23/03/2021

Lewin e a pesquisa-ação: gênese, aplicação e finalidade

Fractal: Revista de Psicologia, v. 28, n. 1, p. 153-159, jan.-abr. 2016. doi: http://dx.doi.org/10.1590/1984-0292/1162


Lewin e a pesquisa-ação: gênese, aplicação e finalidade

Armando Sérgio Emerenciano de Melo, I Osterne Nonato Maia Filho, I, II, III Hamilton Viana ChavesI, IV, I Universidade de Fortaleza, Fortaleza, CE, Brasil II Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, CE, Brasil III Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, CE, Brasil IV Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará , Fortaleza, CE, Brasil 

 Resumo 
O objetivo deste texto é refletir sobre a gênese, os fundamentos teóricos e a importância da pesquisa-ação como estratégia de intervenção psicológica. Pretende-se, a partir deste resgate, suprir uma demanda do pesquisador em psicologia: demarcar os fundamentos do surgimento da pesquisa-ação e viabilizar as bases científicas de uma intervenção psicológica amparada neste método de trabalho. A pesquisa-ação pode ser pensada epistemologicamente como uma modalidade de pesquisa “qualitativa”. Esta diferencia-se dos métodos de pesquisa tradicionais e positivistas, uma vez que esses estão mais ligados a uma noção reducionista de fenômeno humano, na lógica da categoria psicológica “experimental” e quantitativamente controlável. 
Palavras-chave: pesquisa-ação; Kurt Lewin; fundamentos teóricos; grupo. 

Abstract 
 The aim of this paper is to reflect on the genesis, the theoretical foundation and the importance of action research as a strategy for psychological intervention. It is intended, from this resumption, to fulfill the demand of a researcher in psychology: define the fundamental of the emerging of action research and facilitate the scientific basis of psychological intervention supported by this working method. Action research can be epistemologically considered as a form of “qualitative” research, differentiating itself from traditional and positivist research methods, which are more connected to a reductionist approach of human and psychological “experimental” phenomenon and quantitatively controllable.

Keywords: action research, Kurt Lewin; theoretical foundations; group 

 A pesquisa tradicional na psicologia e a pesquisa-ação 

 A escolha do método de pesquisa-ação deve, inicialmente, levar em consideração sua história e sua fundamentação teórica e epistemológica. A pesquisa-ação como uma abordagem qualitativa de pesquisa tem sido objeto da reflexão de teóricos e epistemólogos tais como Alves (1991), Barbier (1985, 2007), Haguette (1997), Bogdan e Biklen (1994), Triviños (1992) e Tripp (2005). 

 Os dados obtidos numa pesquisa são denominados de qualitativos quando apresentam um caráter descritivo e rico de significados. A expressão pesquisa qualitativa é utilizada como um termo genérico que agrupa diversas estratégias de investigação que partilham determinadas características” (BOGDAN; BIKLEN, 1994, p. 16). A operacionalização desses dados não se dá através do controle de variáveis, mas da investigação de fenômenos tais como se encontram em seu contexto e na riqueza de seu ambiente “natural”. Mesmo que os investigadores, na pesquisa qualitativa, possam vir a selecionar questões específicas na medida em que recolhem os dados, a abordagem da investigação não é feita com o objetivo de responder a questões prévias ou de testar hipóteses. Para Bogdan e Biklen (1994, p. 16), os pesquisadores 

 […] privilegiam, essencialmente, a compreensão dos comportamentos a partir da perspectiva dos sujeitos da investigação. As causas exteriores são consideradas de importância secundária. Recolhem normalmente os dados em função de um contato aprofundado com os indivíduos, nos seus contextos ecológicos naturais. 

 Os dados principais são apreendidos em sua contextualidade em função da relação entre pesquisador e sujeito pesquisado, sendo consideradas de menor relevância as causas exteriores a esta relação. Para Alves (1991), a abordagem qualitativa parte do pressuposto de que o conjunto de expressões dos sujeitos, vinculado a seus valores e crenças, é dotado de sentidos. Seus efeitos não se dão a conhecer por meio do imediato, sendo necessária a interpretação do que se apresenta. 

 A constatação é de que certos conhecimentos só se revelam a partir da interação humana. Decorre daí o consenso entre os teóricos da pesquisa qualitativa de considerar o pesquisador como o principal sujeito no processo de observação, de diagnóstico e de intervenção (REY, 2002). Os fenômenos sociais só se revelam aos pesquisadores quando eles estão dispostos a se engajarem pessoalmente, observando, diagnosticando e intervindo nos processos de pesquisa (LEWIN, 1965). 

 Em outras palavras, os fenômenos sociais não podem ser observados do exterior nem de modo estático, porque assim eles não se tornam perceptíveis ao pesquisador que os apreende participando de sua construção. Segundo Bogdan e Biklen (1994), a pesquisa qualitativa tem cinco características ou tendências principais: 1. A fonte direta dos dados é o ambiente “natural”, em condições espontâneas; 2. A investigação qualitativa é tipicamente descritiva; 3. O foco de interesse do pesquisador é o processo; 4. Há uma tendência para analisar os dados de forma indutiva; 5. O significado é vital. 

 Nessas cinco tendências apresentadas encontramos as principais características da pesquisa qualitativa. Como ponto de encontro das cinco tendências merece destaque a proximidade entre sujeito e objeto. A inserção e a vivência direta do pesquisador no contexto da pesquisa são necessárias para que o conhecimento seja construído. Isto remete também para a participação dos sujeitos pesquisados no processo de geração de conhecimento. 

 Haguette (1997) também situa a pesquisa-ação como uma alternativa aos métodos de pesquisa tradicional e a inclui entre os métodos de investigação qualitativa. Para ela as metodologias qualitativas não devem ser entendidas como alternativas aos modelos quantitativos, apresentados frequentemente em oposição. Isto reflete uma visão maniqueísta e pouco dialética que encontra vantagens sumárias em um modelo e defeitos congênitos do outro. Admitem Bogdan e Biklen (1994), que a escolha da pesquisa qualitativa não supõe que foi preterida a pesquisa quantitativa, pois não há essa dicotomia no campo da investigação. De fato, para Triviños (1992, p. 118), “toda pesquisa pode ser, ao mesmo tempo, quantitativa e qualitativa”, pois o quantitativo nada mais é do que uma expressão da qualidade manifesta em linguagem matemática, logo se trata de formas diferentes de expressar e descrever o objeto ressaltando mais seu aspecto dinâmico (quantidade) ou se seu aspecto descritivo (qualidade). 

 Os pesquisadores em antropologia e sociologia utilizam largamente a abordagem qualitativa há, pelo menos, um século, mas a expressão “investigação qualitativa” em certa oposição à pesquisa quantitativa apenas veio a ser empregada no final dos anos sessenta do século passado. Schwandt (2006) destaca que o arcabouço teórico deste tipo de pesquisa sedimenta-se em pressupostos interpretativos e hermenêuticos. Assim sendo, faz-se necessário conectar conceitos oriundos destes pressupostos com a realidade investigada e a partir dessa relação produzir novos conceitos. 

 A gênese da pesquisa-ação 

 Barbier (2007) afirma que a discriminação ao povo judeu, marcante no período da segunda grande guerra, influenciou as escolhas metodológicas de Kurt Lewin. Com efeito, segundo Mailhiot (1985), Lewin, em 1933, por ser judeu, foi obrigado pelos nazistas a deixar a Alemanha com sua família, pagando um resgate para não ser encerrado em um campo de concentração. É como se a indignação de Lewin com a opressão nazista se apresentasse na forma de uma indagação: como os judeus aceitaram passivamente a opressão nazista? Como poderia responder a essa indagação? Dito de outra forma, quem poderia dar uma resposta consistente a essa indagação? 

 Ao propor a pesquisa-ação, Lewin ousou não apenas estudar o problema in loco, mas participar do problema. Conviver com a dor dos sujeitos para compreender clinicamente o seu problema. Observar, descrever, analisar e devolver a escuta na busca do conhecimento.

 Propôs que os objetos da pesquisa se transformassem em sujeitos e, assim, usufruíssem diretamente da produção do saber. Resolvendo seus próprios problemas para aprender a pesquisar, para aprender a se apropriar de sua realidade. A comunidade se torna, assim, o próprio pesquisador em ação mediado pelo proponente inicial da pesquisa. 

 Para Barbier (1985), assim como a sociologia americana investigou os problemas sociais nas zonas urbanas após a primeira guerra mundial, a pesquisa-ação se desenvolveu a partir do problema judeu e das questões de ordem prática, decorrentes da segunda guerra mundial. Para esse autor, a gênese social precede à gênese teórica. 

 De fato, os estudos utilizando a pesquisa-ação se intensificaram durante e depois desse período. Barbier (1985, p. 39) cita algumas das investigações realizadas: 

 [...] no setor da indústria vão tratar da ‘decisão de grupo’, da ‘auto-organização’ (Bavelas), da ‘formação dos quadros dirigentes’ (Lewin e French), da ‘modificação dos estereótipos’ (French), de ‘como vencer a resistência à mudança’ (Coch e French). 

 Ao chegar aos Estados Unidos, Lewin encontrou problemas sociais semelhantes àqueles vivenciados por ele na Alemanha, mas desta vez eram negros, mulheres e adolescentes de rua (gangues), em vez de judeus. Embora fossem grupos expressivos, estes eram excluídos das prioridades da sociedade norte-americana. 

 Em resumo, a pesquisa-ação é ao mesmo tempo uma metodologia de resolução de problemas psicossociais e uma investigação científica e teórica sobre o mesmo problema. Seu fundamento teórico é que se somos parte do problema, o grupo como um todo dinâmico do qual faço parte pode investigá-lo e propor soluções melhores do que um pesquisador isolado e externo ao grupo. Noutros termos, os sujeitos envolvidos na investigação são uma parte significativa do problema pesquisado e a sua resolução serão atravessadas pela mudança de comportamento deles na comunidade. 

 Abrangência e aplicação da pesquisa-ação lewiniana 

 Após situar a pesquisa-ação como uma abordagem qualitativa, apresentaremos agora uma revisão dos seus principais conceitos. Para tanto, serão discutidos os aportes produzidos por Kurt Lewin, assim como as contribuições de alguns de seus seguidores e comentadores tais como Mailhiot (1985), Tripp (2005), Haguette (1997), Maciel (1999), Thiollent (1998, 2000) e Barbier (1985, 2007).

