19/01/2018

O Estudo de Comportamento de Grupo Durante Quatro Décadas

DURANTE QUATRO DÉCADAS
Alvin Zander
Journal of Applied Behavioral Science, NTL Institute for Applied Behavioral Science, 15(3), 1979
(Traduzido por Mauro Nogueira de Oliveira)

Sem muita preocupação, há aproximadamente 40 anos, alguns estudantes do comportamento humano desenvolveram um interesse em saber como os grupos administram suas atividades.  Este aumento de atenção entre estudiosos era evidente no número e conteúdo de publicações, na criação de uma cadeia de comunicações e em um desejo zeloso de alguns indivíduos, desta cadeia, em melhorar grupos ineficazes sem que qualquer um soubesse como poderiam ser feitos tais melhoramentos.  Os cidadãos atraídos para pesquisar grupos, alguns declararam abertamente, esperavam que os produtos desta pesquisa proveriam, finalmente, respostas para sérios problemas do governo e das relações sociais.

Durante as décadas subsequentes o crescimento rápido neste período inicial, foi substituído por um movimento mais lento e para um exame mais profundo de tópicos particulares, pois estes estudiosos se interessaram em treinar os membros dos grupos e se afastaram, a maior parte, dos campus das faculdades, ou pelo menos de investigadores, estimulando grupos em situações naturais e laboratórios de treinamento.  Neste artigo nós revisamos algumas das características principais na história da pesquisa em comportamento de grupo, fazendo um comentário sobre as atividades de treinamento que tiveram um impacto em investigações empíricas.

ANTES DE 1940
Antes de 1935 tinha havido pequeno esforço científico para entender processos de grupos.  Pesquisas tinham sido transformadas em riso nas audiências assim como as características de personalidade dos pesquisadores, mas o único trabalho perto dos estudos atuais de vida de grupo continuava sendo como os grupos e indivíduos resolviam problemas, um tópico que permanece de interesse até hoje.  A carência de investigações em atividades de grupos não é surpreendente quando recordamos que os psicólogos dos anos trinta dedicavam a maioria da sua atenção ao estudo da fisiologia, das habilidades motoras e aos processos cognitivos do indivíduo.  Psicólogos sociais ainda não tinham descoberto a sua identidade e os sociólogos, parte deles, ainda não estavam colecionando dados empíricos em grupos.

Na última metade dos anos trinta houve tentativas para explicar eventos dentro das organizações; vários desenvolvimentos notáveis em pesquisa sinalizaram este fato.  Trabalho em estrutura de grupo e atração entre membros (Moreno, 1934), a influência de normas de grupo nos membros (Sherif, 1936), o impacto de convicções compartilhadas nas atitudes políticas de estudantes de faculdade (Newcomb, 1943), e o efeito que a sociedade teve nos sentimentos de um grupo de trabalhadores de fábrica (Roethlisberger & Dickson, 1939), revelou que aspectos de comportamento coletivo, previamente de interesse para filósofos sociais, poderiam tornar-se úteis sob investigação científica.

A pesquisa mais influente foi, sem dúvida, no estudo emergente de comportamento de grupo, foi a de Lewin, Lippitt e White (1939).  As suas investigações de clima de grupo, conflitos intergrupos e estilos de liderança (autocrático, democrático e laissez-faire) fez uso, com modificações importantes, das técnicas disponíveis em psicologia experimental, observações controladas de comportamento e métodos de trabalho de grupo social.  O propósito deles era expor alguns dos modos nos quais o comportamento de líderes pode diferir e descobrir como métodos de influência de liderança afetavam as propriedades dos grupos e o comportamento dos membros.  Devemos notar que não era pretendido que estas investigações fizessem uma contribuição à tecnologia de administração de grupo per se.  Eles buscaram prover perspicácia na dinâmica subjacente de grupos.  Os métodos e resultados dos estudos sugeriram que pudesse ser possível construir um corpo coerente de conhecimento sobre a natureza da vida de grupo e eventualmente uma teoria geral de grupos.  Estes estudos tiveram uma originalidade e significância que produziram um impacto no mercado das ciências sociais e profissões.  Quase imediatamente, parceiros de Lewin, e outros, começaram projetos de pesquisa, a maioria deles em laboratórios experimentais, projetados para produzir informações pertinentes para uma teoria de dinâmica de grupo.  Os resultados deste trabalho formaram o núcleo de uma "massa crítica" que eventualmente fez esta especialidade distinta e aceita.

Foram assumidas as suposições de Lewin sobre as causas do comportamento humano particularmente ao estudo da vida de grupos, como ele assegurou que a maioria das variáveis que determinam comportamento em um determinado momento e lugar é existente naquela colocação.  Eventos passados e alguns no futuro seriam interpretados em termos de suas representações psicológicas atuais.  A ênfase de Lewin era nas forças e constrangimentos que surgem em situações conduzidas a uma concentração em pesquisa e treinamento no aqui-e-agora da vida do grupo.  Porque tais noções eram especialmente apropriadas, o desenvolvimento de teoria, predição e experimentação, ajudaram a gerar um estilo especial de investigação.

DURANTE 1940
Quando estas investigações estavam caminhando, os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial e a pesquisa em pequenos grupos foi realizada durante 5 anos.  Em 1946, Lewin e um grupo de estudantes, fundou o Centro de Pesquisa para Dinâmica de Grupo no Instituto de Tecnologia de Massachusetts e em 1948 o Centro se mudou para A Universidade de Michigan depois da morte intempestiva de Lewin.

Pela pesquisa feita neste centro, e em meia dúzia de outros centros com propósitos semelhantes em vários países e em vários campus e laboratórios do governo, o conhecimento sobre a psicologia social de grupos entrou em um período de crescimento ativo.  Alguns dos tópicos estudados frequentemente nos anos quarenta eram: a pressão social sobre os membros de um grupo (Festinger, 1950), a direção e quantidade de comunicações entre membros (Bavelas, 1950), contrastes no comportamento dos membros em grupos cooperativos e grupos competitivos (Deutsch, 1949), as consequências de líderes de comunidade de treinamento (Lippitt, 1949), e os efeitos do poder social entre crianças (Lippitt, Polanski, Redl & Rosen, 1952).

Os conceitos e métodos nestas pesquisas eram radicais para a época.  Assim, os cientistas submergidos nestes esforços acharam útil se organizar informalmente para trabalhar para um fim comum.  Investigadores distantes um do outro criaram uma cadeia solta, trocando documentos e falando sobre as suas investigações em reuniões pequenas, conferências, visitas, etc.  A formação desta " faculdade " invisível de estudantes de grupos não era distinta das associações voluntárias, descritas por Griffith e Mullins (1972). Isso acontece ao longo da história da ciência sempre que um tópico notavelmente novo é levado por membros de uma determinada disciplina.  Muitos dos estudiosos de grupo acreditaram firmemente que a produção das suas pesquisas teria um impacto para melhorar os métodos democráticos, e os investigadores trabalharam conscientemente para tal fim.  Após o término da Segunda Guerra Mundial, era mais aceitável que aquelas pesquisas em comportamento humano teriam valor prático para a sociedade.

Cidadãos ordinários prestaram atenção considerável a esta pesquisa, e o estudo de processos de grupo recebeu tanto interesse na mídia como tinha recebido a recombinação do DNA, substâncias químicas tóxicas, tranquilizantes, ou os efeitos de computadores, em anos mais recentes.  A razão para a atração desta pesquisa naqueles tempos será detalhada em algum dia.  Porém, é possível adivinhar que a atração ao trabalho surgiu em parte porque todo o mundo estava preocupado o sobre o destino deste país após a Segunda Guerra Mundial e sobre o futuro da democracia como uma forma de governo.  Então, eles estavam propensos a dar boas-vindas ao trabalho de cientistas que poderiam aumentar nossa compreensão ou a dinâmica de governar e poderiam sugerir modos de melhorar os procedimentos.

