunicação, mas sim a emoção, que não pode ser abarcada pela linguagem enquanto construção racional, mas pela linguagem construída nas coordenações de ações consensuais.

O educar deixa de ser entendido como um ato da fala enquanto apresentação de quem domina certas informações pronunciadas como verdades e passa a constituir-se em comunicação de sistemas viventes nas ações comuns. Na primeira o acento se dá no aspecto doutrinal da pronúncia. Na visão de Maturana, da educação como convívio, a congruência, que é a comunicação mais possível inteira do ser humano, é que vai construindo os critérios de validade para a maior qualidade do conviver. Não se trata de negar a autoridade de quem fala, mas, ao contrário, possibilitar-lhe pleno sentido porque a fala passa a ser, no conviver, a ação do dizer desde a autoridade, portanto, uma autoria.

Outro aspecto importante a considerar é a permanência do processo educativo. Não existe intervalo no ato de educar no conviver. O ato pedagógico é assim entendido como toda ação que alguém realiza no conviver. Ao contrário de dispensar a especificidade pedagógica esta perspectiva pretende tornar os espaços artificiais de educação mais plenos das experiências do conviver. Os espaços artificiais de educação são aqueles criados pelo grupo social para além do convívio do núcleo familiar ou tribal próprios do ser humano. Valorizar e possibilitar a plenificação do conviver nos espaços educativos é caminho para existencializar o conhecer-viver e assumir a cultura como uma das dimensões do convívio de tal modo que se torne – ela, cultura – cada vez mais humanizante, já que, ao mesmo tempo, é comunicada aos sujeitos e transformada por eles na congruência. Nesse sentido, no processo educativo, “ocorre como uma transformação estrutural contingente com uma história no conviver, e o resultado disso é que as pessoas aprendem a viver de uma maneira que se configura de acordo com o conviver da comunidade em que vivem” (Maturana, 1998b, p. 29).

No conviver como processo educativo, a transformação estrutural se dá a partir da compreensão sistêmica do estrutural. Em vista disso, qualquer ação comunicada interfere na totalidade do sujeito. Por isso a mudança é estrutural. É contingente porque não nega a circunstancialidade, ao contrário, apropria-se dela para transformar-se e transformá-la. E, além disso, não despreza o acúmulo que as experiências anteriores do conviver lhe ofereceram, pelo contrário, as considera como elementos constitutivos no novo ato do conviver.

À guisa de conclusão

Conceber o conhecer-viver nas relações, no convívio, como produto/produtor de novos conheceres-viveres e do espaço das relações onde este se dá implica em pensar a organização do ensino de modo que privilegie o convívio como espaço denso desse viver-conhecer. No agir comum da sociedade contemporânea, que guarda a noção de organização como sinônimo de compartimentalização, esta organização que pressupõe autorias no ato de conhecer-viver pode parecer um tanto difícil. Num primeiro momento a noção de autoria pode parecer-se com espontaneísmo. A primeira concebe o sujeito como virtuoso no seu dizer sobre o mundo. A segunda considera, simplesmente, qualquer dizer como válido por si, incorrendo no mesmo equívoco do absolutismo.

Essa mirada diferente sobre os processos educativos compreende uma complexidade de fatores que intervem no momento mesmo do conhecer e do sistematizar esse conhecimento. A história do/s observador/es que olham o fenômeno; a história do fenômeno até o momento mesmo da observação/compreensão de quem o observa; a história, as condições e circunstancias do educador que propõe o processo de encontro entre o conhecedor e o fenômeno. Para Maturana “os educadores, por sua vez, confirmam o mundo que viveram ao ser educados no educar” (Maturana, 1999, p. 29). Em vista disso o educador/a também é um auto-observador constante de si e suas ações na ação educativa.

Assim compreendida a educação deixa de ser uma seqüência de atos estanques, sem significados por si mesmos, e passa a ser uma ação contínua, durante toda a vida. O que requer pensar os tempos/espaços pedagógicos.