Tripp (2005) afirma que a pesquisa-ação é amplamente utilizada por pesquisadores das ciências humanas e sociais. Ele destaca que esta modalidade de pesquisa possui um caráter cíclico, o que quer dizer que há uma atuação conjunta entre pesquisador e sujeitos desde a admissão da questão inicial até os efeitos resultantes do estudo. 

 No campo da saúde podemos citar, por exemplo, as pesquisas de Sommer (1999) e Williamson e Prosser (2002). Estes últimos autores concordam que a pesquisa-ação tem crescido em popularidade. Os resultados de pesquisa com esse aporte metodológico permitem mudanças de práticas e geração de novos conhecimentos, além de maior empoderamento e autonomia de seus participantes. Os autores ressaltam, entretanto, que dadas às características de imersão de pesquisadores no locus de estudo algumas ressalvas devem ser feitas. A primeira delas é quanto às consequências políticas do estudo, isso porque envolve uma série de padrões comportamentais que são postos em questão e que, de alguma forma, estão sujeitos à mudança como resultado do estudo. 

 Em segundo lugar, evidenciam os aspectos éticos, algo também destacado por Tripp (2005). É preciso deixar claro que a pesquisa-ação não oferece as mesmas garantias de confidencialidade e anonimato das informações se comparada com outros métodos de pesquisa. O que requer do pesquisador discutir e negociar este aspecto antes de iniciar seus trabalhos. Por último, a própria concepção de que os sujeitos envolvidos na pesquisa tomam parte nos relatos de estudo deixa-os em uma delicada situação quanto ao sigilo. 

 Lewin (1978) ao fundamentar esse método, conceitualmente destaca que a pesquisa-ação lida notadamente com dois tipos de problemas, considerados indissociáveis: o estudo amplo da sociedade e a análise da situação específica. O caráter peculiar da situação em estudo é determinado por uma análise científica dos fatos, denominada diagnóstico. O conhecimento aí produzido orienta à solução do problema através de uma ação planificada e conduzida pelo grupo.

 Esse estudioso se refere à planificação nos seguintes termos: “o planejamento parte de algo assim como uma ideia geral. Por qualquer razão, parece conveniente atingir um determinado objetivo. Frequentemente, não fica muito clara a maneira de definir esse objetivo, e de como atingilo” (LEWIN, 1978, p. 219). Cabe a indagação: se não é claro onde queremos chegar? Como chegaremos lá? 

 Pode-se entender que quando Lewin (1978) propõe que o planejamento parta de uma “ideia geral”, que, de início, nem sempre é muito clara, ele admite uma indefinição como guia inicial, estando esta na direção de um processo de esclarecimento. Ao afirmar que o planejamento “parte de algo” que “não fica claro” de início, ele propõe partir da indefinição para a definição e, portanto, apresenta um método de construção. Assim o esclarecimento da demanda é uma exigência metodológica da pesquisa-ação. A clarificação de como atingir os objetivos é uma construção realizada, a partir do diagnóstico e através de um planejamento pelos envolvidos na pesquisa, coletivamente. 

 O que não é claro, mas também serve de guia para o pesquisador, são as idealizações, como utopias. Este conceito foi criado pelo inglês Thomas Morus e quer dizer lugar (topos) que não existe (prefixo grego u, negação) em sua famosa obra homônima do século XVI. Löwy (1999, p. 13) define utopias como “aquelas ideias, representações e teorias que aspiram outra realidade, uma realidade ainda inexistente”. A realidade inexistente será construída a partir da transformação da situação atual. Para tanto Lewin (1978) propunha o planejamento como construção necessária para tornar real, o utópico. 

 Um pesquisador do social não pode navegar por utopias impunemente; estas são vistas como sonhos realizáveis, exequíveis. O planejamento deve partir de um plano global, de como atingir o objetivo, e o primeiro passo é avaliar a ideia com atenção especial considerando os meios disponíveis. Confrontar o ideal com o real dos recursos, geralmente escassos. 

 Nesse momento para a pesquisa-ação é importante a análise dos recursos com a participação de todos nela envolvidos. Assim, a produção do diagnóstico e do planejamento é uma oportunidade de participação coletiva. Ao final do processo, é realizada a análise dos resultados produzidos pela ação, que tem quatro momentos: verificar os resultados produzidos pela ação, avaliando se o que foi atingido está de acordo com as expectativas do grupo; proporcionar aos planejadores uma oportunidade de aprender, ou seja, de obter uma nova compreensão geral do problema; servir de base para o planejamento adequado do próximo passo e servir de referência para a modificação do plano originalmente estabelecido. 

 Ao obter uma nova compreensão, tanto o pesquisador quanto os sujeitos da pesquisa estão ampliando os seus conhecimentos. Podemos afirmar que a pesquisa-ação é orientada à resolução de problemas e motivada pelo desejo de mudança. O pesquisador deve considerar o potencial dos participantes da investigação para desenvolver algumas habilidades específicas para a efetivação da pesquisa, sendo necessária a vontade de aprender e o compromisso com as mudanças dos sujeitos investigados. Algumas das consequências esperadas na pesquisa-ação com a participação social, além da solução dos problemas, são as aquisições de novos conhecimentos e estratégias de intervenção na realidade. Quais os caminhos tomados por Lewin para efetivar a pesquisa-ação? A efetivação de suas ideias se deu pela transformação das comunidades em laboratórios sociais e pelo conhecimento desenvolvido sobre a dinâmica dos grupos. 

 Lewin (1978, p. 215) utilizou, para propor a pesquisa ação, o formato do seminário com trabalhadores sociais americanos. Ele partiu do contato que teve durante um ano e meio com um grande número de organizações e instituições. “Incluíam-se representantes de comunidades, sistemas escolares, escolas isoladas, organizações minoritárias de diferentes origens e objetivos”. Ele propôs uma estratégia para a realização de seminários que denominou “laboratórios sociais” (workshops). 

 Definiu esse termo como um conjunto metodológico visando a mudanças interpessoais, grupais e intergrupais a partir da análise da participação no laboratório e do relato das ocorrências na comunidade. O objetivo do laboratório social era possibilitar a resolução de problemas sociais, aperfeiçoando simultaneamente a metodologia de intervenção. Decorria deste objetivo enfrentar a resistência que o “novo” promovia. Para o pesquisador, eram dois os problemas: o primeiro era vencer a resistência que os novos modos de trabalho promoviam; e o segundo era manter a mudança, evitando os processos de sabotagem que frequentemente ocorriam após as inovações. 

 Como parte do método do laboratório social, que se realizava através de oficinas, Lewin (1978) propôs que, antes de iniciá-lo, os trabalhadores sociais de cada comunidade realizassem um diagnóstico. No seminário, de posse dos diagnósticos, os passos seguintes eram efetivados. 

 Em primeiro lugar havia a formação de grupos de trabalho no estilo seminário, mas que conservavam esta relação após o seu encerramento. Com esta estratégia, ele propunha que as pessoas passassem a trabalhar em grupo, enfrentando, juntas, os problemas comuns. Assim, elas desenvolviam métodos e criavam vínculos. Desta feita a equipe continuaria a interagir quando voltasse à comunidade local. Essa orientação seguia a lógica da investigação científica. 

 Outro cuidado era quanto ao registro dos acontecimentos dos seminários. A anotação dos dados não era uma prática própria deste tipo de atividade, mas sim da ciência. Ainda hoje diversos grupos e organizações que trabalham com o social não utilizam registros de trabalho com o objetivo de aperfeiçoar a sua prática, permanecendo no empirismo informal e na cultura oral. 

 Para aperfeiçoamento do processo havia uma metaavaliação. Alguns meses após a realização do seminário, um diagnóstico semelhante ao primeiro deveria ser aplicado. Este procedimento possibilitava a comparação entre os dois diagnósticos, sendo que o segundo permitia renovar o ciclo da pesquisa-ação. 

 A inovação de Lewin (1978) foi propor que o seminário se transformasse em um momento de pesquisa, com status de ciência. Os registros, ao final de cada dia de seminário, eram utilizados para realizar uma sessão de avaliação, na qual era feita a comparação dos resultados obtidos com os objetivos traçados. Desta forma, a avaliação de um dia era investida na realização do próximo seminário, sendo que fazê-lo, ainda em seu percurso, possibilitava que o seu resultado fosse aplicado imediatamente e se pudessem corrigir possíveis desvios. Este aspecto era considerado muito importante por ele, que assim o descreveu: 

 […] fiquei profundamente impressionado com o extraordinário resultado pedagógico que essas reuniões de avaliação, ideadas com o propósito de registro científico, tiveram no processo de treinamento. A atmosfera de objetividade, a disposição do corpo docente de discutir abertamente seus erros, longe de prejudicar-lhes a posição, parecia conduzir a um aprofundamento da compreensão e àquela disposição de serena objetividade que em lugar algum é mais difícil de atingir que no campo das relações intergrupais, o qual está carregado de emotividade e rigidez de atitude, mesmo entre os chamados liberais e entre aqueles cuja tarefa é promover relações intergrupais (LEWIN, 1978, p. 225). 

 Barbier (1985, p. 40) apresenta outra descrição desse momento, destaca que Lewin “descobre o Training-Group, graças à curiosidade dos alunos de um laboratório para a transformação pessoal, que queriam ouvir e comentar o que a equipe de observação e pesquisa achava dos seus comportamentos”. Foi devido ao interesse dos seus alunos, contratados pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), e que eram participantes de um programa que visava minimizar os conflitos raciais nos Estados Unidos, que foi descoberto o efeito educativo do feedback. 

 Desta forma, podemos observar que, enquanto a avaliação significa o exame dos efeitos e dos resultados alcançados à luz de definições prévias em um determinado evento, o feedback vai mais além, pois implica no aproveitamento efetivo dos efeitos avaliados na reformulação ou na repetição do processo considerado. Quando se embute a função de feedback em qualquer processo de trabalho (pesquisa, educação etc.), considerase que, da avaliação, é provido um retorno sistemático, alterando ou ajustando o andamento do processo por efeito dessa alimentação para o objetivo traçado. 