Também, havia um medo difundido, durante os anos quarenta, das ditaduras que desenvolveram métodos irresistíveis para manipular as mentes ou homens.  Talvez poderíamos aprender a opor tal pressão através da pesquisa feita por estudantes de grupos.  Não menor era o interesse, até mesmo encantamento, nos métodos e resultados de experiências em pequenas sociedades no laboratório onde era mostrado que o comportamento contrastante de membros de grupo, debaixo de circunstâncias contrastantes, poderia ser previsto e explicado.  Os cidadãos haviam aprovado os cientistas da física que surgiram durante os anos quarenta porque estes tinham ajudado a ganhar a Segunda Guerra Mundial.  Talvez os cientistas sociais poderiam ser úteis em problemas de vida de grupo se eles recebessem determinado encorajamento formal e apoio.  Adequadamente, no final da década, o Escritório de Pesquisa Naval criou uma unidade para prover capitais para pesquisa em comportamento de grupo.

Um outro desenvolvimento nos anos quarenta é notável.  Em 1947 o Laboratório de Treinamento Nacional para Desenvolvimento de Grupo era organizado pela Divisão de Educação de Adultos da Associação de Educação Nacional, em cooperação com o Centro de Pesquisa para Dinâmica de Grupo.  Este era um seminário de três semanas assistido por profissionais de várias áreas que desejavam melhorar seu conhecimento de grupos e suas habilidades como membros e gerentes.  Porque havia uma provisão limitada de conhecimento disponível para os participantes deste tipo de laboratório, os professores confiaram em que os estudantes aprenderiam através das suas experiências em pequenos grupos de discussão.  Este procedimento encorajou conversa sobre os assuntos que os excitaram e estes se mostraram ser sentimentos pessoais, relações entre membros, diferenças de percepções e explicações para estas diferenças.  Tal interação centrada na pessoa, como nós veremos, foi de muito valor para o estudo de grupos. Uma conta destes desenvolvimentos é oferecida no livro Além das Palavras, de Kurt Back (1972).

Desde o princípio, os fundadores do National Training Laboratory tiveram ideias diferentes sobre os propósitos da unidade.  Alguns destes objetivos eram: ensinar dinâmica de grupo, ensinar aos consultores como facilitar mudança dentro de uma organização, ensinar aos membros da sociedade habilidades básicas, treinar os participantes nos métodos pedagógicos que são empregados no laboratório, e administrar pesquisa em comportamento de grupos.  Por causa destas visões distintas, as reuniões dos pesquisadores quando planejavam cada laboratório eram vivazes e estimulantes, para dizer o mínimo.  Não havia nenhum interesse inicial, deveríamos enfatizar, encorajando crescimento pessoal, saúde mental, ou sensibilidade para relações interpessoais.

DURANTE OS ANOS 1950
Na década de cinquenta, a pesquisa na psicologia social de grupos era altamente inovadora e a taxa de publicação mais que dobrou, de acordo com Hare (1976).  Autores de capítulos em pesquisa de grupo na Revista Anual de Psicologia publicada em 1951, 1953, 1954 e 1958 comentam que o estudo de grupos era um trabalho vivo e criativo em psicologia social e provia um enfoque para o campo inteiro.

Os tópicos para investigação já eram esses mencionados, mais: o fluxo de comunicação em grupos quando os membros têm graus diferentes de conexão entre eles, poder interpessoal para influenciar, as fontes de coalizões, e a natureza e consequências de relações equilibradas dentro de grupos.  Bales (1950) desenvolveu um método para observar e codificar comentários feitos por participantes em pequenos grupos de resolução de problemas.  O tratamento destes dados, foi chamado de análise do processo de interação, e revelou que tipo de observações (perguntas, sugestões, acordos etc.) era mais provável aparecer a cada fase dos esforços de um grupo de solução de problemas.  Este trabalho forma a base daquilo que os sociólogos chamam de estudo dos pequenos grupos (Hare, Borgata & Bales, 1955).  Porém, se concentrou nos atos e papéis individuais, e pouca atenção foi dada para o grupo como uma unidade.

As propriedades dos grupos, suas origens e consequências, contavam, neste tempo, uma meta para o estudo de dinâmica de grupo; muitos dos achados ou pesquisas focalizaram uma ou mais destas propriedades, como coesão, metas e liderança.  Um livro que resume resultados de pesquisa em dinâmica de grupo, organizado de acordo com tais títulos, foi publicado por Cartwright e Zander em 1953.
Embora a pessoa pudesse identificar um corpo coerente de conhecimentos dos resultados de pesquisa de grupo, havia ilhas de achados que não se ajustaram bem e estes resultados separados não foram incluídos em resumos do campo. Agências governamentais começaram a prover ajuda financeira para pesquisa de grupos: o Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos, o Instituto Nacional para Saúde Mental, partes do Departamento de Defesa, e (mais tarde) a Fundação de Ciência Nacional.  Além disso, não era difícil obter concessões para projetos promissores, de fundações privadas e firmas industriais.  Era um tempo vivaz, mas não bem organizado a ser envolvido no estudo de grupos.

Pelo meio desta década o Laboratório de Treinamento Nacional em Desenvolvimento de Grupo que já não tinha uma relação formal com o Centro de Pesquisa para Dinâmica de Grupo derrubou as palavras: "em Desenvolvimento de Grupo" de seu título, e se orientou para a independência da Associação de Educação Nacional. O NTL encorajou laboratórios em várias partes do país.  A mais proeminente destas filiais era a Universidade de Los Angeles, orientada por estudantes de teoria da personalidade, não psicologia social.  Estes professores nutriram uma ênfase em crescimento pessoal e relações interpessoais e usaram o grupo como um instrumento para o seu ensino, não como um assunto de instrução em si mesmo.  Eles colocaram mais ênfase em sentimentos pessoais e problemas que em cognições ou informação - assim o termo "treinamento de sensibilidade" era uma designação apropriada para o seu estilo de ensino.

Desenvolvimentos comparáveis estavam ocorrendo no laboratório original como o treinamento para enfatizar autoconsciência e melhoria pessoal em lugar de entendimento de propriedades de grupo.  Críticos surgiram, especialmente entre os psicólogos e profissionais de saúde mental.  Eles acreditavam que as atividades dos laboratórios geravam tensão nos participantes e que havia pequena evidência de que as atividades tivessem efeitos favoráveis naqueles que os experimentaram.  Os partidários do treinamento defenderam seus programas afirmando que eles estavam fazendo pesquisa e ensinando sobre comportamento de grupo, não promovendo aconselhamento para indivíduos.  Tinha ficado evidente, porém, que um laboratório de treinamento não era um lugar satisfatório para administrar pesquisa básica, como a coleta de dados frequentemente interferia com atividades pedagógicas e controles experimentais adequados, raramente poderiam ser desenvolvidos em um grupo de treinamento.

DURANTE OS ANOS 1960
Pelos anos sessenta, o estudo de comportamento de grupo tinha se tornado uma subdisciplina aceita em departamentos de Psicologia e em lugares para o estudo de Sociologia, Serviço Social, Saúde Pública, Educação e Administração.  Artigos técnicos nesta especialidade apareceram um pouco menos frequentemente do que eles fizeram na década anterior.  O número de publicações de pesquisa caiu de talvez 150 em um ano para 120, mas não conheço nenhuma conta precisa desta frequência.  Em contraste, ensaios no uso de grupos em educação, terapia e administração aumentaram em números.  Muitos dos que haviam estado fazendo pesquisas na psicologia social de grupos se moveram para outros interesses sem conexão com a vida dos grupos, e todos os centros estabelecidos para pesquisa em grupos, excluindo um no Michigan, fecharam pelo meio da década. Sherif (1977) e Steiner (1974) afirmam que aqueles muitos psicólogos sociais do estudo de grupos e outros fenômenos coletivos mudaram para o estudo de indivíduos durante os anos sessenta.

Se esta redução de interesse em grupos aconteceu de fato, por que isto aconteceu?  Várias razões podem ter contribuído.