HUMBERTO MATURANA E A AUTOPOIESE

 

HUMBERTO MATURANA E A AUTOPOIESE


Por: Rita Hilachuk

Humberto Maturana nasceu em 14 de setembro de 1928 em Santiago do Chile. Estudou no Líceo Manuel de Salas, em 1947, e, logo depois, entrou para Universidade do Chile para estudar medicina. Em 1954, graças a uma bolsa pela Fundação Rockefeller, foi estudar anatomia e neurofisiologia na University College of London. Doutorou-se em Biologia pela Universidade de Harvard nos Estados Unidos.

Neurobiólogo e critico do realismo matemático, em 1970, criou o conceito de autopoiese, o qual foi aprimorado no mesmo ano. O termo autopoiese que vem do grego (auto: próprio e poieses: criação) foi desenvolvido em conjunto com o chileno Francisco Varela, aparecendo pela primeira vez no ensaio De Máquinas y Seres Vivos, em 1972.

De acordo com Maturana e Varela, os organismos são resultados de suas interações com o meio. Essa interação é caracterizada por uma mudança estrutural continua que não cessa enquanto houver vida, e pela relação de troca entre o organismo, meio e contexto em que se vive. Embora sejamos determinados por uma estrutura biológica, isso não define como seremos, pois somos mudados pelo meio, o qual interfere em como agimos com nossas próprias estruturas.

“Viver é interagir, e interagir é conhecer, por extensão, viver é conhecer.” (ANDRADE, 2012: 100)

A forma como interpretamos o mundo e a realidade enquanto observadores é a preocupação central da autopoieses. O nosso conhecimento provém de uma relação interna que atribui sentidos ao conhecimento e a realidade externa.

Para ilustrar o processo cognitivo, os autores utilizam o experimento da salamandra , realizado em 1943 por um cientista estadunidense. A salamandra é um anfíbio com alto poder de regeneração: se for cortado seu nervo óptico, ela o regenera, e se o olho for arrancado e colocado de volta, ela recupera a visão. O experimento consiste em girar a 180° o olho da salamandra; assim, ao ver a presa, ela joga a língua para trás e erra o alvo, pois a ordem de suas retinas se inverte. A conclusão é que o ato de lançar a língua para caçar não é o ato de apontar para o objeto externo, mas resultado de uma correlação interna. Na autopoiese, são as correlações internas que atribuem sentido ao meio, e é o observador que atribui sentido à realidade.

Um exemplo dos indivíduos sendo moldados pelo meio é o caso das meninas-lobo, encontradas em uma aldeia ao norte da Índia, em 1922. As meninas de cinco e oito anos viveram na floresta até o dia que foram resgatadas; até então nunca tinham tido contato com humanos e foram criadas por lobos. A menina de cinco anos morreu logo após a separação de sua família lupina, e a de oito, embora tenha sobrevivido, nunca adquiriu hábitos completamente humanos. Segundo Maturana e Varela, embora humanas, elas adquiriram hábitos do ambiente em que viveram, construíram seu conhecimento a partir dele, que teve forte influência na definição de seus comportamentos. Elas tinham o lobo como um semelhante.

Maturana e Varela chegam à conclusão de que toda experiência cognitiva transforma o organismo devido a sua experiência perceptiva: “ao examinarmos mais de perto como chegamos a conhecer esse mundo, sempre descobriremos que não podemos separar nossa história de ações – biológicas e sociais – de como ele nos parece ser.”(MATURANA; VAARELA apud ANDRADE, 2012: 103).

Essas considerações científicas são aplicadas em nossa vida cotidiana, por deduções lógicas, através de estruturas internas que possibilitam a coerência em nosso jeito de agir e reproduzir conceitos.

AUTOPOIESE NA SOCIOLOGIA

Embora elaborada na biologia, a teoria da autopoiese tem suas aplicações na física e na sociologia. Em 1927, o sociólogo Niklas Luhman apropriou-se  do conceito de autopoiese para explorar os sistemas sociais, abordando o modo como o convívio externo pode desenvolver nos indivíduos diferenças dentro de si mesmo, pelo processo de aprendizagem social. Para ele, “a teoria dos sistemas-autoreferenciais afirma que os sistemas só podem diferenciar-se por referência a si mesmos (…) ao construir seus elementos e operações elementares. Para tornar isso possível, os sistemas têm que criar uma descrição de si próprios para orientação e como principio de informação”. (LUHMANN apud SANTOS; CORREIA, 2004:35)

De acordo com Luhmann, o sistema processa informações com o estabelecimento de diferenças. As sociedades modernas são caracterizadas por muitos sistemas e subsistemas. Pode-se dizer que uma sociedade funcionalmente diferenciada é aquela que prevê problemas e um jeito de resolvê-los. Tudo que transmite informação são meios de comunicação de massa, desde que destinem mensagens a receptores desconhecidos.