 A descoberta do feedback é apenas um dos achados que possibilitaram a definição de um novo campo de estudo. Lewin cunhou o termo “dinâmica de grupos” e lhe definiu os primeiros contornos com o objetivo de viabilizar a realização da pesquisa-ação. O termo “dinâmica” vem do sentido que a física lhe empresta, qual seja, contrário ao conceito de estática, que significa sem movimento. Assim, dinâmica encerra a ideia de movimento, ou seja, a concepção de que, nos grupos, ocorrem fenômenos que lhe dão movimento, ou melhor, vida. Nos grupos ocorrem fenômenos subjetivos e psicológicos que provocam movimento e apenas o estudo científico destes poderá desvelar esses fenômenos. 

 O laboratório, ou oficina, era um evento coletivo que reivindicava a participação das pessoas. A necessidade de resolverem problemas sociais em comum proporcionou a Lewin também um dos meios para tal fim, o trabalho em grupo. Mas para trabalhar em grupo foi necessária não apenas a organização, mas entender como as pessoas agem em grupo. Para viabilizar a pesquisa-ação era necessário compreender os fenômenos de grupo. Por esse motivo Barbier (1985) afirma que Lewin criou a dinâmica dos grupos como decorrência da pesquisa-ação, pois ela apenas pode ocorrer em grupo exigindo, assim, a compreensão de como eles funcionam. 

 O fato da pesquisa-ação apenas ocorrer em interação grupal exigiu a compreensão desse trabalho coletivo. Para Haguette (1997, p. 115), o imbricamento entre a pesquisa-ação e a dinâmica dos grupos é tal que o pesquisador “deve dominar as técnicas de dinâmica dos grupos e as teorias subjetivas que a informam”. Afinal, a pesquisa-ação é literalmente a ação dinâmica dos grupos como pesquisador.

 Decorre desta constatação que, para execução da pesquisa-ação, o investigador precisa ser qualificado em dinâmica dos grupos no papel de coordenador de grupo. Em resumo, ao executar a pesquisa-ação, o investigador apoia-se na estratégia da oficina social na qual os conhecimentos em dinâmica dos grupos são imprescindíveis, sendo necessário que o pesquisador tenha formação específica. É claro que o processo produzirá um deslocamento do sujeito da ação: do pesquisador original para os grupos (comunidade) como pesquisadores. 

 Finalidade da pesquisa-ação lewiniana 

 Para Lewin (1978, p. 216), pesquisa-ação é “um tipo de pesquisa de ação, uma pesquisa comparativa acerca das condições e resultados de diversas formas de ação social e pesquisa que leva à ação social”. Ele propôs como objetivo da pesquisa-ação, além da investigação teórica, a resolução do problema social. A necessidade de resolver problemas sociais tem implicações para o sistema teórico que ampara a leitura e interpretação desses problemas. Nesta perspectiva, é a resolução do problema social que influencia a investigação teórica. Thiollent (2000, p. 50) confirma esta implicação ao afirmar que o tema na pesquisa-ação “é a designação do problema prático e da área de conhecimento a serem abordados” e ao postular que não havia nada mais prático que uma boa teoria, Lewin propunha uma vinculação estreita entre o problema teórico e o prático. 

 Barbier (2007) apresenta uma definição de pesquisaação que contempla outros aspectos apresentados por Lewin. Ele afirma que a pesquisa-ação é um estudo do psicológico cujo objetivo é a transformação psicossocial a partir do trabalho de campo. 

 Entende-se como psicossocial o fenômeno que é simultaneamente social e psicológico, em que o efeito da interação social é assumido pelo sujeito psicológico como sendo seu e sentido pelo grupo social, como a unidade dessa diversidade. O sujeito psicológico sente essa experiência como algo que parte da vivência primeira, não mediada, mas não se limitaria por esta condição. Ele explora os diversos sentidos no intuito de apreender, mesmo que parcialmente, a realidade (FIGUEIREDO; SANTI, 2007). 

 Desvelar os sentidos ocultos da vivência é um processo de explicitação da subjetividade subjacente à experiência social, neste caso trata-se de uma clínica psicossocial. O termo psicossocial corresponde à composição de um grupo em sua natureza, indissociável, entre o psíquico e o social (MELO; MAIA FILHO; CHAVES, 2014). Neste sentido, a pesquisa psicológica de campo, ou seja, pesquisa-ação implica em clínica do social. Para Lewin (1978, p. 220), “é preciso estabelecer processos de averiguação de fatos, olhos e ouvidos sociais, bem no interior dos corpos de ação social”. Esta temática de intervenção e de mudança estaria ligada à aspiração dele de transformar a psicologia social em uma ciência de ação. 

 Haguette (1997, p. 112) atribui o pioneirismo da intervenção social à Lewin, afirmando que “é, pois, com Kurt Lewin que o conceito de intervenção, na vida social, com o objetivo de transformá-la, toma corpo, e uma metodologia própria começa a se firmar e aperfeiçoar”. 

 Para Lewin (1978), as hipóteses que a ciência formula e as teorias que elabora não tem valor para a psicologia social senão na medida em que são aplicáveis, isto é, na medida em que permitem efetuar, de modo eficaz e permanente, as transformações dos fenômenos sociais que elas querem explicar. 

 Para Barbier (1985, p. 46), que situa a pesquisa-ação entre a psicologia clínica e a sociologia clínica, o objetivo do método clínico em ciências sociais é 

 […] explorar o comportamento e as representações de um sujeito ou de um grupo de sujeitos diante de uma situação concreta, para compreender-lhes o sentido, colocandose alternadamente na perspectiva de observador e na de sujeitos-atores e de sua vivência. 

 Comparando a atividade do pesquisador com a da clínica médica, Lewin (1978, p. 227) destaca que o pesquisador

 […] terá usualmente de escolher entre diversos métodos de tratamento e precisará de tanta habilidade e engenhosidade quanto o médico, no que se refere ao diagnóstico e ao tratamento. 

 Para Barbier (1985), o conceito de “clínica” em ciências sociais é um conceito-chave, pois está na confluência da ciência pura com a ciência aplicada no que se refere ao humano. Destaca que o mais importante para o procedimento clínico é a sensibilidade ao que é ambíguo. 

 A pesquisa-ação visa gerar o empoderamento (empowerment) da comunidade e com isto maior autonomia na resolução de seus problemas. O objetivo de gerar o empoderamento acrescenta à pesquisa-ação um conceito que define melhor o que se espera com a participação neste tipo de investigação. Empoderamento é definido como a relação de poder existente entre as pessoas que convivem juntas diariamente, no sentido do controle de suas próprias vidas (MACHADO et al., 2015). 

 Stringer (1993) apresenta as premissas fundamentais para gerar o empoderamento. Ele destaca o controle das ações comunitárias e sentimentos de poder sobre tais ações. Salienta as possíveis oportunidades de tomada de decisão que os capacita a definir suas prioridades e determinar sua direção. E também os meios de afetar os eventos e atividades que tem um impacto sobre suas vidas. 

 Estas são afirmativas de natureza ideal. Elas oferecem a base para o desenvolvimento de critérios através dos quais os pesquisadores podem direcionar as atividades da pesquisa. Programas de cursos e processos de trabalho definidos na sua situação local pelos integrantes da comunidade, de acordo com suas próprias maneiras de interpretar o significado de participação, justiça, liberdade e aperfeiçoamento dos processos de trabalho, geram compromisso e empoderamento. Considerando todos esses aspectos torna-se mais evidente explicitar a proposta da pesquisa-ação. 

 A ideia Lewin é composta de um ciclo em quatro etapas: coleta de dados, diagnóstico, implementação e avaliação. Na primeira etapa, explora-se o campo, registrando-se os dados relevantes sobre os problemas apresentados pela organização-cliente. Estes problemas não são questionados em profundidade, a discussão é mais no sentido de enunciá-los de uma forma clara, constituindo-os no ponto de partida para coletar os dados e realizar o diagnóstico. 

 Assim, partindo dos problemas apresentados, é realizada uma análise coletiva, para que os problemas venham a revelar-se em sua essência. Alguns problemas são sintomas de outros, embutidos nos processos de trabalho das organizações. A definição do problema inicial orienta os dados a serem investigados e as estratégias e técnicas que serão utilizadas para resolvê-los, tais como a observação participante e as oficinas. Neste momento da pesquisa-ação, os problemas são explicitados e hierarquizados. Quivy e Campenhoudt (1992) utilizam o termo “pergunta de partida” para procedimentos semelhantes de escolha do problema, chave principal na pesquisa-ação. 

 A segunda etapa, o diagnóstico, ocorre através da categorização e análise dos dados. A partir da situação problema é traçada a situação desejada através da definição de resultados esperados. O diagnóstico é o momento em que, partindo da identificação coletiva dos problemas de uma determinada situação e adotando estratégias de dinâmica dos grupos e conhecimentos das ciências sociais e psicológicas, descortina-se o modo operante, ou seja, os processos de trabalho da organização. 

 Para realizar o diagnóstico, parte-se do problema apresentado, escolhe-se um método e as técnicas de coleta de dados buscando informações que permitam formar uma compreensão da situação. Buscar dados no objeto-sujeito na pesquisa-ação constitui a estratégia principal para a solução de problemas sociais. 

 Schein (1982) comenta que entre os valores mais importantes da pesquisa-ação está a realização de um diagnóstico permanente, como alternativa ao “achismo” e generalizações grosseiras através dos quais se tomam decisões nas organizações. Ele parte do pressuposto de que o ritmo de transformação da sociedade é constante e exige um aumento na habilidade da sociedade de diagnosticar-se. Por causa disso, devemos incorporar o diagnóstico contínuo dos processos como um estilo de vida, se quisermos evitar fracassos como profissionais e cientistas. Para ele, a habilidade mais importante que deve ser desenvolvida junto aos integrantes de uma pesquisa “é a habilidade de diagnosticar e trabalhar em seus próprios problemas nas áreas interpessoais, organizacionais e de grupo” (SCHEIN, 1982, p. 134). 