1.  Pesquisa em grupos é mais difícil que pesquisa em indivíduos: quando o grupo (comparado aos indivíduos) é a unidade de estudo, muitos de vários assuntos são precisados, eles são mais difíceis de apropriar no número exigido no momento formal, os custos são mais altos, e o desenho, medida e análises são mais complicados e complexos.

2.  Conceitos sobre vida de grupo são frequentemente também muito desajeitados para usar, muito austeros para atrair interesse, ou muito complicados para testar com confiança.

3.  Resultados de pesquisa em grupos podem ser fracos e de difícil convencimento por que é difícil estabelecer regras quando se está medindo os comportamentos variados em um grupo.  Assim, muitos investigadores de grupo obtêm pequena satisfação dos seus esforços.

4. Um investigador pode obter mais ajuda da literatura atual quando estudando os indivíduos que quando estudando grupos.

5.  Capitais para o apoio de pesquisa social começaram a estar escassos nos anos sessenta e o estudo de grupos não se tornou atrativo para estes capitais.

Os fãs da dinâmica de grupo também encolheram em número durante os anos sessenta, assim como seus interesses movidos, junto com mudanças em assuntos sociais do tempo, para tópicos onde o estudo de grupos era nem tão longo nem tão crucial.  Alguns dos problemas da vida de grupo durante os anos sessenta e os anos setenta não estavam priorizados, além disso, isso estimulou teorias a respeito de como o grupo efetivamente administra seu negócio.  Ao contrário dos anos quarenta, era pretendido agora estudar as situações de grupo que provocam mudanças sob condições fora do grupo, ou seja: demonstrações, rompimentos e outras formas de confronto e combatividade, em lugar de pelo uso do processo democrático.  Não se pode observar esforços fáceis para criar mudança social, e assim a pesquisa em tais tópicos ocorria após ocorrido o fato.  Como resultado, não foram desenvolvidas teorias nestes assuntos.  "Guardas de grupo" podem ter notado, além disso, que os resultados de pesquisa em comportamento de grupo não tinham correspondido às expectativas principais seguradas para eles depois de Segunda Guerra Mundial - o mundo não tinha sido mudado.  Também, muitos dos melhores resultados conhecidos de pesquisa de grupo enfatizaram os efeitos ruins de grupos nos seus membros - uma visão que não despertou entusiasmo pelo estudo de comportamento de grupo.  Acompanhando esta troca de interesse entre não-cientistas, vimos uma dissolução gradual da cadeia que tinha sido formada entre estudiosos notáveis.  A redução de fervor ativista dentro desta cadeia, porém, não era só uma característica deste campo.  Griffith e Mullins (1972) observou que os mais prósperos, de associações informais entre cientistas, não duraram mais do que 10 a 15 anos, normalmente por causa de baixa vitalidade científica ou baixa distinção do trabalho dos membros e porque modismos mudaram entre partidários de pesquisa.  Estes autores acreditavam que uma cadeia tem que desenvolver uma teoria coerente para durar, e não houve desenvolvimento de coerência nas explicações de comportamento em grupos.

Os tópicos na moda para pesquisa em grupos durante estes 10 anos eram conformidade dos grupos sob pressão, relações interpessoais entre pares de pessoas com motivos diferentes (o dilema do prisioneiro), a "troca " arriscada e facilitações sociais.  Em 1967, Gerard e Miller comentaram na Revista Anual de Psicologia que a maioria do recente trabalho sobre grupos já trazia conclusões familiares.  Em parte, isto era verdade.

DURANTE OS ANOS 1970
Nos anos setenta, os principais tópicos de pesquisa eram ainda familiares.  Evidência para isto pode ser vista em uma conta de investigações de grupo durante 1975, 1976 e 1977 que eu preparei para A Revista Anual de Psicologia (1979).  Os tópicos frequentemente estudados durante os 3 anos eram: pressões sociais em grupos, as fontes (não as consequências) de coesão de grupo, e cooperação contra competição em grupos.  Menos popular, mas não menos familiar, era: liderança, estrutura de grupo e resolução de problemas em grupos.  Polarização de convicções entre os membros, e outros processos cognitivos em grupos, como interesse que recentemente atraiu investigadores para a pesquisa do tamanho do grupo e padrões de distância física entre os participantes.  Um bom grau de atividade, então, aconteceu em pesquisa, embora o número de agências e os dólares para apoiar o trabalho tenha diminuído nos anos 70 a muito menos que nos primórdios dos anos 60.  Psicólogos sociais começaram a se preocupar com a natureza e direção do seu campo e subcampos, inclusive comportamento de grupo (Ring, 1967; Steiner, 1974; Elms, 1975; Silverman, 1977).  Finalmente, o uso dos grupos para ajudar o "crescimento" pessoal de indivíduos se tornou grande negócio durante os anos setenta e provêm um serviço rápido para pessoas ansiosas que esperavam, durante os anos setenta, comprar conforto sem investir em terapia.

ALGUMAS OBSERVAÇÕES GERAIS
Durante anos, desde que a pesquisa em grupos começou, várias características simbolizaram seus métodos.  A maioria das investigações foi de experiências controladas e uma boa proporção destas usaram um instrumento, um experimento, ou procedimento inventados por outra pessoa.  Parte da razão para esta dependência em métodos estabelecidos é que muitos estudantes de graduação e seus professores, não podiam obter capital para um programa de estudos, assim eles administraram experiências isoladas que tinham uma probabilidade alta de sucesso.

Apesar da preferência para o método experimental, houve surpreendentemente algumas ricas teorias em dinâmica de grupo.  Isto diz algo sobre a dificuldade de explicar eventos coletivos.  Nenhuma dúvida de muitas teorias foi descartada porque os resultados de obstinados pesquisadores não encontrariam apoio para testar as hipóteses desenvolvidas nas teorias; e revisões nestas ideias para ajustar ao momento atual não aconteceram em testes mais recentes.  Em outras ciências e em outros braços da psicologia, os estudiosos podem rever e ajustar suas previsões às ideias surgidas em um laboratório, observando fenômenos que os interessa.  Mas os investigadores de grupo raramente têm coletivos disponíveis. Realmente, o fenômeno que eles estudam não pode se assemelhar a nada que eles podem notar em um grupo natural.  Como resultado, teorias sobre grupos são muito frequentemente longas em lógica e pequenas em habilidades de pesquisa.

Como é verdade que em muitos outros campos, conceitos mais precoces na psicologia social de vida de grupo são substituídos gradualmente através de ideias mais novas e posteriormente são declarados um pouco mais ajustados que as noções originais.  Ilustração: trabalho no impacto de decisões de grupo gerou estudos de pressões sociais em grupos; demonstrações de estilo de liderança passaram a pesquisar o poder social; pesquisa na troca arriscada se tornou trabalho em origem das ideias polarizadas em discussão; e, investigações de competição intragupos desenvolveram modos de solucionar conflitos de intergrupos.  Embora nós podemos facilmente achar exemplos como esses citados, nos quais houve movimento para maior especificação de conceitos, a pesquisa em comportamento de grupo sofre de uma ausência de utilidade e bem claras noções primárias.  Exemplos de termos vagamente usados em pesquisa são: liderança, socialização e ambiente social.  Na ausência de precisões adequadas, ideias como estas não podem ser manipuladas em uma situação consistente no laboratório ou suas medidas validadas na conferência.  Talvez estudantes de grupos se beneficiariam com um retorno aos dias em que os estudiosos se preocuparam em como construir conceitos úteis; mas esta ideia não está pronta para ressurreição, temo eu.