O Projeto Synco, elaborado no Chile, visava criar uma grande central de informação, Devido ao golpe de 1973, o projeto é interrompido e a sala destruída. É um exemplo de teoria dos sistemas no qual um nível é subordinado ao outro, e também interdependente. Este vídeo  explica o funcionamento do projeto:


Humberto Maturana: el arte de soltar las certidumbres

 22/10/2016 19:21 

Habla despacio, en calma, con mirada inquieta y escucha atenta. Indudablemente sabio, Humberto Maturana Romesín todavía tiene el alma del rebelde que desafió los dogmas de la ciencia en su enfoque, saliendo del laboratorio científico para incursionar en la antropología, la psicología y la sociología hasta nadar con facilidad en la “biología cultural”. A los 88 años, sigue debatiendo cada particularidad del ser como cuando su vida estaba rodeada de moléculas, por el que a fines de los años cincuenta obtuvo el doctorado en Biología de la Universidad de Harvard. Nacido en Chile, donde actualmente reside, Maturana pasó de ser una eminencia en neurofisiología y epistemología, aportando al estudio de la percepción y el conocimiento, a convertirse en referente en el fluir de las conversaciones de los seres humanos en las organizaciones.

Las teorías de Don Humberto impactaron en las comunidades científicas y en las sociedades por conceptos filosóficos como la “biología del amor” o su emblemática tesis central de que los seres vivos se organizan por “autopoiesis”, en sistemas cerrados, en continua producción de sí mismos. Maturana, humilde, busca tomar distancia de halagos y continuos premios o evocaciones, como las dos candidaturas al Nobel de Medicina: “He tenido una habilidad y es abrir la mirada para ciertas situaciones o configuraciones relacionales –explica. Yo me doy cuenta del reconocimiento (hace un prolongado silencio) pero uno hace observaciones o distinciones que no resultan importantes para el otro de modo inmediato ... Mi habilidad ahora es soltar lo que tengo para ver todo desde otra perspectiva. Cada vez que soltamos el sostener alguna verdad o creencia, aparece algo nuevo. Es una apertura de la mirada reflexiva. Dejar de saber para ponerse en la posibilidad de no saber, lo cual es un cambio”.

Por estos días se prepara para volver a Buenos Aires, luego de un paréntesis de cuatro años, para participar en el workshop “Conversaciones Colaborativas en el Con-vivir Organizacional”, organizado por AL Grupo Humano, que se realizará el 18 de octubre. La jornada, de intercambio reflexivo con los participantes, está dirigida a psicólogos, sociólogos, consultores, coaches, empresarios, emprendedores, gerentes, cuyas responsabilidades, quehaceres y preocupaciones giran alrededor del factor humano en cualquier organización. Ahí estará Maturana junto a Ximena Dávila, con quien fundó en 2000 la Escuela Matríztica de Santiago. “El escuchar es fundamental en cualquier circunstancia relacional entre personas –cuenta con interés sobre el foco de su estudio actual. Para eso se requiere una actitud sin prejuicios ni expectativas que nosotros llamamos `soltar las certidumbres`. Si uno está centrado en lo que uno sabe interfiere en la relación del escucharse recíprocamente, por eso hay que soltar la certidumbre para encontrarse con el otro sin supuestos ni expectativas ni prejuicios”.

Maturana parece volver al niño interior a cada momento, para “curiosear”, como le gusta decir, y reflexionar en silencio esperando que algo aparezca aunque no sepa bien de qué se trata. “La curiosidad abre caminos”, sostiene con mirada soñadora. Y así, como dos infantes, dice que se sintió junto a su amigo, el Dalai Lama, en sus diferentes encuentros dialogando sobre “preocupaciones en nosotros” y las que tienen que ver con la educación, la ética y el bienestar y felicidad de la humanidad. “Nos hicimos amigos en una conversación sobre la historia de su niñez y la mía –confiesa con una sonrisa. Los encuentros han tenido que ver con la apertura reflexiva. El dice que yo le enseñé el desapego y que le demostré que para poder creer como científico tengo que soltar lo que sé. Y ahí entendió la naturaleza del desapego y eso generó una relación”.