 Para tanto é necessário apoiar a ação dos integrantes da pesquisa-ação na análise prática do problema de pesquisa e no conhecimento teórico desenvolvido. O coordenador da pesquisa deve estimular e difundir os conhecimentos que permitam aos sujeitos o desenvolvimento da habilidade de diagnosticar. A solução do problema de pesquisa deve ser apoiada pelo estudo teórico dos problemas. 

 Sobre a escolha do estudo teórico Thiollent (2000, p. 52) afirma que “o tema e as questões práticas a serem tratadas devem ser absolutamente endossadas pelos participantes”. Investigador e participantes elucidam a situação-problema para organizar a busca de soluções. Ou seja, a pesquisa-ação é organizada em torno da procura de soluções teóricas e práticas para o problema da investigação. Por conta dos achados do campo e da investigação teórica do tema, o diagnóstico é refeito, quando novas informações são inseridas. Assim, após a análise dos problemas, é definido o tema da pesquisa e o problema central da pesquisa. Como afirma Thiollent (2000, p. 50), “O tema da pesquisa é a designação do problema prático e da área de conhecimento a serem abordados”. 

 Os problemas são organizados em assuntos ou subtemas após uma discussão da qual emerge o tema da investigação; este será dirigido para aquisição de conhecimentos que contribuam para a solução dos problemas. Nesta etapa da pesquisa-ação, o consenso entre os participantes e o pesquisador deve ser buscado. 

 Com base no diagnóstico e no resultado esperado, são identificadas as lacunas existentes entre “o que é” e “o que deveria ser”. É nesta discussão do real com o ideal que se inicia a terceira etapa, o planejamento. Delineiam-se as alternativas de solução que devem ser avaliadas, sendo que o meio para solucionar a situação é decidido coletivamente. 

 A terceira etapa visa a atenuação da distância entre a situação desejada e a situação-problema, através da implementação do planejamento. A finalidade do planejamento é identificar e operacionalizar uma estratégia para resolvê-la. Assim, a estratégia traçada é executada, podendo atingir os resultados esperados ou não. 

 O planejamento é um esboço de como resolver os problemas. Corresponde a uma hipótese. Thiollent (2000, p. 56) define hipótese na pesquisa-ação “como suposição formulada pelo pesquisador a respeito de possíveis soluções a um problema colocado na pesquisa”. O leitor pode estar estranhando a utilização de hipótese em uma pesquisa qualitativa. De fato, são poucas as modalidades de pesquisa qualitativa que preveem a utilização de hipótese. Mas o autor afirma que na pesquisa-ação 

 […] seja como for, podemos considerar que a pesquisa-ação opera a partir de determinadas instruções (ou diretrizes) relativas ao modo de encarar os problemas identificados na situação investigada e relativa aos modos de ação. Essas instruções possuem um caráter bem menos rígido do que as hipóteses, porém desempenham uma função semelhante (THIOLLENT, 2000, p. 33). 

 No planejamento, encontramos um raciocínio hipotético articulado a uma rede de sub-hipóteses que contribuem para sustentar uma hipótese principal. Como resultado desta articulação é elaborado o planejamento, destinado a eliminar as lacunas diagnosticadas e programam-se as atividades planejadas, as quais produzem os resultados. 

 A efetivação da pesquisa-ação caracteriza-se por um processo coletivo de mudança. A modificação é apresentada como passagem de uma situação-problema inicial para uma situação desejada. As mudanças imaginadas são coletivas e progressivamente definidas. Thiollent (2000, p. 51) afirma que “na pesquisa-ação, o caráter normativo das propostas é explicitamente reconhecido”. 

 Portanto, a transformação traçada atravessa o campo social e apenas é possível se um acordo no plano das normas for realizado. Isso exige que as normas sejam evidenciadas na busca de soluções a partir das quais são desencadeadas as transformações no meio social. Para Thiollent (2000, p. 54) “há todo um trabalho sobre a normatividade, muitas vezes negado como tal, que é preciso equacionar no plano metodológico”. 

 Por fim, na quarta etapa, os resultados das realizações são verificados. Visa-se identificar, após as ações executadas e os resultados obtidos, quais as lacunas ainda existentes entre a situação desejada e os resultados alcançados. No decorrer da avaliação, as etapas anteriores são reexaminadas em função dos resultados. Para tanto, é revista a coleta de dados, o diagnóstico, o planejamento e a implementação, constituindo-se assim em um rediagnóstico. Por sua vez, este pode motivar um novo ciclo de pesquisa-ação. 

 Considerações finais 

 A pesquisa-ação desenvolvida por Lewin, sem dúvida, inaugura uma nova estratégia para a intervenção científica no campo social e grupal como destaca Haguette (1997), mas sua importância vai muito além desse fato. 

 A pesquisa-ação é, na verdade, uma intervenção social que não se limita apenas em descrever e teorizar sobre um problema social do cotidiano real das pessoas, mas em resolvê-lo, efetivamente, enquanto uma prática-teoria que transforma a realidade e contribui para a superação de uma situação-problema que gera sofrimento nas pessoas e suas implicações. 

 Nesse processo inaugura-se, ou mais que isso, se evidencia a natureza psicossociológica desse fenômeno, pois é o sujeito em ação na interação com o outro que modifica a si e ao outro, ao grupo, e a sociedade onde muitos amparam um, e um representa muitos. Portanto, sociedade, grupo e sujeito já não se encontram mais em oposição, e teoria e prática não se separam, mas se reconstroem em uma unidade que paradoxalmente não era visível. 

 Referências 
 ALVES, A. J. O planejamento de pesquisas qualitativas em educação. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n. 77, p. 53-61, maio, 1991. 
 BARBIER, R. A pesquisa-ação na instituição educativa. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1985. 
 BARBIER, R. A pesquisa-ação. Brasília: Liber Livro, 2007. BOGDAN, R.; BIKLEN, S. Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Cidade do Porto: Porto, 1994. 
 FIGUEIREDO, L. C. M.; SANTI, P. L. R. Psicologia: uma (nova) introdução. São Paulo: EDUC, 2007. 
HAGUETTE, T. M. F. Metodologias qualitativas na sociologia. 5 ed. Petrópolis: Vozes, 1997. 
 LEWIN, K. Teoria de campo em ciência social. São Paulo: Pioneira, 1965. 
 LEWIN, K. Problemas de dinâmica de grupo. São Paulo: Cultrix, 1978. LÖWY, M. Ideologia e ciência social: elementos para uma análise marxista. 13. ed. São Paulo: Cortez, 1999. 
 MACHADO, A. R. M. et al. Potencializando um grupo de terceira idade de uma comunidade rural. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, v. 49, n. 1, p. 96-103, fev. 2015. 
 MACIEL, M. I. E. A pesquisa-ação e Habermas: o novo paradigma. Belo Horizonte: UNA, 1999. 
 MAILHIOT, G. B. Dinâmica e gênese dos grupos. 6. ed. São Paulo: Duas Cidades, 1985. 
 MELO, A. S. E.; MAIA FILHO, O. N.; CHAVES, H. V. Conceitos básicos em intervenção grupal. Encontro: Revista de Psicologia, [S.l.], v. 17, n. 26, p. 47-63, jul. 2014. QUIVY, R.; CAMPENHOUDT, L. Manual de investigação em ciências sociais. Lisboa: Gradiva, 1992. 
REY, F. L. G. Pesquisa qualitativa em psicologia: caminhos e desafios. São Paulo: Thompson Learning, 2002. 
 SCHEIN, E. H. Psicologia organizacional. 3. ed. Rio de Janeiro: Prentice Hall do Brasil, 1982. 
 SCHWANDT, T. A. Três posturas epistemológicas para a investigação qualitativa. In: DENZIM, N. K.; LINCOLN, Y. S. (Col.). O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006. p. 193-217. SOMMER, R. Action research: from mental hospital reform in Saskatchewan to community building in California. Canadian Psychology/Psychologie canadienne. v. 40, n. 1, p. 47-55, Feb. 1999.
 STRINGER, E. T. Socially responsive educational research: linking theory and practice. In: FLINDERS, D.; MILLS, G. E. (Ed.). Theory and concepts in qualitative research: perspectives from the field. New York: Teachers College Press, 1993. p. 141- 162. 
 THIOLLENT, M. Pesquisa-ação nas organizações. São Paulo: Atlas, 1998. 
 THIOLLENT, M. Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo: Cortez, 2000. 
 TRIPP, D. Pesquisa-ação: uma introdução metodológica. Educação e pesquisa, São Paulo. v. 31, n.3, p. 443-466, set./ dez. 2005. 
 TRIVIÑOS, A. N. S. Introdução à pesquisa em ciências sociais: a pesquisa qualitativa em educação. São Paulo: Atlas, 1992. 
WILLIAMSON, G. R.; PROSSER, S. Action research: politics, ethics and participation. Journal of advanced nursing, [S.l.], v. 40, n. 5, p. 587-593, nov. 2002. 

 Recebido em: 19 de julho de 2013 Aceito em: 16 de julho de 2015

Experiência em grupo: notas sobre o estilo de Bion, transmissão e método de leitura

Jornal de Psicanálise versão impressa ISSN 0103-5835 J. psicanal. vol.46 no.85 São Paulo jun. 2013 http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-58352013000200015

PSICANÁLISES POSSÍVEIS 

 Experiência em grupo: notas sobre o estilo de Bion, transmissão e método de leitura 

 Experience in group: notes on Bion's style, transmission of psychoanalysis and reading method 

 Experiencia en grupo: apuntes sobre el estilo de Bion, la transmisión y el método de la lectura 

 Adriana Salvitti Pós-doutoranda no Instituto de Psicologia da USP; membro filiado do Instituto de Psicanálise "Durval Marcondes" da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, SBPSP. 