Quando conceitos se tornam resultados mais válidos e comumente aceitos, novas pesquisas são integradas mais facilmente em um (crescendo) corpo de sabedoria.  Como as coisas estão agora, os investigadores de vida de grupo são notavelmente inventivos em criar novos termos para fenômenos que já tem um nome perfeitamente útil e criam confusão mais semântica do que necessidade.  Por exemplo, vários sinônimos existem para denotar: o desejo de um membro para permanecer em um grupo, as funções de liderança, os fins para os quais grupos se esforçam, e as dimensões da estrutura de grupo.  Além disso, termos diferentes são frequentemente usados para a mesma definição, e um determinado estudioso pode ignorar pesquisa feita sob uma perspectiva diferente daquela que ele prefere, embora os resultados da pesquisa sejam bastante pertinentes para o seu próprio interesse.  O que pode ser pior é ilustrado em um recente livro onde o poder interpessoal para influenciar é um tema primário.  O autor provê uma definição de poder social que não está em nenhuma parte próxima das definições usadas nos estudos de poder que ela resume completamente.  Assim, ela reúne dados para apoiar uma visão que os estudos não apoiam em nada.  Claramente, a incerteza de conceitos em comportamento de grupo pode conduzir a uma falta de precisão.
Um número relativamente limitado de tópicos foi explorado fora do número disponível para investigação.  Alguns exemplos de perguntas que têm gerado pequeno estudo considera a importância delas na vida das organizações: por que é tão difícil de expelir um membro de um grupo?  Por que grupos recrutam certas pessoas em lugar de outros?  Quais são as razões para o segredo sobre como uma rotina é praticada em organizações?  Por que um gerente moderno é conhecido por comportamento abrasivo pelos subordinados?  Por que grupos estabelecem metas difíceis?  Como os membros podem melhorar a eficiência de reuniões?  Como as organizações respondem a regulamentos que limitam as ações?  A pessoa pode pensar facilmente em outros assuntos que garantem estudo: mudanças nas propriedades de grupos com o  passar do tempo, por que os membros participam em um grupo, as fontes de conflito entre grupos, os efeitos contrastantes de centralizações e descentralizações em um grupo, as origens das metas de um grupo, as causas de produtividade em um grupo, ou os efeitos do ambiente social em um grupo.  Em um recente volume discuti vários destes assuntos com uma visão para pesquisa estimulante (Zander, 1977).

Por que tópicos maduros não são escolhidos para estudo?  Uma razão, já implícita, é que os investigadores estão ocupados planejando e administrando experiências em assuntos mais familiares; de fato, um investigador raramente se move para assuntos que são imensamente diferentes dos dele ou para áreas anteriores de seu interesse.  Outra razão é que um problema pode ser reconhecido amplamente como um candidato para pesquisa mas não é um tópico aceitável aos olhos de investigadores potenciais, esses que aconselham os investigadores, esses que editam diários, ou esses que provêm capitais para pesquisa.  O problema pode ser bem conhecido, mas deixe de lado porque não há nenhum dado básico no assunto, não podem ser feitas medidas fidedignas do fenômeno envolvido, os assuntos teóricos não são declarados claramente, ou o projeto é muito caro e vai despender muita energia.

Como é dito frequentemente, é verdade que nada é tão prático como uma boa teoria.  Tal teoria pode explicar as causas e esforços de um determinado evento em diferentes situações.  Através dos resultados de pesquisa, as pessoas discernem como melhor se ajudar porque elas identificam que condições conduzem a quais consequências, e por que.  A inovação da pesquisa em dinâmica de grupo esteve em um planalto durante alguns anos.  Não permanecerá neste nível por longo tempo se novas necessidades e novos meios estimularem novos desenvolvimentos entre os estudantes do comportamento de grupo.



05/01/2018

Pitirim Sorokim - A caça aos pequenos grupos elementares

http://www.continents.ventajas.com/bluestunningbar.gif
. O contraponto sempre é interessante, mesmo que de uma forma ácida, agressiva e irônica. Se conseguirmos não nos deixar mobilizar, podemos produzir boas reflexões.


A caça aos pequenos grupos elementares

Pitirim Sorokin
 




Novas Teorias Sociológicas 
http://www.continents.ventajas.com/bluestunningbar.gifSeguindo o preceito dos biólogos do século XIX, segundo os quais o estudo da estrutura e evolução do organismo deveria começar pelas suas formas menores e mais simples, vários sociólogos e psicólogos "descobriram" nestes anos mais recentes o "pequeno grupo" como unidade social elementar. Deram, assim, início a uma intensa investigação de "pequenos grupos" como a forma de abordagem mais promissora para o descobrimento de generalizações aplicáveis aos grandes grupos e ao universo inteiro dos fenômenos sociais. O impulso inicial a esse estudo dos pequenos grupos foi dado pela teoria dos átomos sociais de Moreno e pela sua "sociometria", bem assim como pelos esquemas pseudomatemáticos da "dinâmica de grupo" de K. Lewin. Sob a influência desses autores, vários investigadores mais jovens - como os adeptos da "Dinâmica de Grupo",R.Bales, A. Bavelas, G. G. Homans, E. F. Borgata e outros - empenharam-se entusiasticamente em estudos de pequenos grupos e puseram em moda tais estudos. Os partidários desse movimento vêm cantando loas, num "crescendo", ao caráter revolucionário de suas descobertas e à natureza excepcionalmente científica dos seus estudos. Pretendem ter descoberto, pela primeira vez na história, o pequeno grupo cientificamente - isto é, experimental, objetiva e quantitativamente. Sustentam, da mesma forma, que antes da sua investigação cientifica o que as ciências psicossociais produziram foi, sobretudo, uma filosofia especulativa de gabinete. 

Ao examinarmos cuidadosamente essas pretensões, vemos que são em grande parte infundadas. Quando os métodos de pesquisa desses cientistas são considerados a sério, verifica-se que consistem principalmente em processos pseudoexperimentais e pseudoquantitativos; quando suas descobertas são analisadas, mostram ser ou redescobrimentos de velhas leis, ou ninharias insignificantes, ou simplesmente erros. 

Para início de conversa, os investigadores de pequenos grupos não têm sequer a apresentar uma definição satisfatória do que seja pequeno grupo. Suas definições acentuam duas diferenças específicas dos pequenos grupos: (1) a interação face a face, "em que cada membro recebe uma impressão de outro membro, bastante nítida para que ele possa mostrar uma reação a cada um dos outros como pessoa individual, ainda que seja apenas para tomar conhecimento da presença do outro"; (2) um pequeno número de membros flutuando de um a cerca de vinte cinco. De acordo com esta definição, um encontro face a face de vinte pessoas mais ou menos, até então desconhecidas umas das outras, e em que cada membro recebe uma "impressão clara" de muitos outros membros da reunião - quer se trate de um "cocktail party" casual, quer de uma reunião política espontânea ou de um "revival" religioso - não constitui um pequeno grupo. Por outro lado, uma série de sessões de um parlamento com cerca de 600 membros, em que cada um deles conhece todos os outros, ou uma convenção do Partido Republicano, onde mais de mil delegados, que provavelmente se conhecem todos, interagem face a face, tem pelo menos uma das duas características de um pequeno grupo. Além disso, somos informados de que uma pessoa, quando fala consigo mesma, constitui um "pequeno grupo". Assim, de acordo com as características básicas da definição de um pequeno grupo, muitos grupos grandes são pequenos grupos, enquanto muitos grupos pequenos não são pequenos grupos em absoluto. Como surpresa adiciona, vimos a saber que um pequeno grupo pode ser tão pequeno que consista numa só pessoa. 

Usar os termos "pequeno" e "grande" em sentidos quase opostos aos que geralmente têm não contribui para aclarar a definição. Na verdade, cria uma confusão sem remédio em torno do problema e torna o conceito de pequeno grupo excessivamente vago e até contraditório. 