En los años ‘60, Maturana vivió a pleno su vuelta a su país dedicándose a la docencia, cuando participó de la fundación de la Facultad de Ciencias de la Universidad de Chile. Durante el gobierno de Salvador Allende asesoró a miembros del equipo sobre las características del sistema biológico autopoiético, cuyos procesos aplicados a la gestión gubernamental fueron muy reconocidos. Con tanta muerte y exilio que significó la llegada de Pinochet, Maturana resistió educando a sus alumnos, casi como un sostén para soportar el apocalipsis. “No me siento un sobreviviente porque no sentí riesgo de morir –revela sin dudar. Yo estuve involucrado con la biología del conocimiento y viví interrogatorios, muchas cosas … (ahora hace un silencio mientras piensa aquellos horrores), pero no estuve en riesgo. Me siento como alguien que pasó la tormenta y se enriqueció en el entendimiento”. 

Humberto Maturana propõe o fim dos líderes e o resgate dos relacionamentos humanos nas empresas

 

Humberto Maturana propõe o fim dos líderes e o resgate dos relacionamentos humanos nas empresas


O chileno Humberto Maturana é médico e biólogo de formação. Sua compreensão da biologia humana levou a teorias que originaram o pensamento sistêmico, um dos fundamentos da moderna gestão empresarial. Junto com Ximena Dávila, fundou e dirige no Chile o Instituto Matriztico, no qual trabalham com organizações humanas – sejam famílias ou empresas – a partir do que chamam de Matriz Biológica da Existência Humana. Nessa matriz, entrelaçam-se a Biologia do Conhecer e a Biologia do Amar. Humberto Maturana e Ximena Dávila estiveram recentemente no Brasil participando de um seminário promovido pela Fundação Nacional de Qualidade. Nesta entrevista, em que fizeram questão de falar juntos por não admitir hierarquia entre a dupla, explicam suas propostas de resgate do ser humano, da sua capacidade de amar e de se relacionar, e de como isso refletiria de maneira positiva nas empresas. Além disso, vêem o nascimento de uma nova era em que os líderes serão dispensáveis.

Instituto Ethos: O que é o pensamento sistêmico e como ele se aplica na gestão das empresas?

Ximena: Primeiro, faço uma pergunta a você: o que você entende por responsabilidade social empresarial?

IE: O Instituto Ethos é um pólo de organização de conhecimento, troca de experiências e desenvolvimento de ferramentas que auxiliam as empresas a analisar suas práticas de gestão e aprofundar seus compromissos com a responsabilidade social empresarial. Para o Instituto Ethos, a RSE é a forma de gestão que se define pela relação ética e transparente da empresa com todos os públicos com os quais ela se relaciona e pelo estabelecimento de metas empresariais compatíveis com o desenvolvimento sustentável da sociedade, preservando recursos ambientais e culturais para as gerações futuras, respeitando a diversidade e promovendo a redução das desigualdades sociais.

Ximena: No que você me disse, há o pensamento sistêmico-sistêmico. Não é uma empresa flutuando no ar, é uma empresa em um espaço que a faz possível, que a faz sustentável, que lhe dá energia – o que tem a ver com produtividade -, que faça sentido às pessoas. Isso vai fazer com que a empresa se mantenha assim. Porque se eu for vender trajes de banho na Antártida, vou me dar mal. Se tenho uma empresa produtiva, se vendo algo, esse algo é um serviço à comunidade. Mas nós não falamos em “empresas privadas”. Dizemos que todas as empresas são “públicas”, porque têm de fazer sentido ao espaço social à que pertencem. Então, quando falamos de “empresas privadas”, falamos de algo que está fora do contexto da comunidade à qual pertence. E toda empresa pertence a uma comunidade, a comunidade é o que a faz possível. Você pergunta sobre o sistêmico. É o mesmo fundamento do que você nos disse, o olhar que você colocou foi o olhar sistêmico: são as empresas, as pessoas, o entorno, e a ecologia, ou seja, a biosfera. Isso implica ter consciência de um fluir sistêmico-sistêmico, que tem a ver com a dinâmica, com o acoplamento entre pessoas-empresa, empresa-comunidade, comunidade-biosfera.