Apoio FAPESP

 RESUMO 
 A autora apresenta algumas características do estilo de Bion, articulando a sua estratégia retórica à transmissão da psicanálise. Utiliza o livro Experiências com grupos (1961/1975) para expor como a narrativa das suas observações clínicas também pretende ser um modo de reproduzir uma atmosfera emocional. Através de uma linguagem performativa, Bion envolve o leitor na criação de um grupo ampliado, e assim encontra uma forma de comunicar e de disseminar as suas ideias, estimulando um pensamento clínico. Esse livro também é utilizado pela autora para delinear um método de leitura e de interpretação de textos. Palavras-chave: estilo, transmissão, linguagem performativa, grupo 

 ABSTRACT The author presents some characteristics of Bion's style, articulating his rhetorical strategy with the transmission of psychoanalysis. The book Experiences in Groups (Bion, 1961/2004) is used to show how the narrative of Bion's clinical observations is also intended as a way of reproducing an emotional atmosphere. Through a performative language, Bion involves the reader in the creation of an enlarged group, and so finds a way to communicate and to disseminate his ideas promoting a clinical thinking. This book is also used by the author to outline a method of reading and interpreting texts. Keywords: style, transmission of psychoanalysis, performative language, group

 RESUMEN La autora presenta algunas características del estilo de Bion, articulando su estrategia retórica a la transmisión del psicoanálisis. Utiliza el libro Experiencias con grupos (1961/1975) para exponer cómo la narrativa de las observaciones clínicas de Bion también intenta ser una manera de reproducir una atmósfera emocional. A través de un lenguaje performativo, Bion involucra al lector en la creación de un grupo ampliado, y así encuentra una manera de comunicar y difundir sus ideas, estimulando el pensamiento clínico. Este libro también es utilizado por la autora para delinear un método de lectura e interpretación de textos. 

 Palabras clave: estilo, transmisión, lenguaje performativo, grupo

 Na década de 1940, Bion explorou de modo bastante original as tensões emocionais presentes em grupos terapêuticos. As suas descobertas foram publicadas naquele período e, posteriormente, reunidas no livro Experiências com grupos (1961/1975). No prefácio à edição brasileira do livro, essas experiências e as suas elaborações teóricas, tomadas no conjunto da obra de Bion, são identificadas como "o ponto de partida de uma fonte de conhecimentos que forneceu ao Autor vários elementos para o exercício de uma atividade criadora, que o situa como o psicanalista mais discutido da atualidade" (Bion, 1961/1975). Ainda segundo o editor seria possível encontrar, "em estado nascente, conceitos que hoje já nos são familiares" (Bion, 1961/1975). 

 Tomando a obra de Bion em um sentido diacrônico, são frequentes os comentadores deste autor que consideram haver muito mais continuidade entre os trabalhos de Bion com grupos e com seus pacientes individuais do que poderia fazer crer uma visão purista dos mesmos. 

Um trabalho parece ter contribuído para o outro, e o próprio livro de Bion sobre grupos representa uma tentativa de o autor estabelecer aproximações teóricas entre essas descobertas e a psicanálise individual. 

 A abordagem de Bion aos grupos foi marcada pelo início de sua formação como psicanalista, especialmente com o atendimento de pacientes psicóticos, mesmo que os achados de cada uma dessas áreas requeressem um desenvolvimento conceitual próprio. Os fenômenos não são rigorosamente os mesmos; porém, há um interesse comum e recorrente na obra do autor pelas dimensões mais arcaicas da experiência humana no contato com o outro. A esse interesse comum se soma a necessidade de Bion discutir o método envolvido na observação dessas dimensões, estabelecer as condições de possibilidade da observação e seus entraves. Essa discussão ganhou uma grande complexidade em sua obra, principalmente por ser apresentada de modo entrelaçado à temática da transmissão da psicanálise em trabalhos científicos. 

Essa última temática está referida à transmissão daquilo que se observou das experiências, à forma de transmiti-las dentro e fora da sessão, bem como à transmissão do método de observação. 

Bion encontrará diferentes maneiras de problematizar e de lidar com essas questões em sua obra. Por ora, cabe dizer que no momento inaugural do pensamento do autor com grupos, havia uma expectativa de que o seu procedimento inovador fosse explicitado. Provocado pela crença presente em seus grupos terapêuticos e entre os seus pares de que ele tinha uma técnica própria, passível de ser objetificada, aplicada e reproduzida, Bion responde a isso tentando aproximar o leitor de uma experiência. Dá notícias da atmosfera emocional presente nos grupos, e das imagens, analogias e lembranças que lhe ocorriam ao observar certos fenômenos. No diálogo com o leitor, Bion utiliza um estilo retórico semelhante ao usado por Freud em alguns trabalhos. Escreve tendo em mente alguém crítico e desconfiado de sua conduta, de suas descobertas e colocações, tal qual reagiam os membros de seus grupos.

 Mais do que tentar convencer o leitor de suas posições ou eliminar desconfianças, a estratégia de Bion parece ser a de promover um debate balizado por referências teóricas diversas (como Freud e Aristóteles), combinadas ao material das sessões. A ideia é que a partir dessa discussão o leitor poderia "chegar às suas próprias conclusões" (Bion, 1961/2004, p. 40). 

Essa estratégia não significa que Bion escreve o livro como uma resposta direta às expectativas e desconfianças do leitor, mas certamente pretende incitar a participação ativa do mesmo, tanto intelectual quanto emocional. 

Bion diz: "pode ser útil se eu tentar oferecer ao leitor alguma explicação de comportamento que pode, a essa altura, intrigá-lo tanto quanto intriga o grupo" (Bion, 1961/2004, p. 31). E ainda: "Muitas questões devem ter ocorrido ao leitor. Ele deve pensar que a minha atitude em relação ao grupo é artificialmente ingênua, e certamente egoísta" (Bion, 1961/2004, p. 31). E, com seu tom caracteristicamente irônico, deduz: "Se minha descrição do que é estar em um grupo do qual sou membro for de todo adequada, o leitor terá experimentado alguma apreensão, acolhido algumas objeções e reservado muitas questões para discussão futura" (Bion, 1961/2004, p. 39). 

 Como sugere o título, Experiências com grupos tem a experiência como mote e a ela é conferida uma grande amplitude de significado. Trata-se da experiência vivida nos grupos por seus membros, incluindo Bion, e da experiência emocional provocada no leitor, seja pelo desassossego com a narrativa, seja pelas evocações acerca do que significa estar em grupo. Assim, o comportamento a ser explicado por intrigar tanto o leitor quanto o grupo não é somente o do analista. É também o comportamento do grupo e do próprio leitor. 

Diferentemente da tradução para o português, onde se lê: "pode ser útil tentar oferecer ao leitor alguma explicação de meu comportamento" (Bion, 1961/1975, p. 23, grifo meu), no trecho original, em inglês, não há indicação do pronome possessivo: "it may be useful if I try to offer the reader some explanation of behaviour which may, by this time, puzzle him as much as it does the group" (Bion, 1961/2004, p. 31). Esse caráter vago e escorregadio a respeito do sujeito do discurso pode ser notado em diferentes trabalhos e constitui uma das marcas de seu estilo. 

Uma hora Bion pode estar fazendo menção ao paciente e, no mesmo momento, parecer que a referência é sobre o analista ou sobre o próprio leitor. Isso gera certo atordoamento, mas também faz ver que Bion está tentando comunicar algo que é comum a todos eles (ou a todos nós), seja em sua teoria sobre grupos ou, mais tarde, em sua teoria do pensar.

 Assim, o que está em pauta nem sempre é o paciente e sua psicopatologia, mas a descrição de estados emocionais e de fenômenos bastante primitivos, relacionados ao florescimento e à deterioração da mente. 

A limitação do homem para usar a sua capacidade de pensar levará Bion a estabelecer um intrigante paralelismo entre o cientista e o psicótico: ambos lidam de modo eficiente com o inanimado e carecem de um aparato para pensar a vida. Daí o contínuo compromisso de Bion em discutir e promover o método psicanalítico, e em explicitar o processo de pensar as experiências emocionais1. 

 O título em inglês de seu livro sobre grupos é Experiences in Groups (em grupos) e não with groups (com grupos). Isso indica um posicionamento que ocorre desde dentro de uma experiência, em que se descobre e se aprende a partir dela, tal como revela o título de outro livro seu, Learning from Experience (Bion, 1962/1991). Este último também foi erroneamente traduzido por O aprender com a experiência (Bion, 1962/1966), pois seria mais correto dizer Aprendendo da experiência, ou a partir da experiência.

 Desse modo seria contemplada uma participação que ocorre desde dentro, e que está em processo (indicada pelo uso do gerúndio). Ademais, o verbo learn não quer dizer apenas aprender, mas também descobrir. Esse significado retira a conotação pedagógica que ele acaba tendo em português. 

 A temática da experiência será articulada a um estilo característico de Bion, em que o objetivo não é só explicar os seus conceitos e usar a linguagem como representação de ideias. O objetivo é utilizar o seu potencial performativo a fim de implicar o leitor e mostrar o que Bion quer comunicar, fazendo o significado acontecer no processo de leitura. Esse estilo ganha contornos cada vez mais pronunciados nos textos em que há um interesse do autor em especificar a natureza do objeto de investigação psicanalítico, e sua possibilidade de transmissão. Convocar a participação do leitor e implicá-lo de modo ativo na leitura por meio da narrativa de suas experiências acaba se tornando uma estratégia de transmissão. 

Bion cria com o leitor um grupo ampliado, no qual intenciona comunicar as suas ideias e disseminar um pensamento clínico. A narrativa de experiências não visa a ser uma prova das descobertas de Bion, nem mesmo uma demonstração, pois, a rigor, ele reconhece a impossibilidade de fazer o leitor ver o que ele viu. A maneira que Bion encontra para transmitir a pertinência de suas observações é trazendo o leitor para dentro de uma experiência. 

 Em seu livro sobre grupos, ao apontar a maneira como os membros cooperam anonimamente entre si para satisfazer a necessidade de obter segurança, proteção e de se reproduzir, Bion diz: Não multiplicarei exemplos de trabalho em equipe como característica da mentalidade grupal, principalmente porque não posso, no momento, encontrar nenhum método de descrevê-la. Deverei me apoiar em exemplos fortuitos, à medida que eles ocorrerem ... a fim de dar ao leitor uma ideia melhor do que quero dizer; porém, suspeito de que nenhuma ideia real pode ser obtida fora de um grupo ele mesmo. (Bion, 1961/2004, p. 52, grifo meu)

 Considerando o interesse de Bion pela transmissão da psicanálise em suas diferentes vertentes, combinado ao uso de uma estratégia retórica que procura envolver o leitor, retomamos de outra perspectiva a citação do editor brasileiro de Experiências com grupos apresentada no começo. Se a obra de Bion pode ser vista em um sentido diacrônico, sendo o seu trabalho inicial fonte de concepções futuras, como diz o editor, pensamos os textos de Bion também no sentido sincrônico. 