Além disso, a definição do pequeno grupo não descreve nenhuma classe homogênea de grupos sociais; apresenta-nos, ao invés, uma verdadeira miscelânea de grupos os mais dessemelhantes, pois que qualquer das duas características pode ser encontrada entre os mais heterogêneos grupos ou reuniões de pessoas. Assim, a interação face a face ocorre no encontro de dois amantes, do algoz e do condenado, numa reunião de família, nas reuniões dos diretores de uma companhia, nas interações de uma multidão remoinhante e vociferante; numa discussão de grupo, num pelotão no campo de batalha, numa sessão de parlamento, numa convenção política etc.  A simples razão face a face não torna semelhantes a esses e centenas de outros grupos, nem os inclui na mesma espécie de grupo. Um pequeno número de membros é encontrado entre grupos os mais dessemelhantes: na família, na direção de uma companhia, num grupo de conspiradores revolucionários, numa quadrilha de criminosos, em várias espécies de clubes "fechados" e em centenas de outros grupos tão diferentes uns dos outros quanto é possível ser. 

Unificar os grupos mais heterogêneos numa única classe, a dos pequenos grupos", é contrário à regra científica fundamental de classificação dos fenômenos. É tão anticientífico como a unificação, numa espécie "nariguda", de organismos tão diferentes como insetos, peixes, cães, pássaros e homens, ou numa espécie "rabuda", de cobras, formigas, cavalos e aves. Sabemos muito bem que uma tal espécie é tudo menos uma espécie. Pela mesma razão, a classe dos pequenos grupos não é em absoluto uma classe. A própria tentativa de formar uma classe especifica com os pequenos grupos carece de qualquer base lógica, semântica e empírica. É mais ou menos tão anticientífica como seria a tentativa de um botânico, de formar uma espécie particular de pequenas plantas com todas as que medissem de 1 a 25 polegadas de altura, ou de um zoólogo, de formar uma nova espécie de pequenos organismos com todos aqueles que pesassem de 1 a 25 libras. Em Biologia não existem tais classes taxonômicas; se alguém sugerisse, não teriam a menor possibilidade de ser aceitas. Em sociologia, infelizmente, continuam sendo propostas e têm notável aceitação nos dias que correm. 

O "pecado original" dos adeptos dos pequenos grupos é não possuírem nenhuma verdadeira classe de grupos sociais para seu estudo e de não saberem exatamente o que sejam os pequenos grupos que estão tentando investigar. Esse "pecado" é responsável pelos muitos defeitos e erros de suas diligentes pesquisas - por exemplo, a falsa suposição de que o pequeno grupo é a unidade mais simples dos grupos ou estruturas sociais. Pela interação face a face e pelo número de seus membros, a família é um pequeno grupo; sem embargo, pela sua estrutura e pelas suas funções, é um dos grupos mais complexos e mais enciclopédicos de todas as organizações sociais. Pelo número de seus membros, muitas associações nacionais e internacionais como os partidos Democrático e Republicano, a Federação Americana do Trabalho ou a Associação Nacional de Manufatores, são vastos grupos com milhões de membros. Estrutural e funcionalmente, são grupos muito mais simples do que a família. Estruturalmente, os membros dessas vastas associações são ligados apenas por um único ou uns poucos vínculos ou interesses - econômicos, ocupacionais, recreativos, religiosos ou científicos - ao passo que os membros da família são ligados por muitos vínculos ou interesses. Funcionalmente, as atividades dessas vastas organizações também são muito menos enciclopédicas, mais estreitas e especializadas do que as atividades "enciclopédicas" da família.  Em muitas comunidades reais (Gemeinschaften) são de pequeno tamanho em comparação com muitas associações (Gesellschaften), e no entanto estrutural e funcionalmente, tais comunidades são muito mais complexas do que numerosas grandes associações. O tamanho reduzido de um grupo não faz dele necessariamente um grupo simples, e vice-versa. Os adeptos dos pequenos grupos erram grosseiramente ao igualar pequenos grupos com grupos simples. Se quisermos seguir o preceito "do mais simples ao mais complexo", um estudo dos grupos sociais não tem necessariamente de começar pelos grupos menores e passar depois aos maiores. Esse preceito em si mesmo, porém, não é um principio metodológico universal: em muitos casos é mais aconselhável seguir o preceito aristotélico contrário, segundo o qual as propriedades de um carvalho podem ser estudadas com mais proveito num carvalho adulto do que numa bolota. 

O estudo de pequenos grupos e da espécie de grupos selecionados para estudo pelos pesquisadores de pequenos grupos tem sido feito ao acaso e às cegas. O grosso dos grupos investigados representa uma coleção incidental, semi-organizada ou inorganizada, de estudantes, soldados, trabalhadores ou moradores de um prédio (quarto, apartamento, sala de aulas, seção de fábrica etc.), até então desconhecidos uns dos outros e reunidos atabalhoadamente, muitas vezes pôr ordem de seus superiores ou mediante uma promessa de remuneração, a fim de "discutir", "resolver problemas", "ser entrevistados e interrogados" e outros propósitos artificiais da mesma espécie. Essas reuniões incidentais podem ser descritas com mais exatidão como "grupos de bate-papo". De quando em quando um grupo organizado e inteiramente heterogêneo, como a família em Tikopeia, um clube metropolitano, uma pequena seita religiosa ou uma panelinha política, é estudado pelos investigadores de pequenos grupos, que se esquecem de sublinhar as profundas diferenças entre grupos organizados, inorganizados e nominais: todos recebem o mesmo tratamento. Não admira que o estudo dessa "mélange" de grupos tenha dado escassos resultados. 

A crítica acima não significa que as formas especificas de pequenos grupos não possam ou não devam ser estudadas. Pelo contrário, pequenos grupos como as díades e tríades, a família, uma pequena aristocracia, um pequeno grupo de negócios, uma pequena seita ou partido político, etc., têm sido estudados com proveito. Entretanto, cada uma dessas coletividades é estudada não apenas como um pequeno grupo em geral, mas como um grupo especifico cujas propriedades estruturais, dinâmicas e funcionais não podem ser estendidas a todos ou a muitos grupos com reduzido número de membros. As propriedades básicas da família e as relações de marido-mulher-filho não podem ser extrapoladas muito além da tríade familiar, nem aplicadas a todas as díades, tríade e pequenas coletividades comerciais-religiosas-criminosas-educacionais- militares-politicas. Tampouco podem ser aplicadas aos grupos inorganizados e nominais, e vice-versa. Se as propriedades de um desses grupo específico forem extrapoladas para outros grupos, como costumam fazer os nossos descobridores de pequenos grupos, os resultados não poderão deixar de ser ilusórios, falhos de qualquer sentido ou cognitivamente insignificantes. 

Rejeitamos a asserção dos recentes investigadores de pequenos grupos, segundo os quais, antes das suas pesquisas, tais grupos mal eram estudados, e são eles os seus descobridores. Essa pretensiosa asserção não tem base nenhuma. Desde Confúcio, pelo menos, uma série de pequenos grupos específicos, a começar pela família, têm sido cuidadosamente estudados por muitos pensadores, que os investigaram como grupos específicos e sabiamente se abstiveram de extrapolar os resultados da pesquisa para além do grupo estudado. A esse respeito, seu procedimento foi muito mais cientifico que o dos recentes investigadores da classe fictícia dos pequenos grupos em geral. A família e os familiares, as díades de mestre-aluno, amo-escravo, vendedor-comprador e empregador-empregado; as tríade de juiz-acusador-réu, marido-mulher-amante; as pequenas Bruderschaften, a pequena guilda, casta, aldeia e muitas outras pequenas coletividades já foram bem analisadas pelos autores do Código Hamurabi, por Confúcio, Mo-ti, Mêncio, pelos autores dos Puranas, Tantras, Arthasastras e Nitisastras hindus; foram estudadas nas Leis de Manu, nas Institutas de Vishnu e por autores como Kautilya, Platão, Aristóteles, e especialmente pelos grandes juristas romanos cuja obra foi incorporada no Corpus Juris Civilis. Por si só, este Corpus oferece definições tão adequadas, minuciosas e bem analisadas dos principais grupos, corporações e instituições específicos tanto pequenos como grandes, que ainda vive não apenas nos códigos jurídicos como na própria vida social do Ocidente. Comparadas com essas definições, fórmulas e análises, as feitas pelos recentes
investigadores de pequenos grupos não passam de frívola parolagem. 