IE: Vocês dizem que o pensamento sistêmico não é uma teoria. Por quê?

Ximena: O sistêmico não é um pensamento, uma teoria, é um modo de vida. Porque somos constitutivamente sistêmicos-sistêmicos. O que acontece é que nascemos como seres amorosos. Quando nascemos, como bebês, vimos com todas as anteninhas para viver acoplados em coerência com o mundo natural. Mas vivemos em uma cultura que nos encaixota, que nos coloca na “adolescência”, na “hiperatividade”, na “ambição”, no “sucesso”, que nos categoriza. Tudo o que significa modo de vida começa então a desvanecer, a desaparecer. O que estamos dizendo não é convidar a um “pensamento sistêmico-sistêmico” como uma novidade, mas talvez recuperar em nós o que é constitutivo do ser humano. É que somos seres sistêmicos. Por exemplo, você fala da sustentabilidade, e a sustentabilidade, para que permaneça no tempo, implica que haja esta colaboração, o estar bem, o estar conversando.

Maturana: Queria propor um exemplo absolutamente cotidiano sobre a dinâmica sistêmica humana. Imagine que estamos na sala de uma casa com a mãe, o pai, os filhos, uma empregada, um conjunto de pessoas. E há um aquário. Um belo dia, o peixe desaparece. O que se transforma? Se transforma tudo. As crianças começam a perguntar onde está o peixe, e se antes tinham de buscar comida para ele, agora já não precisam mais, já não têm peixe. E a casa está diferente, porque o aquário não está mais lá. Tiramos uma coisa que parece tão simples, o peixe do aquário, e se transforma toda a casa. Até onde isso chega? Até onde estão interconectadas essas pessoas no viver social. Essa é uma situação sistêmica. É isso que queremos dizer quando falamos que não é um pensamento, não é uma teoria, é um modo de vida, uma dinâmica relacional.

IE: E como isso se reflete nas empresas?

Ximena: Esse modo de nos relacionarmos faz com que uma organização crie bons produtos, faz com que as pessoas se mantenham mais tempo lá. Portanto, a empresa se sustenta mais no tempo. O que acontece com muitas empresas? Elas se transformam em universidade para as novas pessoas que chegam, que ficam um tempo ali e logo buscam outro lugar, porque esse lugar já não lhes proporciona o que elas desejam em crescimento, em motivação, em capacitação, o que for. E por que não ficam? Muitas vezes não ficam porque não têm o sentido de pertencer.

IE: Maturana, você diz que as empresas são comunidades humanas, espaço de colaboração e co-inspiração. O que significa isso? O que significam esses conceitos?

Maturana: Há várias maneiras de relacionar-se entre as pessoas. Algumas são de autoridade. Sou o chefe, os que me são subordinados me obedecem. Os subordinados estão subordinados aos desejos, às ordens, às aspirações dos chefes. O chefe diz “eu quero tal coisa”, e isso é uma ordem. E o subordinado, sem questionar, faz. Essa é uma forma. A outra forma é que várias pessoas se encontram em um lugar e se movem com independência umas das outras, o que um faz não afeta os outros. E outras formas são aquelas nas quais diferentes pessoas interagem entre si, não em uma relação de autoridade e subordinação, não em uma relação de completa separação, mas fazendo coisas juntos. Este fazer coisas juntos pode conservar-se no prazer de fazê-las juntos ou derivar à subordinação ou à dispersão. Quando se conserva o prazer de fazer as coisas junto, se conversa. O que um diz não é uma exigência para os outros. É um convite, uma reflexão para gerar um fazer conjunto. Não se vive como isso uma ordem nem como indiferença, se vive como participação, um fazer de todos eles, no qual o que cada um faz é coerente com o que fazem os outros desde a autonomia, por meio da compreensão do que se está fazendo junto. Isso é o que queremos dizer quando falamos de colaboração. Esse espaço acontece em uma conversação, em uma co-inspiração. Por exemplo, aqui estamos juntos conversando, como resultado de uma co-inspiração. Em algum momento se sugere a necessidade de uma reunião, e isso se converge no fato de que estamos juntos e nos escutamos. Não há uma relação de autoridade, não estamos dispersos, mas estamos fazendo algo juntos que é uma entrevista, uma conversação, e tem um caráter que vai depender da natureza do que se faz. Mas, que está associado com o momento de estar aqui, de querer estar aqui, de fazer coisas que vão surgindo desta interação que não é de autoridade, e que não é de dispersão.