O próprio texto, seja ele de que período for, pode ser origem de irradiação para outros textos, sejam eles posteriores ou mesmo anteriores. Um texto se torna, ainda, fonte disparadora de associações entre diferentes sujeitos do discurso, tal como ocorre quando Bion se utiliza de ambiguidades e imprecisões, provocando uma polifonia intencional. Trata-se de uma perspectiva intertextual de leitura e interpretação, em que um texto gera remissões a outros, num movimento ampliado de ligação e de trânsito entre ideias. Não se trata de estabelecer ligações aleatórias, nem de opor a essa leitura uma compreensão cronológica. Trata-se de dar ouvidos e, no limite, conferir pensabilidade às ressonâncias e evocações estimuladas e esperadas por Bion de seu leitor. 

 Assim, é possível tirar proveito das características do estilo de Bion e compreender desde dentro de uma experiência as suas concepções sobre o método e as suas teorias de observação. Isso ocorre pois o seu objetivo não é apenas esclarecer ideias e explicar conceitos, mas é também estabelecer ambiguidades, provocar remissões, despertar experiências e gerar significados. 

 Referências 
 Bion, W. R. (1966). Os elementos da psicanálise: inclui O aprender com a experiência. Rio de Janeiro: Zahar. (Trabalho original publicado em 1962) [ Links ] 
Bion, W. R. (1975). Experiências com grupos. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1961) [ Links ] 
Bion, W. R. (1991). Learning from Experience. Londres: Karnac. (Trabalho original publicado em 1962) [ Links ] 
Bion, W. R. (2004). Experiences in Groups and Other Papers. Nova York: Routledge. (Trabalho original publicado em 1961) [ Links ] 

 Recebido em: 3/11/2013 Aceito em: 19/11/2013 

 Adriana Salvitti. Rua Professor Pedro da Cunha, 65, 05010-020. São Paulo, SP. Tel: 11 99874-2898, adrianasalvitti@gmail.com 

1 Em Aprendendo da experiência, Bion diz: "Confrontado com as complexidades da mente humana o analista deve ser prudente em seguir até mesmo um método científico aceito; a debilidade deste último pode estar mais próxima à debilidade do pensar psicótico do que um exame superficial chegaria a admitir" (Bion, 1962/1991, p. 14). Av. Dr. Cardoso de Melo. 1450 - 9° andar - Vila Olímpia 04548-005 São Paulo - SP - Brasil Tel.: +55 11 2125-3700 jornal@sbpsp.org.br

22/03/2021

Descongelando a mudança em três etapas: Repensando o legado de Kurt Lewin para o gerenciamento da mudança

No link abaixo é possivel ler artigo (em inglês) cujo título é: Descongelando a mudança em três etapas: repensando o legado de Kurt Lewin para o gerenciamento da mudança. Podemos avaliar sua importância vendo esta parte da conclusão: 
 Em um momento em que a pesquisa sugere que as tendências de citar um volume maior de referências com um intervalo de datas mais raso (ou seja, mais próximo aos dias atuais), incentivadas pela facilidade dos motores de busca digital, podem estar trabalhando contra a inovação substantiva (Evans, 2008 ), defendemos o oposto: olhar para trás, olhar mais fundo e ler artigos como Lewin 1947 em vez de apenas citá-los. Nossa contra-história, juntamente com outras que procuram olhar e pensar de forma diferente sobre a história e o futuro de diferentes elementos dos estudos de gestão (Cooke e Alcadipani, 2013; Cummings e Bridgman, 2011; Hassard, 2012; Wilson, 2013), promove este tipo de libertação do presente: aquela que nos inspira a ser mais 'retroativos' para recriar o que vemos como historicamente importante e pensamos de forma diferente para o futuro da gestão e das relações humanas.

 https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/0018726715577707 

 Marque o link e com o botão do mouse em cima dele clique com o botão direto. Isso o levará diretamente na página onde está o texto.

19/03/2021

Pedagos, Andradogia e Terapia

 

SEMINÁRIO - PEDAGOGIA, ANDRAGOGIA E TERAPIA

GRUPO ORGANIZADOR:  Baltazar Izaguirres, Eliane Paim, Luis Paulo, Marta Silva Neves 

"A educação é uma resposta da finitude da infinitude. A educação é possível para o homem, porque este é inacabado e sabe-se inacabado. Isto leva-o a sua perfeição. A educação, portanto, implica uma busca realizada por um sujeito que é o homem. O homem deve ser o sujeito de sua própria educação. Não pode ser o objeto dela. Por isso ninguém educa ninguém." p. 27 

"O ímpeto de criar nasce da inclusão do homem. A educação é mais autêntica quanto mais desenvolve este ímpeto ontológico de criar. A educação deve ser deseinibidora e não restritiva.  É necessário dar oportunidade para que os educandos sejam eles mesmos."  p. 32 

"Na medida em que os homens, dentro de sua sociedade, vão respondendo aos desafios do mundo, vão temporalizando os espaços geográficos e vão fazendo história de sua própria atividade criadora." 

"O destino do Homem deve ser criar e transformar o mundo, sendo o sujeito de sua ação." 

Paulo Freire – Educação para a Mudança. 

Educação para a Liberdade – participação livre e crítica dos educandos, que contempla: 

          Humanização do homem,
          Homem como sujeito e não como objeto,
          Análise crítica da realidade,
          Conscientização,
          Relações entre sujeitos – não dominação,
          Criar e recriar. 

Mas, nos apercebemos, que a "Pedagogia" encontra-se reproduzindo modelos burocráticos muitas vezes desenvolvendo uma consciência bancária, e não, crítica e transformadora.  O educando recebe passivamente os conhecimentos, tornando-se o depósito do educador. " Mas o curioso é que o arquivado é o próprio homem, é a sua história, e o seu poder de criar, de levantar hipóteses e transformar. Torna-se menos homem, para ser mais uma peça, mais um integrante a fazer parte de um sistema, que se mantém em seus moldes e padrões. 

O quanto a educação, ou nós enquanto educador, através de nossas relações, contribuímos efetivamente para a libertação das pessoas, para a apropriação do seu saber espontâneo? 

Será que é possibilitado ao homem estar criando a sua história, a sua cultura?  Ou está obedecendo as prescrições ditadas por algo já sabido? 

                                                            A educação é um caminho
                                                            possibilitado ao homem de
                                                            experimentar-se, sentir, aprender
                                                            e traçar novas possibilidade de
                                                            caminhar, ou traçar um caminho
                                                            diferente. Apropriando-se desse
                                                            conhecimento vivido,
                                                            compreendido e transformado no
                                                            dia-a-dia pelas relações e pelo
                                                            diálogo.

Diálogo: análise de ação e o pensamento, despertando a consciência e a crítica e o entendimento sobre o seu papel enquanto indivíduo em constante formação, enquanto cidadão. 

Dentro dessa visão macro-educacional, a ação pedagógica extrapola o limite educacional, apliando-se para a sociedade como um todo. 

Uma pedagogia para significado não é meramente um curso ou uma série de eventos de treinamento, está direcionada ao aprendizado continuo, no ambiente natural. São esses princípios que norteiam a educação de adultos em locais de trabalho atualmente. 

O foco se volta mais para o processo de pensamento e menos para o conteúdo do currículo. Propiciar um ambiente de indignação, de levantar hipóteses onde o adulto seja o sujeito do seu conhecimento. As pessoas conversam uma com as outras e jogam com as idéias, experimentam e refletem sobre os resultados. Esse ato de questionar informações e refletir conscientemente, resulta em aumento na capacidade de raciocínio de apropriar-se ainda mais do seu próprio potencial de pensar e de fazer parte. Ao contrário de uma educação bancária, onde assiste, recebe, e delega o seu pensar. 

O grau de resposta das pessoas, depende em grande parte da qualidade das interações sociais e das atitudes das demais pessoas que compartilham desses aprendizados e do indivíduo que atua como educador. Se relacionamos aos locais de trabalho aos próprios colegas, instrutores e gerentes, pois as pessoas precisam sentir-se dispostas a compartilhar o seu conhecimento. 

Esse aprendizado coletivo, onde é possibilitado ao adulto explorar a sabedoria que carrega consigo e compartilhá-la com tantas outras na busca de soluções de problemas ou estabelecer associações para novos aprendizados conceituais necessito de um indivíduo que o incentive a perguntar e a criar, estabelecendo um jogo intelectual. 

E nas organizações o processo de aprendizagem passa a ocorrer entre as pessoas através de sistemas formais para capacitação e desenvolvimento, mas também através da prática diária de líderes e gerentes, facilitam, alimentam e alavancam conhecimento que as pessoas já tem e as incentiva a se tornarem pensadores independentes capazes de julgar a qualidade de suas próprias idéias, sem delegar essa autoridade para outro. 

Em seu livro Pedagogia do Oprimido , Paulo Freire coloca: 

"Não há, por outro lado, diálogo, se não há humildade.  A pronúncia do mundo, com que os homens se recriam permanentemente, não pode ser um ato arrogante. O diálogo como encontro dos homens para a tarefa comum de saber agir, se rompe, se seus pólos sempre em outro , nunca em min?  Como posso dialogar, se me admito como um homem diferente virtuoso por herança, diante dos outros, meros " isto ", em que não reconheço "outros eu"?  Como posso dialogar, se me sinto participante de um gueto de homens puros, donos da verdade e do saber para quem todos os que estão fora são " essa gente ", ou são " nativos inferiores"?  Como posso dialogar, se me fecho à contribuição dos outros, que jamais reconheço, e até me sinto ofendido com ela? ... Os homens que não tem humildade ou a perdem, não podem aproximar-se do povo. Não podem ser companheiros de " pronúncia " do mundo." 

O indivíduo que atua no papel de " educador " com um grupo, não tem uma visão paternalista voltada para relacionamento professo/aluno; ao contrário, ele se coloca como parceiro em pé de igualdade no processo de aprendizado. 