Quanto mais depressa esses investigadores abandonarem as suas infantis pretensões de serem os descobridores dos pequenos grupos, e quanto mais depressa fizerem conhecimento com o Corpus Juris Civilis e outros antigos estudos dos principais tipos de pequenos grupos organizados, melhor será para eles e para a Sociologia. 

Quanto mais detidamente examinamos os decantados métodos experimentais, operacionais, quantitativos e objetivos das recentes investigações de pequenos grupos, mais se evidencia o já tão conhecido verniz imitativo desses métodos, aplicado principal ao velho "testemunho de oitiva" dos participantes de grupos recrutados às pressas para "discussão", "solução de problemas" ou, mais exatamente, "bate-papo". Ao primeiro relance, a montagem e os procedimentos desses investigadores nos parecem na verdade proficientes e objetivos. Seus pequenos grupos congregam-se num laboratório especial, equipado com um "espelho unidirecional", com gravadores de som e registradores de interação. Esses frangalhetes supostamente permitem ao investigador observar, gravar e encaixar em uma de suas categorias cada "unidade de discurso" de cada membro. A classificação de R. F. Bales pode servir como exemplo típico de tais categorias. Bales divide nas seguintes classes todas as reações verbais e ações exteriores possíveis dos membros: "(1) mostra solidariedade; (2) mostra relaxamento de tensão; (3) concorda; (4) dá sugestão; (5) opina; (6) dá orientação; (7) pede orientação; (8) pede opinião; (9) pede sugestão; (10) discorda;
(11) revela tensão; (12) mostra antagonismo." 

No fim da sessão, o investigador-observador tem em mãos o registro de todas as unidades de expressão verbal e de ação de cada membro, a quem se dirige cada expressão verbal ou ação, em que ordem se sucedem e a categoria a que pertence cada uma. Esses dados são então submetidos a uma manipulação estatística a fim de nos fornecerem conhecimentos científicos, até então ignorados, sobre os processos de interação e a estrutura e a dinâmica de toda sorte de pequenos grupos. Os resultados obtidos costumam ser generalizados e aplicados a muitos outros grupos, pequenos e grandes. Os pequenos grupos de Bales flutuam em tamanho de dois a dez e de três a seis participantes.

Seus membros são graduandos de Harvard, recrutados por meio do departamento de empregos dessa Universidade.  Os estudantes não se conhecem uns aos outros antes do primeiro encontro. Cada grupo teve quatro reuniões para discutir um "caso relações humanas". 

A despeito de todo esse verniz cientifico, o processo inteiro é, na realidade, altamente subjetivo, arbitrário e baseado em pressuposições excessivamente vagas e idéias duvidosas. Em primeiro lugar; conceitos centrais do estudo - a "unidade de expressão verbal" e a "unidade de ação" - ficam praticamente sem definição. Devemos considerar cada palavra separada como uma "unidade de expressão verbal"? ou cada proposição formada de sujeito-cópula-predicado? ou uma série de proposições que versam sobre o mesmo assunto? ou que mostram o mesmo colorido emocional? ou que se dirigem ao mesmo membro? ou que? Um esboço muito vago e nebuloso dessas unidades não facilita em nada a sua definição. Daí resuIta que só a decisão perfeitamente arbitrária do observador determina que palavras ou atos compõem uma "unidade de expressão verbal" ou uma "unidade de ação".  Como esses conceitos centrais ficam sem definição, toda a gigantesca estrutura analítica e estatística construÍda sobre eles não passa, em suma, de uma miragem. 

Não menos arbitrária é a operação de classificar cada "unidade de expressão verbaI" e cada "unidade de ação" de cada participante na continua e veloz corrente de palavras e de movimentos muitas vezes simultâneos. À diferença dos calculadores eletrônicos, o "registrador de interação" não classifica automaticamente as unidades de expressão verbal e de ação numa das doze categorias. A classificação é feita - também a toda a pressa - pelo próprio observador. Este, naturalmente, não tem tempo para analisar, cuidadosamente se as palavras pertencem a categoria "dá sugestão", "dá opinião" ou "dá orientação"; ou se incluem na categoria "discorda", "revela tensão" ou "mostra antagonismo". Mesmo que dispusesse de bastante tempo, ainda assim lhe seria difícil e muitas vezes impossível fazer uma classificação acurada, pois é tão grande a semelhança entre as categorias "dá sugestão", "dá opinião" e "dá orientação" que só mesmo uma intuição sobrenatural poderia distinguir entre elas e classificar cada uma sem perigo de erro. O mesmo se pode dizer das categorias "discorda", "revela tensão" e "mostra antagonismo".

Considerando-se que o observador, durante toda a sessão do seu grupo de "bate-papo", tem de registrar cada "unidade de expressão verbal" (indefinida), cada "unidade de ação" (também indefinida) por quem eIa é enunciada ou praticada, a quem se dirige e a qual das suas mal-definidas categorias pertence; considerando que vários membros do grupo podem estar falando e agindo simultaneamente; e considerando a pressa com que ele deve proceder a todos esses registros, análises e classificações, concluímos que não há observador capaz de desempenhar com exatidão e objetividade essas tarefas impossíveis. É inevitável que ele as realize impulsivamente, arbitrariamente e às tontas. Portanto, se dois aspectos básicos do estudo - a definição das unidades de expressão verbal e de ação e o método usado para classificá-Ias - são predominantemente subjetivos e arbitrários, a maioria dos outros dados da pesquisa, a maior parte de sua superestrutura estatística e o grosso das conclusões também serão subjetivos, arbitrários, pseudo-experimentais e pseudoquantitativos. Não há trangalhetes nem espelhos unidirecionais, não há longas séries de cifras e de índices que possam disfarçar a natureza essencialmente anticientifica de toda essa operação de pesquisa.
Vários outros defeitos importantes vêm viciar ainda mais essas operações. A classificação das doze categorias é feita a esmo. Não tem nenhum fundamentum divisionis. Várias dessas categorias, como "dá sugestão", "dá opinião" etc., são tão semelhantes e em parte coincidentes que o mais cuidadoso dos investigadores, com tempo de sobra, não poderia decidir a qual delas pertence esta ou aquela "unidade de expressão verbal". Por outro lado, a classificação numa só categoria, palavras e ações notavelmente dissímiles entre si. Por exemplo, a categoria "dá orientação" abrange "informação, repetição, esclarecimento e confirmação". Evidentemente, "repetição não é sinônimo de "informação", e "esclarecimento" significa algo diferente de "confirmação". Uma classificação tão mal-amanhada do ponto de vista lógico como do fatual é um instrumento dos mais insatisfatórios para um estudo de unidades verbais e comportamentais e torna inevitável o caráter altamente arbitrário e subjetivo da operação de pesquisa. 

Acresce que as categorias da classificação se propõem a descrever tecnicamente as reações verbais dos participantes; não são apropriadas para lhes descrever as ações não verbais. Omitindo quase inteiramente a conduta exterior dos participantes e os motivos de suas ações, os estudos dos nossos investigadores não fazem mais do que deslizar sobre a superfície verbal, sem tocar na conduta exterior dos membros de seu grupo incidental de "bate-papo". Neste sentido, a pesquisa é superficial e esquiva quase totalmente os problemas reais da interação social e dos fenômenos de grupo. 
As pretensiosas "descobertas" desses investigadores são, na realidade, ou trivialidades ponderosamente formuladas, ou tautologias disfarçadas por tábuas estatísticas, revelações há muito descobertas transcrições deturpadas das ciências físicas, ou simplesmente erros. Aqui vão alguns exemplos típicos dessas "descobertas". Se necessário, poderiam ser multiplicados à vontade.
"A interação é um processo que consiste em ação seguida de reação." Que magnífica tautologia! "[Para a liderança] deve existir um grupo com uma tarefa comum... e pelo menos um membro deve ter responsabilidades que difiram das dos outros membros" (R. M. Stodgill). Que verdade profunda! Eis ai uma descoberta quase tão nova como aquela de que "após a primavera vem o verão e, após o verão, o outono". No entanto, como não raro sucede com esse gênero de trivialidades, o autor da asserção esquece por vezes que o grupo e sua tarefa comum são criados por um líder.
"Alguns membros [de um grupo] podem ser considerados como superiores a outros na liderança [porque têm a responsabilidade de tomar decisões] (Stodgill)." Extraordinária, esta nova descoberta, não conta nem um dia mais do que 5.000 anos de idade. 