IE: Vocês fazem uma certa crítica à idéia da liderança, em oposição à idéia da gerência co-inspirativa, pois a liderança seria baseada em obediência a uma autoridade. Mas, tanto nas empresas como nas escolas de gestão, fala-se muito sobre a necessidade da formação de líderes. Como vocês vêem essa necessidade da formação de líderes? E como essa idéia da gerência co-inspirativa é recebida pelas empresas quando vocês a apresentam?

Ximena: As empresas que nos escutam são as empresas responsáveis, sérias e audazes. E a palavra é audaz, pois estamos convidando-as a uma mudança de era, passar da era da pós-modernidade à era da pós-pós-modernidade. A era da pós-modernidade é a era da denúncia, de dizer estamos mal, algo tem de mudar, temos as mudanças climáticas, estão morrendo espécies. Estamos como o discurso, mas estamos parados no mesmo lugar. Passar à era da pós-pós-modernidade é passar à era da ação, à possibilidade de que surja o Homo Sapiens-Amans eticus, cuja ética central é seu viver e conviver. Para esta mudança de era, estamos propondo o fim da era da liderança para entrar na era da colaboração e da co-inspiração. Quando falamos de liderança, estamos dizendo que há pessoas que vão guiar outros de alguma maneira. Acontece que no momento em que alguém guia, tudo nasce em sua mente. Mas, a palavra líder perdeu o sentido no mundo. Não é o líder, é o gerente a pessoa que tem mais responsabilidade, que co-inspira, que colabora. Você é gerente em uma empresa, e por ser gerente não é líder. Mas o que você faz na gerência co-inspirativa é convidar a inspirar-nos juntos, a colaborar em um projeto conjunto. Se eu sou o gerente co-inspirativo, para mim as pessoas são igualmente inteligentes, igualmente criativas, e as convido, inspiro, na direção desse projeto comum. Portanto, estamos convidando a uma mudança de era – passar da era da liderança para a era da colaboração e da co-inspiração em um projeto comum.

IE: Quem são esses tipos de Homo sapiens dos quais vocês falam?

Ximena: Há o Homo sapiens no sentido zoológico. Falamos em Homo Sapiens-Amans amans, Homo sapiens-Amans agressans e Homo Sapiens-Amans arrogans. Porque dizemos Homo sapien- Amans Amans? Porque nascemos como seres amorosos. Quando o chamamos de Agressans, ou uma pessoa que é agressiva numa relação, ela nasceu agressiva ou se transformou em agressiva pela cultura que viveu? Ela nasceu amorosa, como todos. E se transformou em um Homo sapiens-Amans agressans pelo modo de vida. E se transformou em um Homo Sapiens-Amans arrogans pelo modo de vida. Mas nasceu amoroso, da mesma maneira que nascem todos os seres humanos.

Maturana: Homo Sapien- Amans amans tem a ver com a origem do humano, com o conversar, com o que faz isso possível. No olhar zoológico, se fala do Homo sapiens, um ente zoológico. Estamos falando de um ente zoológico-psíquico, zoológico-relacional. É um animal que se constitui na história na conservação da linguagem e do conversar. E a emoção que faz com que seja possível que isso aconteça, na história evolutiva, é o prazer de estar junto, porque para que a linguagem surja, se requer permanecer na companhia dos outros.

Fonte: Fátima Cardoso 08/07/2009

http://www.parceirosvoluntarios.org.br/humberto-maturana-propoe-o-fim-dos-lideres-e-o-resgate-dos-relacionamentos-humanos-nas-empresas/

La teoría de campo de Kurt Lewin - RobertoMuelas Lobato

 

La teoría de campo de Kurt Lewin

Roberto Muelas Lobato

Licenciado en Psicología por la Universidad de Salamanca (2012). Máster en Psicología de la Intervención Social por la Universidad de Granada (2013) y Doctorado en Psicología Social por la Universidad de Granada (2019). Actualmente, está realizando un Título de Experto en Análisis de Inteligencia por la Universidad Autónoma de Madrid y un Diploma de Especialización en Análisis del Terrorismo Yihadista, Insurgencias y Movimientos Radicales por la Universidad Pablo de Olavide.