Cada vez mia as organizações, que não desejarem impedir seu dinamismo, necessitam Ter em sus líderes, gerentes pessoas que facilitem o pensamento das suas equipes de trabalho, trazendo contribuições para desenvolvimento e crescimento da empresa e das pessoas conseqüentemente. 

A Pedagogia voltada ao significado é aquela que se concentra em fazer com que as pessoas aprendam a aprender. A força de trabalho que tenha aprendido a aprender é uma das mais importantes alavancas competitivas com que a organização pode contar num ambiente de mudança tecnológica contínua. 

A Dinâmica de Grupo, enquanto ciência comprometida com a liberação, com a expressão dos sentimentos, contribui para a mudança do ambiente de mais tenso e de estresse, para ambiente onde predomine solidariedade e compreensão das necessidades humanas. 

Conjugando ao processo educacional ou de re-educação, a ampliação do uso de feedback nas relações e estimular um processo que permita uma substancial modificação das aborrecidas e desgastadas competições internas por processos de ajuda mútua, que efetivamente podem integrar as pessoas e grupos organizacionais, canalisando a energia emocional e permitindo ambientes mais favoráveis ao desenvolvimento dos indivíduos, tanto emocional, quanto cognitivo.
 

PEDAGOGIA, TERAPIA E ANDRAGOGIA – SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS


 

O QUE É?
 
 
 
 
 
 
 
 

PERSONAGENS
 
 
 

OBJETIVOS
 
 
 
 
 

METODOLOGIA
 
 
 
 
 
 

PLANEJAMENTO
 
 
 

CONTEÚDO
 
 
 
 

AVALIAÇÃO
 
 
 
 
 

APLICAÇÃO DO CONHECIMENTO

PEDAGOGIA * 

É a arte e a ciência de ensinar e conduzir as pessoas 
 
 
 
 
 
 
 

Professor – formal ou informal
Aluno dependente 
 
 

Definidos e formulados pelo professor 
 
 
 
 

Aulas centradas no professor - expositivas com exercícios de fixação – leituras e cópias. Temas – assuntos – ligados a matérias ou disciplinas de currículos 
 

Pelo professor 
 
 
 

A partir do menor grau de complexidade
Organizado em unidades 
 
 

Feita pelo professor Valorização dos aspectos do conhecimento com ênfase na memorização - serve somente como revisão de conteúdo 
 

Longo prazo não identificado

TERAPIA

É a aplicação, por um terapeuta treinado, de técnicas psicológicas específicas, de acordo com um plano preestabelecido.  A meta é ajudar o paciente, diminuindo suas limitações, incapacidade ou invalidez, propiciando um melhor funcionamento e um maior bem estar. 

Terapeuta – formal ou informal Paciente
 

São construídos de acordo com a situação/ necessidades do paciente.  Permitir o alívio de suas ansiedades neuróticas como primeira etapa na resolução de sua problemática 

Diagnóstico análise e reflexão, interpretação 
 
 
 
 
 

É construído passo a passo 
 
 
 
 
 
 

A partir das sinalizações do paciente e do resultado do diagnóstico 
 
 

Feedback constante 
 
 
 
 

No decorrer da terapia

ANDRAGOGIA

É a arte e a ciência de ajudar as pessoas a aprender 
 
 
 
 
 
 
 

Orientador / facilitador Aluno -Independente 
 
 

São negociados Participação livre e crítica dos alunos 
 
 
 

Técnicas de experiência vivências, simulações Ênfase na participação de todos com exemplos práticos  Ênfase na resolução de problemas enfrentados no presente. 
 
 

Compartilhado, valorizando a competência interpessoal e crescimento dos indivíduos 
 

Seqüência em ternos de prontidão, para responder as necessidades e interesses dos participantes 
 

Valorização dos aspectos comportamentais e afetivos/atitudes – com ênfase em auto-avaliação 
 
 

Aplicação imediata, face aos interesses dos aprendizes 

* Tendo como referência as práticas educativas tradicionais.


Bibliografia

Freire, Paulo.  Educação para mudança. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.
Starkey, Ken.  Como as organizações aprendem. São Paolo, Futura, 1997.
Percado/98 – Anais do simpósio Internacional "Personal, Capacitación y Desarrollo", Chile
Siqueira, Doralício.  Emoções saindo da sombra.
Correa, Everton.  Viabilizando a mudança cultural da empresa.
Rojas, Sergio.  Superando barreiras da criatividade na empresa.

Práticas Grupais - Analise Comparativa- Osvaldo Saidon et al.

 

PRÁTICAS GRUPAIS - ANÁLISE COMPARATIVA

Osvaldo Saidon et al.

(Práticas Grupais, Editora Campus, Rio de Janeiro, 1983)


Procuraremos assinalar as diferenças e semelhanças que surgem entre as escolas psicoterápicas, através da análise das entrevistas. Para tanto, utilizaremos o mesmo guia de indicadores que nos orientou para a análise das entrevistas por escola. 

a) Em relação ao aspecto ideológico que se veicula através das teorias subscritas por qual mecanismo ele se realiza e reproduz. 

A comparação entre as Escolas Psicodramática e Transacional nos oferece uma série de considerações interessantes sobre esse tópico. Por um lado, o fato da Escola Psicodramática ter se desenvolvido a partir de uma crítica ao intelectualismo, com ênfase na espontaneidade, a levou a uma certa vulgarização e concretude conceitual, que surpreende às vezes pela pobreza e esvaziamento reflexivo sobre os próprios conteúdos teóricos que possuem ou poderiam possuir seus praticantes. Por outro lado, a Análise Transacional não se preocupa pelo aspecto racionalizante que o ato terapêutico poderia favorecer. Já vimos como essa psicoterapia transcorre com o uso das noções próprias da teoria. Isto contribui para que a utilização dos jogos, ao contrário do que ocorre no Psicodrama - onde são produto da espontaneidade -, se dê através de regras e normas claramente delimitadas. Há uma programação estrita dos passos a serem seguidos, e mesmo de certas respostas, havendo condicionamentos característicos de um Empirismo Positivista, levado ao seu máximo extremismo. Esta concepção os leva a dizer que "os estados do eu são realidades objetáveis (sic)", procurando com isso afirmar uma "cientificidade" contrária às outras técnicas, que acusam de subjetivistas e sem condições de demonstração empírica. Por outro lado, como vimos, os modelos hierárquicos, tomados da ideologia da livre empresa, são aceitos sem a mínima crítica, o que reflete uma concepção da patologia como a inadaptação a uma situação dada. 

Em geral podemos observar, através das entrevistas, que os representantes de todas as escolas, sem exceção, evitam demonstrar qualquer inquietude de ordem epistemológica sobre os problemas da produção teórica ou sobre as formas que adquire sua realização técnica. Em relação aos problemas metodológicas da teoria que subscrevem, as respostas são evitativas e o discurso sobre esse aspecto é restrito e restritivo. 

No caso, por exemplo, da terapia gestáltica, que supostamente basearia sua prática em uma das escolas mais desenvolvidas da Psicologia contemporânea, as entrevistas revelam um pobre conhecimento da teoria subscrita e uma peculiar interpretação desta, resultando em uma confusa prática terapêutico-pedagógica.  Na Gestalt, a palavra de ordem, muito mais do que cientificidade, é "criatividade". Esta autoriza a utilização de uma série de técnicas no trabalho grupal, onde a intuição do terapeuta é o valor supremo. 

b) Em relação à identificação e descrição da demanda da saúde mental. 

Os terapeutas do Psicodrama propõem a criação de clínicas sociais nos subúrbios, com atendimento economicamente acessível. Justificam essa proposta por descrer do papel social das instituições públicas, devido aos entraves burocráticos e administrativos que as mesmas apresentam. 

Por sua parte, aqueles que trabalham com Análise Transacional também vêem perspectivas de realização prática através do atendimento privado, porém com um esquema empresarial. Por exemplo, como vimos, mencionam a tentativa de criação com fundos de diferentes empresas para possibilitar o sofisticado e custoso uso de recursos que exigiria o tratamento da esquizofrenia.  Os representantes desta escola não
mostram nenhuma preocupação pelos elementos ideológicos que envolvem a análise da problemática em saúde mental. Consideram essas questões do ponto de vista da falibilidade administrativa e assinalam também a falta de recursos técnicos e a formação inadequada dos profissionais. 

Os gestaltistas já mostram uma posição francamente pessimista em relação à questão. A sociedade é situada externamente e, para eles, o contexto social parece estático e imutável. Uma das frases registradas enfatiza bem essa posição: "afinal não vou trabalhar em favela, não ganho para isso". Parece que a maioria das Correntes de Potencial Humano, pelo menos como se desenvolvem em nosso meio, compartilham a
idéia segundo a qual, através da liberação das emoções, certo nível de saúde poderia ser adquirido, passando ao largo das diferenças sociais. 

c) Em relação à prática da terapia individual e grupal e o "locus" de cada uma. 

Todos os entrevistados coincidem em opinar sobre a importância de desenvolver trabalhos com grupos nas instituições, mas colocam diversos inconvenientes para sua efetivação. Os rogerianos, por exemplo,  mencionam tentativas de experiências institucionais com grupos, mas estas são consideradas insatisfatórias porque as características institucionais não permitem o rendimento desejado.  Desenvolvem sua crítica baseados em sua ideologia antiautoritarista, mas sem explorar as determinações finais desse autoritarismo, inclusive no campo específico da saúde mental. 

Os terapeutas do Psicodrama defendem a psicoterapia grupal, que é o espaço, aliás, onde desenvolvem predominantemente sua prática. Apesar disso, chama atenção o pouco desenvolvimento conceitual acerca da grupalidade, que vêem reduzida a um público que se identifica de diferentes modos com a proposta 

os terapeutas transacionais vêem uma sequência entre a Terapia Individual e a Grupal. O grupo segundo sua orientação é uma entre as várias experiências a serem realizadas visando ao tratamento individual. O grupo é uma experiência onde o indivíduo o enfrenta como a um inimigo, que convida à patologia, e do qual terapeuta e integrantes devem sair vitoriosos. O grupo é, assim, algo que deve ser dominado, segundo o critério da manipulação gerencial, evitando-se a perspectiva de um espaço solidário e de cooperação. 