"Um aspecto significativo da nossa sociedade é que as pessoas desejam participar de grupos" (L. Festinger). Que revelação esta, especialmente depois das proposições de Aristóteles: "O homem é naturalmente um animal político" e "Em todas as pessoas existe um impulso natural para se associarem umas com as outras." 

Não menos impressionante é a descoberta de "por que as pessoas buscam a participação em grupos", de Festinger.  A resposta é porque "os grupos frequentemente [facilitam] a consecução de importantes metas individuais". As atividades dos grupos são amiúde atraentes para os membros. E são atraentes "por que as pessoas têm necessidades que só podem ser satisfeitas em grupos". O autor esquece de mencionar várias limitações importantes a estas verdades, como o fato de milhões de pessoas se tornarem membros de um grupo automaticamente, sem que os seus desejos sejam levados em conta. Por exemplo, a cidadania num Estado ou a participação numa casta é automaticamente imposta a todos os que nascem em tal ou tal Estado, ou de pertencentes a tal ou tal casta; por vezes muitos indivíduos, tais como prisioneiros de guerra ou criminosos, são coagidos a integrar um grupo de internados num campo de concentração ou presídio, contrariamente aos seus desejos. Essas participações automáticas e indesejáveis em grupos desempenham um papel não menos importante na vida de milhões de pessoas, do que as participações voluntárias e procuradas. 

A mesma conclusão é válida para os "descobrimentos" de Festinger sobre a relação entre a amizade (ou inimizade) e a proximidade territorial e "funcional", sobre as condições de uma ação comunitária eficaz e a quase todas as suas conclusões supostamente derivadas de estudos "experimentais" dos grupos de Regent Hill e de Westgate - seus estudos de "dissonância cognitiva." Cada uma de suas conclusões foi incomparavelmente melhor formulada, desenvolvida e demonstrada por muitos investigadores sociais das gerações anteriores.
Consideremos agora alguns descobrimentos relativos à "coesividade" dos grupos. Segundo John Thibaut, o termo coesividade significa "o campo total de forças que agem sobre os membros no sentido de fazê-los permanecer no grupo." Tanto o termo como a sua definição representam uma versão desvirtuada de uma proposição da Mecânica, tomada de empréstimo às ciências físicas. É uma asserção extremamente vaga e inadequada. Sem uma diferenciação preliminar da espécie de grupos cuja "coesividade" esta em causa, não é possível alcançar uma compreensão real das formas e das forças de "coesividade". O caso é que existem grupos "voluntários" e "coercivos", ou, mais precisamente, "familísticos" "contratuais" e "compulsórios". A diferença básica entre esses grupos manifesta-se por uma diferença fundamental das forças de coesividade que agem em cada um deles.  Os fatores que congregam os membros de uma família numa unidade e que permitem a esta manter a sua identidade, "coesividade" e continuidade são bem diversos dos fatores que obrigam os internados de uma prisão a permanecer no grupo. As forças que mantém juntos os empregados e o empregador de uma firma comercial ou industrial também são diversas daquelas que conservam unida uma família, um grupo de penitenciária ou os membros da Associação Norte-Americana de Sociologia. 

Esta diferenciação dos tipos de grupos que se conservam unidos e dos tipos de vínculos que os mantém nessa condição não é feita com clareza no estudo de Thibaut nem em outros do mesmo gênero. Resulta daí que todos os diligentes esforços desses sociólogos estudarem cientificamente o problema da coesividade dos pequenos grupos ainda não produziram nem uma só descoberta nova e significativa. Em comparação com o cabedaI de conhecimentos existentes nesse campo, as suas teorias, as uniformidades por eIes "descobertas e a sua visão integraI do problema, com todas as respectivas ramificações, ainda continuam na fase primitiva - uma fase há muito ultrapassada pelas ciências psicossociais de hoje. 
Aqui está a descoberta seguinte: "A atração do grupo é função das forças resultantes que agem sobre o membro."  Que "forças resultantes"? E como agem elas sobre os membros? Em Mecânica, todos esses termos são rigorosamente definidos e mensuráveis. Aqui, permanecem simples palavras vagas, sem qualquer significado ou mensuração definida. 

Continuemos a descobrir as "descobertas" dos nossos "pioneiros. Eis aqui novos exemplos de sua tautologia: "O termo coesão [de grupo] refere-se a fenômenos que assumem existência quando (e somente quando) existe o grupo." [Extraordinário, isto!] "Os membros do grupo que são... amigos... tendem a mostrar mais interesses uns pelos outros como pessoas, talvez a se prestarem mais apoio mútuo, a serem mais cordiais nas relações interpessoais." [Outra grande revelação! Reparem, especialmente, na extrema cautela "científica" deste notável "talvez".] Antes desta revelação julgávamos ingenuamente que, sem nenhum "talvez", "amizade" implicasse interesse mútuo, cordialidade e apoio aos amigos. Depois de tais revelações, inclino-me a repetir as palavras de Saintsbury: "Ó chavões! Ó rótulos! Ó parvoíces!" 
"Um aumento na frequência da interação entre pessoas pode intensificar-Ihes o sentimento favorável umas para com as outras." Se assim é, quanto mais frequentemente lutarem (interagirem) vietnamenses e americanos, mais favorável será o sentimento que desenvolverão uns em relação aos outros. Por conseguinte, a interação de luta e de ódio é um fator tão eficaz para o desenvolvimento da mútua admiração, simpatia e altruísmo quanto a ajuda recíproca Felizmente para Homans, no fim do parágrafo que enuncia e desenvolve esta generalização "cientifica", ele parece ter percebido o seu erro unilateral, pois acrescenta, em quatro palavras apenas, duas outras consequências possíveis da interação freqüente - a saber, o desenvolvimento de "respect or, worse, antagonism" (respeito ou, o que é pior, antagonismo). 

"A formação de grupos de cisão desintegrará a organização mais vasta quando as metas do grupo menor são incompatíveis com as do maior." Outra bela tautologia! Os grupos de cisão tendem a cindir ou desintegrar! Mas, como sucede a muitas tautologia, a asserção tautológica sob esta forma é inadequada, pois, em vez de desintegrar o grupo maior, o grupo menor é mais comumente suprimido por ele. Não menos empiricamente unilateral é a afirmação de que "a tendência para se fragmentar seria tanto mais provável quanto maior fosse o grupo". Se esta generalização fosse verdadeira, nenhum grande império, organização religiosa mundial ou grande sindicato de trabalhadores poderia surgir e existir por muito tempo. Na realidade, porém, durante a história da humanidade sempre houve vastos grupos, que, por via de regra, tiveram existência mais longa do que os grupos pequenos. 

R. F. Bales e seus associados iniciam o seu ensaio com a seguinte afirmação: "As frequências de comunicação entre os membros de pequenos grupos de contato pessoal mostram certas regularidades notáveis que não tinham sido descritas até agora... A detecção dessas regularidades representa uma significativa conquista para os nossos conhecimentos sobre a distribuição da comunicação em pequenos grupos e fornece uma estrutura básica de ordem, dentro da qual podem ser feitas muitas outras análises detalhadas dos processos de interação." Quanta modéstia!

Mas que são exatamente essas notáveis e significativas regularidades"? "Os fatos averiguados indicam que, se os participantes de um pequeno grupo forem classificados de acordo com o número total de atos que iniciam, tenderão a classificar-se na mesma ordem: (1) pelo número de atos que recebem; (2) pelo número de atos que endereçam a outros indivíduos específicos; e (3) pelo número de atos que dirigem ao grupo como um todo". 