Hace años, antes de que existiera una rama de la psicología denominada psicología social, los comportamientos se entendían como simples reacciones. El conductismo era la teoría en boga y los científicos se valían de sus premisas para intentar explicar la conducta. Cuando alguien nos pega, reaccionamos protegiéndonos para desviar el ataque o para evitar otro. Así, dentro de este paradigma, los estímulos y las asociaciones eran los que moldeaban las conductas.

No obstante, esta relación estímulo-respuesta era demasiado simple. El conductismo dejaba de lado las cogniciones humanas, los pensamientos. No tenía en cuenta que las conductas son el resultado de una interacción entre las personas y el ambiente (Caparrós, 1977). El que sí se dio cuenta de esto fue Kurt Lewin. Este psicólogo creo la teoría de campo, entre otras, poniendo atención a las interacciones de los grupos con el ambiente. Sus estudios sirvieron para que se le considerara uno de los padres de la psicología social.

La vida de Kurt Lewin

Kurt Lewin nació en Prusia, lo que hoy se conoce como Polonia. Posteriormente su familia se mudó a Alemania, donde Kurt estudió medicina y biología aunque acabara interesándose más por la psicología y la filosofía. Desde Alemania, Kurt fue enviado a luchar en la Primera Guerra Mundial y allí fue herido. Cuando regresó, empezó a trabajar en el Instituto Psicológico de Berlín. Con el alzamiento nazi, Kurt decide irse de Alemania y acaba por establecerse en Estados Unidos, donde impartirá clase en diferentes universidades.

Kurt había estado en contacto con ideologías próximas al socialismo, al marxismo y a la lucha por los derechos de las mujeres. Estas ideas le llevaron a una conclusión: la psicología podría ser de ayuda para cambiar la sociedad hacia una más igualitaria. Por ello, dedicó sus esfuerzos a intentar identificar y entender qué factores son los que influyen sobre nuestro comportamiento.

“Para entender un sistema, hay que cambiarlo”

-Kurt Lewin-

A fin de examinar el comportamiento humano, Kurt Lewin buscó inspiración en las teorías que provenían de la relatividad y de la física cuántica (Díaz Guerrero, 1972). Encontró una teoría que podía usar, la teoría de campo. Para integrar en la psicología optó por estudiar los comportamientos sin aislarlos de su contexto natural.

Por ello se centró en el estudio de los grupos. Sus estudios establecieron el precedente de lo que sería la psicología social y la psicología de las organizaciones. Sus experimentos giraron en torno a la psicología de los grupos, las dinámicas de cambio organizativo y el liderazgo.

La teoría de campo

Tomando la teoría de campo de la física, Kurt Lewin estableció dos condiciones básicas para su teoría de campo. La primera es que la conducta ha de deducirse de una totalidad de hechos coexistentes (Fernández, 1993). La segunda dice que esos hechos coexistentes tienen el carácter de un “campo dinámico”, el estado de cada una de las partes del campo depende de todas las otras.

Un campo, en física, es una zona del espacio en donde existen propiedades representadas por magnitudes físicas (temperaturas, fuerzas, etc.). Lewin usó el concepto físico de “campo de fuerzas” (Lewin, 1988) en su teoría de campo para explicar los factores ambientales que influyen en la conducta humana.


El comportamiento, en su opinión, no depende ni del pasado ni del futuro sino de los hechos y acontecimientos actuales y de cómo los percibe el sujeto. Los hechos están interconectados y constituyen un campo de fuerzas dinámico que podemos denominar espacio vital.


Por tanto, el espacio vital o campo psicológico de fuerzas vendría a ser el entorno que engloba a la persona y su percepción de la realidad próxima. Se trata, en definitiva, de un espacio subjetivo, propio, que recoge la forma en la que miramos el mundo, con nuestras aspiraciones, posibilidades, miedos, experiencias y expectativas. Además, este campo cuenta con algunos límites, establecidos especialmente por las características físicas y sociales del entorno.