Quanto à Gestalt, o grupo funciona como pano de fundo do trabalho realizado com cada integrante. Não interessa a dinâmica grupal, e os participantes do grupo, quando participam, o fazem colaborando com o paciente que está sendo trabalhado. 

Os rogerianos valorizam o trabalho grupal, mas dizem encontrar-se com a dificuldade "das pessoas que não querem tratar-se em grupo". essa mesma dificuldade mencionam os terapeutas de orientação analítica.  Isto é um bom exemplo de como, neste campo, as características do mercado organizam o tipo de prática que se realiza e determinam seus avanços e retrocessos. 

d) Em relação aos critérios de seleção e de formação dos terapeutas de grupo. 

Para os terapeutas transacionais, sua função implica um "ser saudável, inteiramente saudável, dentro do grupo". ou seja, a formação e a eleição dos futuros terapeutas passam pela identificação com os critérios de saúde da instituição, quando o terapeuta fala a linguagem da Análise Transacional o que importa não é a formação, ou os antecedentes do candidato-sujeito, mas a identificação plena com os postulados
técnico-ideológicos. Se essas características tendem a ser revisadas por outras escolas, entre os terapeutas transacionais são assumidas sem nenhum conflito e levadas até a caricatura, na proposta de um homem são, como o self-mad man no estilo americano. 

Na escola gestaltista estão praticamente ausentes os critérios. O fundamental ali é a flexibilidade, a intuição e a maleabilidade de cada estudante frente à técnica, o que daria condições para desenvolvimento de sua criatividade. 

Os rogerianos definem sua clientela para formação por uma identidade negativa: não aceitam os psiquiatras no curso que oferecem, ou seja, os concorrentes fortes dos psicólogos no mercado da psicoterapia. 

No caso da instituição psicodramática, a semelhança com a estrutura formal das organizações psicanalíticas é interessante. Adotam, inclusive, as mesmas siglas nas diferentes instituições (por exemplo, Associação Psicodramática do Rio de Janeiro e Associação Brasileira, equivalente às denominações das Associações Psicanalíticas ligadas à Internacional, que existem no Rio de Janeiro).  Uma série de preocupações, que tem sua origem no complexo aparelho formativo que institui a prática psicanalítica, permeia a instituição psicodramática. Desenvolvem, como a instituição psicanalítica, um trabalho em prol da sua institucionalização psicanalítica, um trabalho em prol da sua institucionalização, a criação de regionais, federações, representação e ligação organizacional com as sociedades internacionais etc. Na Escola Psicodramática, o critério predominante na formação é a existência de uma análise prolongada e cuidadosa, que preserve os candidatos de uma aplicação selvagem das técnicas. 

No caso da Escola Psicanalítica, vemos como persiste, a partir da abertura ao campo grupal, um temor à perda das estruturas largamente instituídas. No entanto, é interessante assinalar que esta instituição, por sua antiguidade e prestígio, serviu de modelo de organização formativa a várias outras orientações e é a única a levantar questionamentos críticos sobre os distintos problemas que suscitam, por exemplo, a análise didática, a supervisão, o seminário de formação, etc. Em geral, as escolas aceitam os modelos de funcionamento com certa ritualização dos mesmos, e os utilizam sem maiores questionamentos. Em alguns casos, aproxima-se do caricatural, como na Escola Transacional. A Escola Psicanalítica, na medida em que sua própria prática se dirige a uma mobilização do campo desejante, devendo instalar (conseguindo-o ou não) um desejo de saber a verdade no processo formativo, abre periodicamente em seu próprio seio crises que questionam os princípios institucionais enquanto imobilizadores e cristalizadores de qualquer tendência renovadora. 

Através das entrevistas com os psicanalistas e consultas da bibliografia local sobre o tema, no entanto, se repete uma espécie de cavalo-de- batalha para enfrentar esses questionamentos, o que se traduz em poder colocar uma prática de Análise Grupal, mantendo simultaneamente intacta a infalibilidade da Análise Individual. É essa a afirmação compartilhada por todos: que "o grupo não é uma verdadeira análise". Assim, a questão dos grupos permite uma metabolização das críticas e realização de certos questionamentos, desde que fiquem reservadas a teoria e a técnica, inalteradas e marcadas institucionalmente, para a "verdadeira" Psicanálise Individual, com muitas sessões semanais e economicamente onerosa. 

Neste sentido, é significativo que a Associação de Psicoterapia de Grupo, dirigida por psicanalistas que pertencem à Associação Psicanalítica chamada "oficial", se permita uma atitude mais militante no campo da saúde mental e suas instituições e uma crítica aguda à instituição da Psicanálise, à qual ela mesma, de fato, está ligada. 

Para reforçar essa afirmação, comentaremos alguns aspectos do Simpósio de Psicoterapia Analítica de Grupo, desenvolvido durante o ano de 1980 e organizado por uma das organizações psicanalíticas de grupo que existem em nosso meio, do qual participamos como assistentes em função do trabalho de campo. 

Ali pudemos observar claramente que as chamadas "instituições oficiais psicanalíticas", que até há pouco tempo mantinham uma postura exclusivamente voltada para um círculo restrito de membros, mostram agora uma tendência francamente agressiva de abertura e ampliação, no que diz respeito a atividades paralelas.  Isto é curioso porque os cursos de formação psicanalítica continuam mais ou menos fechados, custosos e sem divulgação, mas as chamadas atividades paralelas (por exemplo, curso de formação de psicoterapeuta de grupo) dão a entender que a sociedade está aberta em todos os sentidos. Os psicanalistas presentes ao aludido simpósio se limitaram, em geral, a falar de suas experiências, recolocando questões técnicas, onde a reflexão teórica e política foi praticamente nula. 

Um dos aspectos abordados, ainda que em muitos casos de forma superficial e simplista, foi a questão de saber se a Psicoterapia de Grupo é psicanalítica ou não. Novamente foi possível escutar ali algumas observações do tipo: "o nível de conscientização alcançado na Terapia Grupal é insuficiente em relação à Análise Individual"; "há dificuldades que impedem uma boa análise da transferência nos grupos" etc.  Esse discurso demonstra a insistência, nos meios "oficiais", em manter com a Psicanálise Individual os únicos títulos de autenticidade. Esta política, muito menos do que pretender reexaminar as questões teóricas específicas dos grupos, traz como conteúdo uma proposta de obstaculizar o aspecto transformador que a abertura das próprias instituições de Psicanálise de Grupo promovem. 

Na linha que vimos manifestar-se no simpósio, faremos menção a um trabalho de Antonio Dutra Júnior, surgido em um dos raros livros sobre Psicanálise de Grupo escrito em nosso meio. Em um artigo denominado "Ensino e Treinamento na Psicoterapia Analítica de Grupo e na Psicanálise", o autor começa afirmando que "a liberdade que predomina no treinamento dos terapeutas de grupo" - liberdade que parece
preocupá-lo - "se deve ao fato de que os grupos se formam desde o amanhecer do homem na Terra e que continuarão a existir enquanto o homem viver". Essa anarquia, que predominaria no trabalho com grupos, é contida em seus possíveis efeitos nocivos sobre a Psicanálise, procurando o autor deixar claro, ainda que sem maiores justificativas teóricas, as limitações do grupo enquanto prática verdadeiramente psicanalítica. 

O autor parte de uma série de considerações sobre as perspectivas com as quais se deve abordar a Psicoterapia de Grupo, baseando-se nas idéias de Foulkes e Bion, transcrevendo como proposta de formação teórica os programas das escolas de Psicoterapia de Grupo da Grã-Bretanha e Argentina. Neste sentido, expõe as dificuldades de formação em relação a uma série de aspectos puramente psicológicos, quer estes se manifestem pelo tipo de personalidade do candidato, quer pelas características que tomam as relações institucionais. Esta dimensão institucional é abordada desde uma perspectiva psicologista, que menciona a presença de inveja, ciúme, competência, rivalidade e idealização, que poderiam ir sendo superadas, à medida que são interpretadas ao candidato. 

Na formação não interviria, portanto, para o autor, o institucional, enquanto implica uma série de relações reais de poder, de intercâmbios econômicos de irradiação ideológica, de enfrentamentos entre diferentes posições teórico-técnicas etc. Parece que a realidade em que se efetua o processo de formação permanece entre parênteses, realidade esta que às vezes o grupo convoca perigosamente. 

Toda a ênfase posta sobre características de personalidade (sem nunca esclarecer muito bem quais são) que deve ter o psicoterapeuta de grupo e o individual se justificam em relação à defesa da instituição psicanalítica chamada "oficial", muito mais do que a partir da defesa de postulados teóricos da prática da Psicoterapia e dos princípios psicanalíticos. 

As observações que realizamos a respeito das escolas não são, evidentemente, conclusivas em relação aos tópicos a que se referem, uma vez que as entrevistas não foram suficientemente exaustivas quanto à análise das instituições formativas. 

Procuramos contornar esta aparente deficiência escolhendo ente os entrevistados aqueles que têm um papel dirigente nas escolas de formação das diferentes tendências que estudamos. Do mesmo modo, as escolas foram as mais representativas, em termos de difusão, no Rio de Janeiro. Ainda sobre as escolas diríamos que, no caso da Psicanálise, procuramos representantes das chamadas escolas oficiais, aquelas que mais psicanalistas formaram até hoje, e que constituem ainda, por esse motivo, o discurso pedagógico mais influente. Por isso, deixamos de analisar as instituições "não-oficiais", cujos trabalhos, em maior ou menor grau, dependendo das propostas de cada uma, são bastante interessantes e apresentam um crescimento significativo. 

O valor que damos a estas observações é o que surge a partir de uma mostra que pode ser considerada como emergente das posições predominantes no campo da Psicoterapia de Grupo em nosso meio, em relação às hipóteses que levantamos em nosso trabalho. Cremos que as observações surgidas das diferentes entrevistas, além de estarem significativamente em acordo com nossas hipóteses, colocam um material válido para uma crítica produtiva, que contém subsídios para a formação e realização de uma política transformadora do movimento psicoterapêutico de grupos em nossa realidade.