Em palavras singelas, essas poderosas "uniformidades" significam que, num grupo de discussão, os membros mais palradores falam com mais frequência do que os outros membros e são respondidos com mais frequência pelos membros menos palradores. Desta bela tautologia podemos deduzir uma nova "notável e significativa uniformidade", omitida por Bales: As pessoas caladas falam com menos frequência do que os outros membros e são respondidas com menos frequência pelas pessoas mais loquazes. 

Como muitas outras tautologias, a de Bales não pode de forma nenhuma ser considerada como uma regra geral empírica para todos os grupos, pequenos e grandes. No grupo do tribunal, formado pelo réu, pelos advogados de acusação e defesa e pelos jurados, a maioria das manifestações verbais, contrariando a uniformidade de Bales, se dirigem aos jurados e ao juiz. Os jurados, por via de regra, permanecem silenciosos ao invés de serem os que mais falam; o próprio juiz geralmente fala menos do que os advogados. Um conferencista, um pregador e um comandante de pelotão a dar ordens são os únicos membros falantes dos respectivos grupos. Em geral, porém, não costuma estabelecer-se diálogo entre eles e os demais membros dos respectivos grupos. Num grande número de diferentes grupos, todos os membros falantes dirigem-se ao presidente, e contudo, este é muitas vezes o que menos fala no grupo. E assim por diante. 

Na imensa maioria dos grupos pequenos e grandes as "uniformidades" de Bales constituem antes as exceções do que a regra, do ponto de vista de quem realmente fala, a quem é dirigida a palavra, e com que frequência. E, o que é ainda mais importante, não há necessidade de uma diligente pesquisa do tipo Bales para averiguar a ordem, a frequência e as espécies de manifestações verbais dos vários membros de quase todos os grupos organizados: tudo isso pode ser deduzido facilmente da constituição de tais grupos. As leis, e regulamentos de cada grupo organizado fornecem informações muitíssimo acuradas sobre todos esses pontos do que as vagas e em grande parte fictícias uniformidades que os investigadores de pequenos grupos obtêm com um enorme desperdício de tempo, energia e fundos. 
Se repassássemos página por página todos os estudos publicados pelos recentes investigadores de pequenos grupos, encontraríamos, em quase todas as páginas, "descobertas", conceitos, definições e teorias representados pelos exemplos que demos acima. No entanto, leitura atenta dessas obras não me revelou uma só descoberta nova de importância mesmo terceira. Encontrei, sim, uma superabundância de pseudodescobertas. Os nossos investigadores, a passear num parque de fatos bem-cultivados parecem imaginar-se os pioneiros-exploradores de uma terra até então desconhecida, ou os primeiros escaladores de montanhas e picos científicos que, na realidade foram conquistados há muito tempo.


50 Teorias relevantes ao aprendizado

http://www.instructionaldesign.org/theories/index.html

02/01/2018

Paulo Freire e Humberto Maturna: Diálogo (Im)Possível?

https://www.metodista.br/revistas/revistas-unimep/index.php/comunicacoes/article/viewFile/2123/1498

Biblioteca Maturana da Escola de Redes

Este site disponibiliza grupos de estudo, livros, entrevistas, textos, e muito mais, sobre a obra de Humberto Maturana.

http://escoladeredes.net/group/bibliotecahumbertomaturana

A Epistemologia de Maturana

Epistemologia de Maturana
Licenciatura Plena em Química (Universidade de Cruz Alta, 2004)
Mestrado em Química Inorgânica (Universidade Federal de Santa Maria, 2007)
O termo epistemologia se refere ao estudo sobre a produção do conhecimento. Quando se menciona, no entanto, a epistemologia das ciências, se está abordando os pensadores que se preocuparam em investigar como se constrói um conhecimento de natureza científica. Dentre eles, Humberto Maturana merece destaque.
Maturana é biólogo, nascido em 1928 em Santiago, no Chile. Iniciou seus estudos acadêmicos na medicina, mas acabou seguindo carreira na biologia. Obteve Ph.D em biologia na Universidade de Harvard, e trabalhou em neurofisiologia no M.I.T. Atualmente é professor do Departamento de Biologia na Universidade do Chile. Sua obra de maior destaque chama-se Cognição, Ciência e Vida Cotidiana. Seu principal conceito é o da autopoiese.
Buscar-se-á propor um breve resumo sobre os principais conceitos em Maturana, não em sentido de resumo de toda sua obra ou resenha, mas em caráter pessoal de quem escreve, através dos itens abaixo:
  • Maturana é um epistemólogo diferenciado dos demais, pois é biólogo, ao contrário dos outros, que são físicos.
  • De acordo com ele, deve-se levar em conta sempre o observador, pois jamais há isenção entre observador e observado.
  • Assim, o explicar sempre depende do observador.
  • Sem linguagem o homem não existe. Vivemos todos na linguagem, a qual se fundamenta nas emoções, e estas são a base do fazer científico.
  • Maturana explica o conhecer a partir do conhecedor.
  • Não há sentido nem possibilidade de se conhecer sem se levar em conta o conhecedor.
  • Toda sua abordagem em ciências é de cunho biológico, e não físico.
  • Seu principal conceito é do da autopoiese, ou seja, um sistema que se auto regula. Esse conceito também ficara conhecido como a biologia do conhecer.
  • O conhecimento é uma perturbação de nosso sistema cognitivo, pois podemos fazer as nossas mudanças nas estruturas, mas não nas organizações estruturais, ou seja, em suas identidades.
  • A explicação sempre gera uma interpretação de nossa própria experiência.
  • Para Maturana, uma explicação torna-se válida apenas pela existência de alguém que a aceite como tal, sem nenhuma necessidade de outro embasamento.
  • Todo ser vivo tem características de organização, onde a perda da organização é a morte.
  • Essa organização, entretanto, não é estática, mas sempre existe uma organização cognitiva.
  • Não é o exterior quem determina a experiência, o sistema sempre funciona a partir de correlações interiores.
  • Conforme fora mencionado, sua noção de verdade reside apenas na aceitação desta por alguém, sem nenhuma necessidade de qualquer embasamento empírico.
  • O homem possui existência na linguagem, na comunicação. Assim, o homem não pode ser visto como um ente isolado.
  • Muitas vezes não é possível distinguir-se entre a observação e a ilusão, de modo que, de acordo com a sua visão, a ciência não pode ser objetiva.
  • O explicar algo é sempre uma reformulação do que “eu” já tive, até porque utiliza a “minha” própria linguagem. Não há possibilidade de existência de um conhecimento sem influência de quem o descreve.
  • tolerância apenas considera uma posição; a aceitação compreende-a sob a ótica do outro.
  • A linguagem não existe na transmissão de informações entre o transmissor e o receptador, mas em uma modelagem entre eles.
  • A diferença do conhecimento científico é que o cientista que o produz deve ser cuidadoso para não permitir que as emoções intervenham no critério da validação das informações.
  • A ciência possui critérios de validação para a explicação, mas essa explicação jamais é única.
  • A ciência é uma atividade humana, conectada ao conhecimento. Ou seja, uma das formas que temos de produzir conhecimento chama-se coência.
  • Entretanto, esses critérios de validação não exigem que o observador seja independente daquilo que observa.
  • Somos nós que decidimos o que mudar em nosso sistema cognitivo no processo do conhecer, modificando a sua estrutura, mas jamais modificando a sua organização interna, que lhe dá suporte e caracteriza o ser vivo.
  • Nós estamos tentando perturbar os “sujeitos”, mas serão eles que decidirão o que fazer com essas perturbações.
Referências:
MOREIRA, Marco Antônio; MASSONI, Neusa Teresinha; Epistemologias do Século XX, EPU, São Paulo, 2011.

Videos com palestras, dialogos e entrevistas de Humberto Maturana



https://www.youtube.com/watch?v=bhkrB8WntNA