El enfoque de la teoría de campo de Kurt Lewin permite estudiar nuestro comportamiento con una perspectiva de totalidad, sin quedarnos en un análisis de las partes por separado. La influencia del campo psicológico sobre la conducta es tal que Lewin considera que llega a determinarla: si no hay cambios en el campo, no habrá cambios en la conducta.

Para Lewin, la psicología no debía centrarse en el estudio de la persona y el entorno como si estas fuesen dos piezas a analizar de forma separada, sino que hay que ver el modo en el que se afectan entre sí en tiempo real.

Variables relevantes


Como en un campo de fuerzas, todas las partes se afectan entre sí. Para comprender nuestro comportamiento hay que tener en cuenta todas las variables que están interviniendo en tiempo real en él: tanto a nivel individual como a nivel grupal. Además, estos elementos no pueden analizarse de forma aislada, sino que hay que centrarse en estudiar sus interacciones para tener una visión holística de lo que ocurre. Para explicarlo, Lewin (1988) introdujo tres variables que consideraba fundamentales. Estas son las siguientes:

  • La fuerza: la fuerza es la causa de las acciones, la motivación. Cuando existe una necesidad, se produce una fuerza o un campo de fuerzas, lo que lleva a que se produzca una actividad. Estas actividades tienen una valencia que puede ser positiva o negativa. A su vez la valencia de las actividades dirigen fuerzas hacia otras actividades (positivas) o contra ellas (negativas). La conducta resultante responde a la mezcla psicológica de diferentes fuerzas.

  • La tensión: la tensión es la diferencia entre las metas propuestas y el estado actual de la persona. La tensión es interna y nos empuja a llevar a cabo la intención.

  • La necesidad: es aquello que inicia las tensiones motivadoras. Cuando existe una necesidad física o psicológica en el individuo, se despierta un estado interior de tensión. Este estado de tensión hace que el sistema, en este caso la persona, se altere para intentar restablecer el estado inicial y satisfacer la necesidad.

Lewin afirma que la teoría del campo determina cuáles son las conductas posibles y cuáles las imposibles de cada sujeto. El conocimiento del espacio vital nos permite predecir razonablemente qué hará la persona. Toda la conducta o, por lo menos, toda conducta intencional, es motivada: la impulsan tensiones, la mueven fuerzas, la dirigen valencias y tiene metas.

Las motivaciones


Kurt Lewin (1997) afirma que nuestras acciones se pueden explicar a partir de un hecho: percibimos caminos y medios particulares para descargar determinadas tensiones. Nos atraen aquellas actividades que vemos como medios para liberar tensión. Para Kurt, este tipo de actividades tendrían una valencia positiva y por lo tanto experimentaríamos una fuerza que nos impulsa a realizarlas. Otras actividades tendrían el efecto opuesto: aumentarían la tensión y por lo tanto tendrían un efecto repulsivo.

Para entender mejor esto vamos a hablar de una necesidad que todos tenemos: la necesidad de reconocimiento. Cuando esa necesidad surge, se va a despertar una motivación por conseguir reconocimiento en algún ámbito que nos interese. Tal motivación tendrá una valencia positiva que nos llevaría a actuar con el fin de conseguir reconocimiento.

Se despertará una tensión entre la situación actual y la necesidad de conseguir el reconocimiento. Todo ello nos va a llevar a pensar posibles acciones para conseguir el reconocimiento y, dependiendo de en qué campo queremos ser reconocidos, llevaremos a cabo la acción que consideremos que nos aporte posibilidades de conseguir dicho reconocimiento.

Bibliografía

Caparrós, Antonio (1977). Historia de la psicología. Barcelona: Círculo Editor Universo.

Díaz Guerrero, Rogelio (1972). La evolución psicológica según Kurt Lewin: Dos conferencias.

Fernández, Alejandra (1993). Kurt Lewin (1890-1947): Una evaluación actual de su significación para la psicología. Madrid: Universidad Nacional de Educación a Distancia.

Lewin, Kurt (1988). La teoría del campo en la ciencia social. Barcelona:Paidós.

Lewin, Kurt (1997). Resolving social conflicts: Field theory in social science. Washington, DC: American Psychological Association.